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11/09/2010

Elas também tocam jazz: Amina Figarova

Para o All Music Guide ela nasceu em 1966, para o All About Jazz, em 1964. Seja lá como for, Amina Figarova nasceu em Baku, Azerbaijão, país que tive o privilégio de conhecer. Incentivada pelos pais, aos dois anos de idade começa a aprender o piano. Embora tenha estudado durante algum tempo piano clássico no Baku Conservatory, sofreu forte influência dos pais, grandes amantes do jazz, o que a levou a estudar o estilo no Rotterdam Conservatory e no Berklee College of Music, em Boston. É durante este período que, além de amadurecer como instrumentista, Amina revela seu talento como compositora e arranjadora. Além de se apresentar com seu próprio conjunto, que inclui o flautista e marido Bart Platteau, Amina já trabalhou com diversos músicos importantes, entre eles James Moody, Larry Coryell, Nathan Davis e Claudio Roditi. Presença constante em importantes festivais, como The North Sea Jazz Festival, New Orleans Jazz Festival, Capetown International Jazzfestival, Salvador Jazz Festival, JakArt Festival e clubes como Yoshi's e Blue Note, Amina tem ainda realizado diversas turnês pela Europa, Oriente Médio e Américas. 

Em 11 de setembro de 2001, Amina estava no Brooklyn, hospedada na casa de amigos, quando tudo aconteceu. Em homenagem aos mortos, compôs a belíssima September Suite. Para os amigos, fica a faixa Sharp Corners , retirada do álbum Above The Clouds, gravado em 2008 para o selo Munich Records. Amina vive atualmente em Rotterdam.

01/04/2009

One day in Kiev

Depois de tanto tempo perdido tentando defender que as mulheres também sabem tocar jazz, enfim voltamos a falar sério. Após trocarem infinitas cartas carameladas de amor durante quase um ano, John Lester finalmente resolve conhecer Sabina, uma daquelas beldades tipicamente russas: pele branquíssima, sensível ao sol, estômago firme, indiferente à vodka, olhos e cabelos cinza-amarelados, como os de um puma. Sabina R. – sim, Lester pediu-me que ocultasse o sobrenome da moça – era, para mim, apenas mais uma extraordinária paixão idealizada pelo amigo carioca, cheio de teses e teorias sobre as mulheres e o amor. Ele sempre repetia em nossas reuniões no Clube das Terças: um dia ainda namoro uma socióloga russa! E o tempo passou, até que um dia, investido com aquele ar grave de quem está prestes a espremer um furúnculo, Lester declara: “Fred, prepare as malas. Estamos partindo para o Azerbaijão! Sorri, perguntando ao garçom que diabo de bebida teria sorvido Lester e pedindo-lhe uma dose daquilo. E Lester prosseguiu: “Faremos escala em Moscou, onde Sabina nos espera com uma amiga que adora a Espanha e ficou bastante excitada com a perspectiva de conhecê-lo. Você topa?”. Entre surpreso e animado, concordei apreensivo e, de fato, duas semanas depois desembarcávamos em Moscou. Lester carregava apenas uma pequena mochila, contendo dezenas de cuecas, meias e camisetas Hering brancas. Sobre seu corpo, um espesso sobretudo de couro forrado com lã de carneiro, legado que seu avô, ex-combatente da FEB, havia usado na campanha da Segunda Guerra na Itália. "Abateu cinco aviões nazistas", vangloriava-se Lester.

Minhas três malas fartas lembravam assustadores ursos polares mas não foram suficientes para aplacar o frio e quase nos fizeram chegar atrasados ao encontro com as jovens azerbaijonas. Quando me viu, Nikki pensou que meu nariz congelado fosse quebrar a qualquer momento, motivo pelo qual, abandonando as malas na calçada, corremos todos para o bar mais próximo, onde compressas mornas conseguiram mantê-lo em meu rosto. E, embora ainda sem olfato, pude finalmente conhecer Sabina, em carne, osso e beleza. Enquanto Nikki cuidava de meu membro ainda endurecido, percebi que Sabina e Lester cochichavam algo animadamente na mesa ao lado. Entre outras coisas, comentavam sobre a moça que tocava piano no fundo do bar, Aziza Mustafa Zadeh. Mais tarde, já em Baku, onde Sabina morava e trabalhava numa empresa petrolífera, ficamos conhecendo os discos do pai de Zadeh, o pianista Vagif Mustafa Zadeh, talvez o maior músico de jazz do Azerbaijão. Também nascido em Baku, em 16 de março de 1940, Vagif morreu muito cedo, aos 39 anos, vítima de um ataque cardíaco. Começou a estudar o piano aos 3 anos, graduando-se no Baku State Musical Technicum e ingressando logo em seguida no Azerbaijani State Conservatorium. Apesar da sólida formação clássica e do talento extraordinário, Vagif apaixonou-se pelo jazz, tornando-se um dos primeiros músicos importantes desse estilo num país ainda pouco afeito ao jazz naqueles tempos. Abandonando o Conservatório, lidera o conjunto Orero. Mais tarde, fundaria o trio Qafqaz, criando o quarteto Leyli (com mais três mulheres) e dirigindo o grupo Sevil. Sempre presente nos festivais de jazz da Rússia e do Azerbaijão, Vagif teve seu valor musical reconhecido ainda em vida. Dizzy Gillespie disse o seguinte sobre ele: “Vagif was a great genie but I think he was born before his time. Vagif’s music is from another planet. It’s Music from the Future”. Na verdade, embora Dizzy tenha tentado elogiá-lo, Vagif não era um músico posterior ao seu tempo, nem sua música era de outro planeta.

Na faixa The Man I Love podemos perceber, além da sua virtuosidade explícita, um refinamento e uma sensibilidade bastante contemporâneos, diria mesmo românticos à maneira russa, e nada alienígena. Talvez o que Dizzy tenha considerado de outro mundo tenha sido o componente folclórico que Vagif fez questão de fundir com o jazz, baseado no Mugham, um dos estilos típicos do Azerbaijão, que guarda proximidade com a música persa. Baseado na escala modal, é um estilo complexo e que exige muita destreza do executante, mas não há nada de extraterrestre nele, exceto, talvez, na concepção de um trompetista do bebop que confunde o planeta Terra com New York. Se não houvesse essa terrível restrição de caracteres nas resenhas Jazzseen eu poderia contar mais sobre nossa aventura, como nossa visita ao Cáucaso, terra onde nasceu o vinho e onde perdi meu lóbulo esquerdo. Mas fica para a próxima. Na faixa, retirada do álbum One day in Kiev, gravado em 1978 e lançado em 2003 pelo selo Taras Bulba, Vagif é acompanhado por dois indivíduos cujos nomes eu não consigo ler e meu teclado não consegue escrever.