
Por muito pouco minha aventura na África não terminou em tragédia: incentivado por alegres nativas, besuntei todo o corpo com uma mistura estimulante de casca pulverizada de akyie fofo com pimenta moída: após 16 horas ininterruptas de folguedos e cópulas, pude perceber os primeiros sintomas do vômito jamaicano, doença causada pelos peptídeos hipoglicina A e B, ambos altamente tóxicos, encontrados na akyie fofo ou, como é mais conhecida no Brasil, akee ou castanheira-da-áfrica. Logo eu, tão acostumado a preparar um bacalhau refogado em akee, gordura de porco, cebolas, pimentão e tomates, fui esquecer que apenas o arilo das sementes da castanheira-da-áfrica é comestível, sendo todas as demais partes da planta altamente tóxicas, causando queda da glicose do sangue, vômitos, lesão hepática, crises convulsivas e até mesmo a morte. Por sorte, estávamos acompanhados por Gil Felippe, Ph.D. em botânica pela Universidade de Edimburgo, Escócia, professor da Unicamp e membro titular da Academia de Ciências de São paulo: não fosse sua astúcia e agilidade, fazendo-me engolir de uma só vez 63 jenipapos selvagens, provavelmente eu teria sido abraçado por Exu.
Reabilitei-me ouvindo o saxofone barítono de Virgil Gonsalves , em companhia de Bob Enevoldsen (vtb), Buddy Wise (ts), Lou Levy (p), Harry Babasin (b) e Larry Bunker (d), álbum gentilmente cedido por Jacques enquanto viajávamos sobre confortáveis corcovas de camelos em direção ao norte da África. Minha amizade com o advogado Jacques Vergès, mais conhecido como l'avocat de la terreur, começou em minha primeira viagem ao norte da África. Através dele conheci um outro lado do ex-delinqüente Gérard Depardieu, grande ator que encontrei em meio às videiras de St. Augustin, na Argélia, onde produz um encorpado tinto.
Nem todos sabem que o narigudo francês é co-proprietário com Alain Paret de uma decente vinícola em Condrieu, norte do Rhone, onde produz um agradável branco a partir da viognier, variedade gaulesa de alta qualidade e baixo rendimento. Foi somente em minha segunda viagem ao norte da África, que descobri com Gérard que Marrocos, Tunísia e Argélia eram responsáveis, na década de 1950, por 2/3 do comércio internacional de vinhos, muito por conta da exportação para a França. A Argélia, por exemplo, chegou a ser o maior exportador de vinho do mundo por ampla margem. Após a independência, com o bloqueio francês, toda a região deteriorou-se, aniquilando a vinicultura no país. Por sorte, mais de 50 anos livres da opressão colonialista, alguns países estão conseguindo lentamente reerguer sua vocação vinícola, como é o caso do Marrocos que, após sua libertação da França, em 1956, e mesmo tendo perdido 82% de suas videiras, já consegue produzir alguns vinhos bastante honestos, como é o caso do Ksar Rouge, um corte de merlot, carignan, cabernet sauvignon e syrah, produzido pela Les Celliers de Meknès.
E assim foi. Prometo aos milhares de assíduos leitores do Jazzseen retornar em breve, assim que terminar de ler o Dicionário de Fernando Pessoa, lançado pela Leya, e após redigir uma pequena orelha de um grande livro que já está no prelo. Notícias em breve!