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02/06/2011

Andréa Ramos canta no WunderBar

Nesta sexta-feira às 20:00h Andréa Ramos canta no WunderBar Kaffee com Jorge Tarzan violão e voz, e Mhellão na percussão.

Uma boa oportunidade de ouvir samba, bossa e jazz, num ambiente agradável.

O WunderBar Kaffee fica na av. Rio Branco, 1305 - Praia do Canto, Vitória - ES, 29055-643
Reservas: 3227-4331

26/05/2011

Guy Lafitte - Blue and Sentimental

Infelizmente, somente em minha segunda visita a Paris tive o privilégio de conhecer o Sunside Jazz Club, certamente um dos melhores clubes parisienses de jazz tradicional, criado em 2001 especificamente para a apresentação de música feita com instrumentos acústicos. O clube que lhe deu origem, o Sunset, é mais antigo. Localizado no coração da cidade, entre o Forum des Halles e o Centre George Pompidou, o Sunset Jazz Club foi criado em 1983 por Michele and Jean Marc Portet, sendo o primeiro da Rue des Lombards, logradouro que conta com outros importantes clubes de jazz, entre eles o Le Baiser Salé e o Le Duc des Lombards. Tendo começado a funcionar como bar e restaurante, foi por insistência dos músicos que frequentavam o local que surgiu ali um clube de jazz. O repertório inicial do Sunset era dedicado sobremaneira ao estilo Fusion, sendo ampliado aos poucos, de modo que praticamente todos os estilos fossem acolhidos no estabelecimento. Não é à toa que por lá passaram músicos tão diferentes como Jaco Pastorius e Benny Golson ou Didier Lockwood e Tal Farlow. Além dos músicos locais, como Barney Wilen e Michel Petrucciani, já tocaram ali nomes como Steve Lacy, Frank Morgan e Lee Konitz.

Em 1993, Stephan Portet decide ampliar definitivamente os estilos de jazz tocados no Sunset, transformando-o num "club of all jazz". Desde então, podemos ouvir antigos e novos talentos apresentando-se na casa, como Roy Haynes, Bireli Lagrène, Richard Galliano, Jacky Terrasson, Laurent de Wilde, Ravi Coltrane, Dewey Redman, Truffaz, Julien Lourau, Sylvain Luc, Stefano di Battista, Paolo Fresu, Bojan Z, David Linx, Richard Bona, Magic Malik e muitos outros. O sucesso do clube pode ser avaliado também por seus frequentadores, entre eles Miles Davis, Herbie Hancock e Wynton Marsalis. Finalmente, no dia 13 de outubro de 2001, nasce o Sunside, dedicado aos instrumentos acústicos, ficando os amplificados a cargo do Sunset. Caso único no mundo: um só local com dois clubes anexos, apresentando dois shows todas as noites, sete dias por semana!


Naura Telles, fumando um cigarrinho no Sunside


Em homenagem aos velhos tempos, deixo a faixa Blue and Sentimental  , sob os auspícios de Guy Lafitte, saxofonista tenor francês nascido em 1927. Embora tenha iniciado a carreira tocando clarinete, em 1947 Guy toma o saxofone como seu primeiro instrumento, provavelmente após ouvir Coleman Hawkins tocando Body and Soul. Antes de sua morte, em 1998, Guy estabeleceu-se como um dos melhores saxofonistas franceses do Swing, formando seus próprios conjuntos ou acompanhando músicos que visitavam a Europa, como Bill Coleman e Buck Clayton. Além de ter participado como sideman de um bom número de gravações, Guy gravou também como líder, em especial para a Pathe, Columbia e RCA. Com ele estão Geo Daly (vib), Raymond Fol (p), Jean Bonal (g), Alix Bret (b) e Bernard Planchenault (d).

Durante minha primeira visita a Paris, eu não sabia, Guy fazia sua última apresentação no Sunset, morrendo poucos meses depois. 

   


Guy

28/12/2010

Ornette Coleman na praia do sono

Enquanto saboreava uma devassa loura na belíssima e deserta Praia do Sono, em Paraty, na expectativa vã de recuperar-me dos exageros natalinos, podia ouvir ao longe uma música que, até então, seria absolutamente inpensável naquelas paragens: Spring Is Here, composição de Ornette Coleman, mas sob interpretação digna e, em diversas passagens, virtuosa. Certamente não é Coleman quem pilota o saxofone, assim como parecia certo que estaria delirando sob o efeito desse azul estonteante de Van Gogh que recobre o céu e o mar  de Paraty em fortes pinceladas. Ao abrir mais uma garrafa recoberta por aquela sensual  nuvem de gelo, para que pudesse aplacar a sede provocada por camarões flambados na cachaça local e servidos no abacaxi, pude ouvir, dessa vez nitidamente, embora sem ainda identificar a origem, mais uma composição de Coleman, Complete Communion, interpretada pelo mesmo grupo. Olhando para todos os lados, em busca de alguma informação que indicasse a fonte de tão inusitada sonoridade, nada vi, exceto uma sonolenta escuna rasgando suavemente aquele delicioso mar sem ondas. Ela vinha em minha direção. Visivelmente alcoolizados, quatro pessoas saltam aleatoriamente da escuna, desferindo grotescas barrigadas sobre a água, enquanto alguns dedicados tripulantes lançavam coloridas bóias em suas direções, o que tornou viável sua sobrevivência até as branquíssimas areias da, até então, tranquila praia.

Entre eles, identifiquei imediatamente Aldo Romano, o aclamado baterista de jazz que, embora tenha nascido na Itália,  mudou-se ainda criança para a França, onde o conheci numa de suas inúmeras apresentações no le Chat Qui Pêche, famoso clube de jazz francês. Emocionados, lembramos dos bons tempos em podíamos trocar o prosecco pelo champagne. Foi nesse período que Aldo tocou com os mestres do Hard Bop em Paris, como Jackie McLean, Bud Powell, Lucky Thompson, J.J. Johnson e Woody Shaw. No entanto, sua mente aberta e sempre disposta a explorar novos desafios possibilitou experiências com o Free Jazz, desenvolvendo trabalhos com gente como Don Cherry, Gato Barbieri, Frank Wright, Michel Portal e Steve Lacy. Na década de 1970, seduzido pela eletricidade, integra o conjunto Riverbop, ao lado do contrabaixista Jean-François Jenny-Clark, do saxofonista Charlie Mariano e do guitarrista Philip Catherine. Aos 37 anos, lança seu primeiro álbum como líder, Il Piacere, pelo selo OWL. Em 1980, apresenta ao mundo o pianista Michel Petrucciani e mantém suas raízes italianas no trabalho que desenvolve em seu Italian Quartet, ao lado do trompetista Paolo Fresu, também italiano. Sempre desbravador, consegue conciliar sua sólida formação tradicional, baseada no Bebop, com música latina, óperas e, quem diria, a música de Coleman, para a qual já prestou diversos tributos. Excelente introdução à música daquele que é considerado erroneamente o pai do Free Jazz, o álbum Complete Communion conta com a magnífica participação da saxofonista Géraldine Laurent, do trompetista Fabrizio Bosso e do contrabaixista Henri Texier, os outros três sobreviventes que pularam da escuna. Para o amigo Olney, que fez aniversário dia 19 de dezembro, deixo a faixa explosiva Music Man . Agora preciso seguir para Visconde de Mauá, onde enfrentarei o deslizamento de barreiras e passarei o Ano Novo ao lado do cava  Brut Nature Reserva, que recebeu 90 pontos de Robert Parker, e pode ser encontrado na Casa Bonita por honestos R$95,00. Não é à toa que o cava é o espumante mais vendido do mundo, superando o champagne em vendas desde 2001. Um equivalente francês com os mesmos 90 pontos de Robert Parker como, digamos, o champagne Gosset Grand Reserve, sai por R$290,00. É claro que sempre poderemos nos socorrer em produções nacionais, afinal os espumantes brasileiros estão cada vez melhores. Veja o caso do  espumante Do Lugar Espumante Brut Charmat, ganhador da Grande Medalha de Ouro do  VI Concurso do Espumante Brasileiro, promovido pela ABE em 2009, e que pode ser encontrado nas boas lojas por simpáticos R$30,00. Grande abraço a todos e até 2011.

09/09/2010

Lenda viva: Cornell Dupree

A reunião do Clube das Terças prosseguia incólume aos abomináveis efeitos da propaganda eleitoral gratuita. Pedro Nunes tentava explicar a Chico Brahma as diferenças entre a palilogia, a anadiplose e a epanalepse, todas maravilhosas figuras de nossa linguagem. Na outra margem da mesa, um orgulhoso Gumercindo ostentava o álbum Bop 'N' Blues, do guitarrista Cornell Dupree. Torcendo o nariz, João Luiz diz a Gumercindo para jogar o álbum no lixo, que aquilo era álbum de rock. Reinaldo intercede surpreendentemente, alegando que, apesar da alta voltagem do álbum, o velho guitarrista fazia um bom soul jazz, no que é apoiado por maioria relativa do clube. Fernando, com sua verve característica, coça o reluzente crânio e complementa: Cornell Dupree nasceu em 19 de dezembro de 1942, em Fort Worth, Texas. Autodidata, começou a carreira ainda adolescente em sua cidade natal, sofrendo forte influência do excelente blues existente na região, além da música country. Aos vinte anos, já em New York, passa a integrar a banda de King Curtis, além de trabalhar um breve período com Jimi Hendrix. No final da década de 1960, entusiasmado com a capacidade de Dupree em solar e manter o ritmo ao mesmo tempo, o produtor Jerry Wexler o contrata como guitarrista oficial do selo Atlantic. É nesse período que grava com uma série de músicos importantes do Blues e do R&B, além de integrar durante dez anos a banda da vocalista Aretha Franklin, outra grande inspiradora de seu estilo. Apesar de milhares de sessões de gravações como sideman, Dupree gravou poucos álbuns de jazz como líder, estilo em que trafega com facilidade, sobretudo no soul jazz. Seu fraseado funky não se perde no contexto mais elaborado do bebop, como comprova seu desempenho no álbum Bop 'N' Blue, gravado em 1994 para o selo Kokopelli. Para os amigos fica a faixa 'Round About Midnight , com Herbie Mann (arr), Terell Stafford (t), Bobby Watson (as), Ronnie Cuber (bs), Leon Pendarvis (p, org), Chuck Rainey (b), Ricky Sebastian (d), Sammy Figueroa (perc). Dupree sempre se manteve atuante, gravando, apresentando-se sozinho ou em grupo, seja com o Bayou Buddies ou com o The Soul Survivors. Lenda viva! E quem estiver em New York entre os dias 24 e 26 de setembro, poderá ouvi-lo no Iridium, clube que recomendo sem ressalvas.   

14/04/2010

Beka Gochiashvili

Beka Gochiashvili nasceu no dia 11 de março de 1996, em Tbilisi, Georgia, uma daquelas tantas ex-repúblicas soviéticas. Aliás, quando estive por lá, surpreendi-me com a língua natal, que não é o russo, mas um dialeto incompreensível. Continuando: com apenas dois anos e meio, Beka teve a chupeta confiscada pelo pai, que prometeu devolvê-la caso o menino interpretasse algum dos ragtimes de Scott Joplin. Resultado: alguns minutos após o confisco, Breka teve sua chupeta devolvida. Aos três anos, Breka apaixona-se pela música contida no video Standards II, do piaista Keith Jarrett em trio com Gary Peacock e Jack DeJohnette. Aos quatro anos o menino já interpretava uma série de composições e, aos seis, começa a receber aulas de Zurab Ramishvili, considerado um dos melhores pianistas de jazz da Georgia. Ao verificar a habilidade do menino em compreender as mais complexas composições, recoenda que Beka passe a estudar também música clássica, o que passa a fazer sob a orientação de Tengiz Chitaishvili. Já amadurecido pelos oito anos de vida, Beka vence a competição promovida no Schwaigern Classical Music Festival, na Alemanha, interpretando peças de Ravel, Mozart e Handel. Aos nove, inicia estudos de jazz sob a direção de Zurab Ramishvili. Um ano depois já estava tocando em diversos clubes de jazz em Tbilisi. Em 2007 Beka participa do Saulkrasti Jazz Festival, em Latvia, sendo acompanhado, vejam só, por Lenny White e Victor Bailey. No mesmo ano, apresenta-se no 10th International Festival “Georgians Play Jazz”, realizado no Tbilisi State Conservatory. Em 2008, além de se apresentar na Embaixada Americana em Tbilisi, ouviu o seguinte comentário de Condoleezza Rice, Secretária de Estado: “Beka is one of the best jazz pianists I’ve heard anywhere.” Aos dez anos de idade, estimulado por amigos, músicos e professores, Beka viaja para New York, onde presta exames para a Juilliard School e para a Manhattan School of Music, sendo aprovado em ambas as instituições. Em 2009, algumas semanas antes de ingressar na Juilliard, Beka torna-se o mais jovem vencedor do Montreux Jazz Piano Competition. Atualmente, prossegue seus estudos, sendo auxiliado por professoes de escol, entre eles Frank Kimbrough (piano jazz) e Victoria Mushkatkol (piano clássico). Para os amigos, a faixa Bopbe, gravada durante seu show no Birdland, mês passado. E que solo de bateria é esse Mestre Olney?

12/04/2010

Jazz no Café da Travessa

16 de abril - 20h30 - Cleber Alves Trio - Cleber Alves (saxofone), Milton Ramos (contrabaixo acústico) e André "Limão" Queiroz (bateria) - Repertório: Standards de jazz (Sonny Rollins, John Coltrane, etc...), instrumental brasileiro e composições autorais - Couvert: R$ 8,00 - 23 de abril - 20h30 - Daniela Rennó & Márcio Bahia Quarteto - Daniela Rennó (vibrafone), Márcio Bahia (bateria), Matheus Barbosa (guitarra) e Fred Heliodoro (contrabaixo) - Repertório: Clássicos de Hermeto Pascoal, Milton Nascimento e composições autorais. Couvert: R$ 8,00 - 30 de abril - 20h30 - Delaretti Trio - Fernando Delaretti (teclado), Marcus Marangon (contrabaixo) e Felipe Amorim (bateria) - Repertório: Standards do jazz de Miles Davis, John Coltrane, Herbie Hancock e Wayne Shorter, entre outros - Couvert: R$ 8,00. É.

23/03/2009

You Don't Know Her

Há muita controvérsia sobre o papel da mulher no jazz. Talvez a questão esteja de fato limitada, como afirma o amigo Frederico Bravante, às características físicas específicas da mulher, quase sempre as afastando de certos instrumentos, como o trompete, o trombone, o contrabaixo acústico ou, com menor incidência, os saxofones tenor e barítono. Ao aspecto estritamente fisiológico devemos associar o machismo que caracteriza decrescentemente a história humana, impedindo que homens e mulheres pudessem produzir cultura em eqüidade e equilíbrio. A depender da grande maioria dos homens, certamente as mulheres ainda estariam nas cozinhas ou nas saletas de chá, tricotando ou embalando seus gordos bebês. Na melhor das hipóteses, poderiam interpretar Chopin em seus doces lares, num piano comprado por seus pais ou maridos. John Lester mesmo sempre disse que há muitas cantoras no jazz pela simples razão de que a voz é um instrumento barato, fácil de transportar e que raramente podia ser retirado da mulher por seu homem para comprar bebida. E a breve história do jazz de 1900 a 1970 não nos deixa mentir: para cada centena de grandes cantoras, encontramos talvez meia dezena de grandes pianistas, quadro ainda mais reduzido quando procuramos por saxofonistas ou trompetistas. Eu mesmo só ouvi ao vivo uma contrabaixista em toda a minha vida: a bonita loira Nikki Parrott, sidewoman de Les Paul, no Iridium de New York. Durante o show conheci atônito o lado brincalhão do genial e octogenário guitarrista, que durante o show fazia piadas do tipo: “Estou me sentindo como Ray Charles quando encontrava o assento” (entrando em cena); ou “Quando toco penso na irmã de minha esposa” (agradecendo o entusiasmo do público); ou, ainda, “Ela é uma grande bunda (ass), digo, aquisição (asset)” (referindo-se à contrabaixista do grupo). Jennifer Aniston, a estrela de Hollywood, que estava bem próxima a Lester, não gostou da piada e retirou-se do clube, talvez em sinal de protesto. Mais tarde, enquanto comíamos uma pizza de peperoni nas proximidades de Grand Central Terminal, perguntei a Lester porque, ainda hoje, havia tantas cantoras e tão poucas instrumentistas. Lester disse que, a partir da década de 1980, esse quadro vem se alterando significativamente. A virilidade dos primeiros tempos do jazz tem experimentado cada vez mais a sensível inteligência feminina. E com tudo de bom que isso significa. Quem poderia supor que a deliciosa escovinha que ouvimos nos discos de Susie Arioli não é obra de nenhum baterista, que baterista não há no grupo. Essa gostosa escovinha, que é quase um carinho como diz Lester, surgiu porque Susie não sabia onde colocar as mãos durante suas apresentações. Coisa de mulher ou não? Para os amigos fica a faixa You don’t know me , com a canadense e seu fiel guitarrista Jordan Officer.

10/02/2009

Elas também tocam jazz: Saori Yano

Era 25 de julho de 2005 e Roberto Scardua não conseguia esconder a excitação diante de sua primeira vez no Smoke Jazz Club, em New York. E não tirava os olhos da tatuagem da garçonete loura do Smoke - quem já foi ao club sabe de quem estamos falando - consumindo muito mais do que os apetites ordenavam, apenas para ver mais de perto as curvas e nuances do desenho sobre a pela branquíssima e com fortes indícios de tenra maciez. Eu por meu lado engolia lentamente minha Absolut sem gelo e lembrava de Ajax, obra de Sófocles onde podemos encontrar a lapidar máxima: "o silêncio embeleza todas as mulheres". Seria de fato verdade que a mulher virtuosa é aquela que não emite som? Por quais motivos Plauto teria dito que é sempre melhor a mulher silenciosa? Estaria aí o segredo do sucesso feminino? Bem, o show inicia e a pequena e delicada japonesa Saori Yano começa a nos contar estórias com seu pequeno e lépido saxofone. Instantaneamente Roberto desloca o pescoço em direção ao palco, percebendo que há outras formas de beleza no interior do Smoke. O fraseado da menina oriental remete imediatamente a Bird, o rei do bebop e fica evidente que a voz feminina pode dominar, em segundos, todo o ambiente do club. É claro, semre haverá quem o diga, que em certos trechos a sinuosa saxofonista ainda pontua com certa exitação seu discurso musical e quase vacila no vernáculo de Parker e Gillespie. Mas quase vacila de tal forma que não sabemos se é proposital, como um Guimarães Rosa inventando suas próprias palavras ou como um Machado de Assis realizando suas próprias concordâncias psicológicas. Afinal, quantos podem afirmar que gravaram seu primeiro álbum de jazz aos 16 anos? Saori descobriu o jazz através de um velho cd de Jaco Pastorius que pertencia a seu pai. É nesse álbum que a menina ouve Donna Lee, primeira vez que ouve Charlie Parker, abrindo os olhinhos e passando a ver as coisas de forma diferente. Aos 14 anos lê a biografia de Billie Holiday, que passa a ser sua segunda paixão no mundo do jazz, descobrindo que Lady Day, com apenas 14 anos, já cantava em clubs de jazz para sobreviver. Animada, Saori pega todos os telefones de clubs de jazz do Japão que consegue obter e se oferece como saxofonista. É claro que todos os clubs recusam a oferta da jovem desconhecida, exceto um, que a convida para uma audição. Daí por diante, seriam mais de 200 apresentações anuais em vários clubs que formariam a base musical de Saori, que nunca recebeu uma educação musical formal. É uma artista, como se diz, que aprendeu jazz "on the job". No meio do caminho, encontra músicos como Frank Wess, George Coleman, Toshiko Akiyoshi, Jimmy Cobb e sobretudo James Moody, saxofonista que influenciou a jovem menina não apenas musicalmente, mas também quanto ao caráter e à vida, além de sofrer horrores tentando lhe ensinar alguma teoria musical. 

Sua primeira apresentação fora do Japão foi no Smoke Jazz Club, a convite de Jimmy Cobb, onde conta com o suporte sólido de Moody, resultando no álbum Parker's Mood, onde se pode ouvir o aplauso caloroso de Roberto Scardua à tatuagem da garçonete loura que, no fim, venceu a atenção do jovem colega. E, mais uma vez lembrando Sófocles, fiquei chocado quando soube que Saori não atingiu a notoriedade falando jazz, mas com a boca fechada e os lábios repletos de batom. Foi gravando uma série de comerciais de cosméticos em Los Angeles - Asian Beauty Series - que, absolutamente calada, Saori Yano atingiu a fama. Para os amigos fica a faixa I Got Rhythm, gravada naquela noite inesquecível, em que Roberto viu as pernas mais longas de sua vida.
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28/01/2009

There Is No Greater Love

E quem nunca passou uma lua-de-mel em New York ou Paris? Não? E em Parati ou Visconde de Mauá? Fale sério! Então case novamente e mãos à obra! Enquanto a bolha não sai voando nem estoura, recomendo uma lua-de-mel logo ali, em Visconde de Mauá e, se a carteira suportar, numa das suítes da Pousada Terra da Luz, logo na entrada da cidade. Além da aconchegante lareira próxima à cama, o deck da hidromassagem suporta bem a garrafa de tinto e duas taças. Em derredor, uma infinidade de plantas, milhares de insetos perigosíssimos e carradas de pássaros que, se por um lado não nos perseguem como no filme Alta Ansiedade, por outro espatifam-se nas generosas vidraças que compõem as instalações da pousada. Mesmo já tendo protestado junto ao proprietário, os acidentes continuam ocorrendo e é triste ver aqueles pássaros todos mortos ao redor da sala do café da manhã de manhã. Portanto, acorde tarde, quando já foram recolhidos num carrinho de mão por um dos atenciosos funcionários da casa. E corra porque nos dias 13 e 14 de fevereiro quem estará se apresentando por lá é Ricardo Silveira, um dos nossos melhores guitarristas. 

Segue breve histórico do músico, retirado de seu site: Ricardo Silveira é um músico brasileiro com carreira internacional. Nascido no Rio de Janeiro, sempre soube apreciar boa música e transita com facilidade pelos diversos idiomas musicais. Ainda adolescente, gostava de ouvir desde rock (Beatles, Rolling Stones, Jimmy Hendrix, Led Zeppelin, Cream) e blues (BB King, John Mayal) a música brasileira (João Gilberto, Chico Buarque, Mutantes, Novos Baianos, Gilberto Gil, Milton Nascimento, Tom Jobim, Baden Powell). Logo cedo, descobriu também o jazz: Dave Brubeck, Miles Davis, Oscar Peterson, Joe Pass, George Benson, Wes Montgomery. Ainda adolescente, Ricardo se interessou pela guitarra e pelo violão. Costumava tirar as melodias das músicas que ouvia, primeiro só numa corda e depois tentando descobrir os acordes, tendo descoberto mais tarde ser este um ótimo exercício para o ouvido e para conhecer o braço do instrumento. Tocando com amigos e em alguns festivais de colégio, decidiu que queria ser músico profissional. Teve aulas de violão clássico e teoria musical e passou no vestibular para a Escola Nacional de Música, porém não havia a cadeira de violão ou guitarra nas universidades do Rio. Nessa época, assistiu a um show de Victor Assis Brasil, que tinha estudado na Berklee College of Music, em Boston, assim como o Márcio Montarroyos, que também tocou nesse mesmo show e o incentivou a fazer na Berklee um curso de dois meses. 

Após o curso, conseguiu uma bolsa e continuou a estudar em Boston. Após um ano, voltou ao Brasil, onde ficou por dois meses participando de shows com Márcio Montarroyos. De volta a Boston, por recomendação do guitarrista Bill Frisell, começou a trabalhar com uma banda de salsa, um de seus primeiros trabalhos profissionais nos EUA. Estrelas Latinas, como se chamava o grupo, era comandada por Fox, um violinista cubano, acompanhado por músicos de Santo Domingo, EUA, Porto Rico e Brasil. Nos finais de semana, Ricardo deixava Boston a caminho de Nova York, onde tocava com o grupo brasileiro Astra Carnaval. Recomendado pelo trompetista Cláudio Roditi, Silveira foi convidado para integrar o grupo do flautista Herbie Mann, com quem excursionou por dois anos pelos Estados Unidos. Nessa época, já morando em Nova York, começou também a trabalhar em estúdio com grandes músicos como Steve Gadd, Richard Tee, Marcus Miller, Michael Brecker, Jason Miles, Naná Vasconcelos, L. Shankar. Apesar dos quatro anos trabalhando fora de seu país, Ricardo manteve o contato com a música brasileira. Aliás, grande parte dos convites para tocar no exterior surgiu por ele ser um músico brasileiro. De volta, por recomendação do produtor e músico Liminha, que havia conhecido nos Estados Unidos, Ricardo foi convidado por Elis Regina para participar da turnê pelo Brasil do disco “Essa Mulher”. Foi no mesmo período que começou a surgir, além de shows, participações em gravações, desde jingles a discos dos mais diversos artistas. Após a turnê com Elis Regina, Ricardo começou a tocar com outros grandes nomes da MPB como Hermeto Paschoal, Maria Bethânia, Gilberto Gil, Milton Nascimento, João Bosco, Ivan Lins, Nana Caymmi e Ney Matogrosso para quem também fez arranjos e direção musical. Entre a participação nas gravações e nos shows dos grandes nomes da música brasileira, Ricardo começava a desenvolver seus projetos solos. Seu primeiro disco foi Bom de tocar (Polygram), lançado em 1984. A música fez tanto sucesso, que acabou virando vinheta da Rádio Globo FM, ficando no ar por 10 anos, e eternizando seus solos de guitarra na música que deu nome ao disco. 

Por conta da repercussão, o guitarrista foi convidado para tocar no primeiro Free Jazz Festival, em 1985. Para o show, convidou os talentosos amigos: o baixista Nico Assumpção, o pianista Luiz Avellar, o baterista Carlos Bala e o saxofonista Nova Yorquino Steve Slagle. O resultado no palco foi tão bom que o quarteto acabou gravando um disco, o High Life, lançado em 1986 pelo selo Elektra Musician. O segundo trabalho solo data de 1987 e teve o mesmo selo. O disco tinha como título o nome do próprio guitarrista. Nos Estados Unidos, este trabalho ganhou o nome de Long Distance, pelo selo da Verve Forecast, que além deste lançou Sky Light, Amazon Secrets e Small World. Todos estiveram entre os cinco mais executados nas rádios de jazz americana, sendo que Sky Light e Amazon Secrets chegaram ao primeiro lugar. Nos Estados Unidos, além de excursionar com Herbie Mann tocou com nomes como Sérgio Mendes, Don Grusin, Dave Grusin, Oscar Castro Neves, Dori Caymmy, Nathan East, Vanessa Williams, El Debarge, Diana Ross, Brenda Russel, Justo Almario, Toots Tiellemans, Baby Face, John Pisano, Kevin Lethau, Ronnie Foster, Harvey Mason, Paty Austin, David Sanborn, Pat Metheny, Phil Perry, Earnie Watts, Gregg Karukas e Abe Laboriel. Com Matt Bianco, Silveira esteve duas vezes na Europa e no Japão, sendo que fez mais oito viagens para este último país em concertos de Sadao Watanabe e Dom Grusin. Com um outro selo - Kokopelli, de Herbie Mann - foi gravado seu sexto CD, o Storyteller, em 1995, que também esteve entre as cinco mais tocadas. Em 2001, o CD Noite Clara saiu no Brasil pela MP,B e em 2003 nos EUA pela Adventure Music. Este trabalho foi indicado ao Grammy Latino 2004 na categoria melhor CD Instrumental. No mesmo ano da indicação, Ricardo Silveira em parceria com Luiz Avellar, ambos com experiências em turnês ao lado de Milton Nascimento, gravam ao vivo – violão e piano – o CD Milton Nascimento ao Vivo pelo selo brasileiro da Universal e pelo americano Adventure Music. No dia 10 de julho de 2007 foi lançado nos EUA Outro Rio, seu décimo trabalho, e em fevereiro de 2008 no Brasil, repetindo a dobradinha dos selos Adventure Music e MPB.

Para os amigos fica a faixa There Is No Greater Love , retirada do álbum Toots & Sivuca, gravado no Chiko's Bar em 1986, com a participação de Ricardo. O Chiko's talvez tenha sido um dos melhores bares de música da Lagoa na década de 1980. Hoje está política e corretamente instalado na Barra da Tijuca, onde a dose do doze anos custa doze reais. Mas se, no final, nada der certo, vá para o mardi gras em New Orleans.

27/01/2009

TribOz

Nosso amigo Olney já havia alertado sobre o TribOz e, agora, Mr. Coimbra, Vice-Presidente do Clube das Terças, confirma a boa impressão que vem causando o espaço. Músicos, cantores, compositores e artistas do Brasil e do mundo encontram-se no TribOz, a sede oficial do Brazilian-Australian Cultural Centre (Centro Cultural Brasil-Austrália). TribOz está localizado na Lapa, o tradicional bairro boêmio no centro do Rio de Janeiro. Esta instituição cultural está rapidamente se tornando uma referência nos meios de produção artística. Experimentações musicais contemporâneas, um mundo infinito de improvisação, samba, jazz e bossa nova são algumas das formas musicais que encontramos no TribOz. É uma proposta inovadora, encontrando eco no que chamamos de ‘Novas Expressões Brasileiras’ – New Brazilian Mult-Art Expressions. O espaço dedica-se ao desenvolvimento e apresentações das artes inovadoras. Desde a sua inauguração em 20 de junho de 2008, TribOz acolheu os sons de músicos brasileiros e internacionais como o pianista João Carlos Assis Brasil, Hélio Celso, Alberto Farah, Tomás Improta, Marvio Ciribeli, os guitarristas Dino Rangel, Bernado Ramos, Marcelo Nami, o saxofonista Marcelo Padre (Canadá/Brasil), o baterista Marcio Bahia (Hermeto Paschoal), a guitarrista Julie Bevan (Nova Zelândia), o grupo australiano ‘OzBrazilian’ The View From Madeleine's Couch, e o vocalista, violonista e 'brasilianista', Hans Limburg. O local exibe pinturas e cerâmicas da artista Denize Torbes, que enriquece a casa com sua arte altamente provocadora. TribOz é o lugar onde músicos, compositores, cantores e artistas nacionais e internacionais se encontram, produzindo um trabalho de altíssima qualidade preenchendo as suas mais altas expectativas. Além deste novo patamar para a multi-arte inovadora, você também encontra aqui conforto e qualidade. Venha sentir os ares do Rio antigo e encantar-se com inovações multi-arte. Venha experimentar esta combinação ímpar que não se encontra em nenhum outro ambiente no Rio de Janeiro - expressões brasileiras multi-arte "saídas do forno". Mais informações AQUI.

12/01/2009

Mrs. Pacheco

Não há muita informação na internet sobre Dona Ivone Pacheco, a maior amante do jazz de Porto Alegre. É verdade que nosso amigo Wilson Garzon, do Clube de Jazz já lhe fez rápida menção. Mas queremos mais. Ivone Pacheco é a dama do jazz de Porto Alegre, dona do título desde que fundou o Clube Take Five há mais de 26 anos. O clube nasceu informal, modesto, num porão, e se tornou o lugar de Jazz na cidade. Pelo Clube do Jazz já passaram convidados de todo o país e até internacionais. Mas só entra nesta trilha quem é convidado. Para não perder a dose de mistério necessária para o jazz, segundo Ivone, o endereço deste clube vai continuar sendo um segredo. No clube não há venda de ingresso, não existe convite ou comitê organizador, muito menos estatuto. Neste clube, a regra é se contagiar pelo ritmo do jazz. Uma sonoridade de estilo intimista, batida marcada e o melhor, sem rotina. Tanto é assim que Ivone Pacheco foi a grande homenageada do 1º Festival de Jazz de Porto Alegre, em 2008. No site Overmundo encontramos um depoimento de Rogério Ratner que vale a pena trazer à lume: "Numa ampla casa localizada no bairro Bela Vista (cujo endereço certo eu nunca lembrava, sabia ir somente na base do “duas ruas à esquerda, uma à direita”) funcionava, nos anos 80, o Clube de Jazz de Porto Alegre (Take Five). Embora o nome fosse pomposo, e presumisse a existência de sócios e burocracias, na verdade tratava-se de um dos programas mais legais e democráticos que havia na cidade para quem curtia boa música, e era despido de qualquer formalidade. Na verdade, tratava-se do porão da casa da Dona Ivone Pacheco, a Grande Dama do Jazz de Porto Alegre, que, de forma super generosa (e diríamos hoje, até algo imprudente) permitia acesso livre ao pátio de sua residência, sendo que o portão da frente ficava apenas encostado, sem sequer um porteiro para fazer uma “triagem nos elementos”.

De fato, para ingressar no recinto bastava saber o endereço e abrir a maçaneta do portão, sem pagar ingresso, mostrar documentos, nem nada. Felizmente, ao menos nas vezes em que fui lá, não apareceu nenhum ladrão ou vândalo disfarçado de fã do bebop, o que hoje em dia possivelmente fosse quase um milagre. O endereço, logicamente, não era divulgado publicamente, sob pena de inviabilizar o funcionamento, já que o recinto onde o pessoal tocava era pequeno. Assim, o espaço era divulgado apenas na base da propaganda “boca a boca”, de forma que geralmente se ficava sabendo onde era e quando ia rolar pela dica de algum amigo que já fora lá. Não lembro ao certo quem me deu a dica, mas certamente ou foi o Auriu Irigoite, ou o Henrique Wendhausen ou o Glei Soares, e talvez todos ao mesmo tempo. Levado por estes amigos é que conheci o lugar. A função ocorria apenas na noite de sábado (ou será que era na sexta?), por volta da meia-noite (round midnight, naturalmente), e entrava madrugada a dentro, até de manhã. O Clube, em realidade, consistia em um verdadeiro sarau, um palco livre, no qual rolavam várias jam sessions, tão próprias do universo jazzístico. É verdade que o palco não era assim tão livre, uma vez que para ocupá-lo o “candidato” devia “mandar bem” no ritmo americano, em qualquer de suas matizes - o que permitia, obviamente, que a coisa às vezes fosse até para o lado da bossa nova e da música instrumental brasileira, mas isto eventualmente -, e definitivamente não era lugar para “bicões”. E, naturalmente, este atributo não era para qualquer um, diante das conhecidas complexidades deste ritmo norte-americano. Havia atrações que eram praticamente “fixas”, ou seja, um pessoal que normalmente sempre ia lá e se apresentava em todas as “reuniões”. Lembro do grande pianista Marcos Ungaretti (que não podia sair de lá sem tocar o “Take Five”, de Dave Brubeck, que, como já adiantamos, apelidava o local), do cantor Richard Emunds (que, além de cantar jazz, interpretava clássicos da Chanson Française), do grande baixista Mário Carvalho (Marião), da pianista Karina Donida, do saxofonista Marcelo Figueiredo, do pessoal da Arqui Jazz Band e da Contraste Combo, que eram especializados no diexieland e nos estilos tradicionais dos anos 20, além, é claro, da própria Dona Ivone ao piano, que sempre nos brindava com suas performances, entre vários outros. E era sempre muito legal ver este pessoal tocar. Mas, naturalmente, a cada “reunião” havia algumas atrações novas e “avulsas” ou “bissextas”. Uma vez vi tocar lá o Professor Menotti, que, na época, já era um senhor de idade. Tratava-se de um dos maiores músicos gaúchos de todos os tempos, ligado ao pessoal da velha boemia da noite portoalegrense. Não sei se ele ainda vive, mas era um fenômeno, tanto ao violão quanto ao piano. Tocando sozinho, ele magnetizava a platéia com o seu domínio harmônico e melódico, era um verdadeiro mestre. Enfim, eram inúmeros os músicos (cantores e instrumentistas) que davam a sua canja no local, que geralmente era freqüentado mesmo preponderantemente por músicos que estavam a fim de conhecer mais sobre o jazz e curtir os improvisos que rolavam. Eu, naturalmente, nunca me aventurei a sequer chegar perto do palco, por razões óbvias.

É indiscutível o fato de que o Clube de Jazz da Dona Ivone Pacheco foi fundamental para a difusão deste tipo de música na capital gaúcha nos anos 80, ainda mais considerando que o público em geral, mesmo o apreciador de música, e da boa, tinha pouco acesso a este estilo. À época - em que ainda não havia o CD, e, obviamente, não existia internet e muito menos MP3 -, os LPs de jazz eram caríssimos, a exemplo dos discos de música erudita, o que dificultava sobremaneira o conhecimento deste ritmo maravilhoso, principalmente por gente como eu e os meus amigos, então estudantes totalmente “duros” e “sem-ter-onde-cair-morto”. Como o jazz não era presença muito freqüente no dial portoalegrense daquela época (diferentemente de agora, em que contamos, por exemplo, com o programa extraordinário do jornalista e crítico musical Paulo Moreira, tremendo especialista no assunto, Sessão Jazz, que rola à noite na FM Cultura ), pode-se dimensionar a importância de um espaço como este. Neste sentido, a generosidade desmedida de Dona Ivone verdadeiramente abriu uma janela em nossos horizontes, contribuindo em muito para o aprimoramento dos conhecimentos musicais e apuração do gosto estético, que nos torna tributários de uma dívida imensurável em relação a ela. Tenho certeza que todos os freqüentadores, fossem músicos ou não, tenham tocado lá ou não, devem ter a mesma visão a respeito da importância do Clube para a difusão do jazz em Porto Alegre, e agradecem pelo maravilhoso trabalho “pedagógico” e, ao mesmo tempo, “lúdico”, de Dona Ivone. É curioso que uma vez, quando apresentei-me no Foyer do Theatro São Pedro, no projeto Blue Jazz, cantando standards do jazz americano (isto lá por 93 ou 94, vários anos depois de minhas visitas ao clube), ao final do show a Dona Ivone veio falar comigo, com sua simpatia e gentileza inatas, dizendo que tinha gostado muito, que era muito legal alguém fazer aquele repertório em POA, etc. Como era final de show e havia mais pessoas que queriam falar comigo, só tive tempo de agradecê-la pelo carinho e estímulo. Depois me dei conta que devia ter dito a ela que, na verdade, ela era responsável direta pelo trabalho que eu estava fazendo à época, pois foi através de minhas visitas ao seu famoso Clube que se corporificou a minha admiração pelo jazz. Muito obrigado, Dona Ivone." Para os amigos, deixo um breve video sobre a grande dama (Fonte: Jornal Zero Hora):

30/12/2008

Hubbard - Repost I

 .
Pois é: lendo o comentário do amigo Roberto Scardua, que conheci durante um show no clube Iridium, em New York, resolvi dar um pulo no site e verificar o que está rolando por lá. Nada mais, nada menos, que Freddie Hubbard! Com ele só gente fraquinha: James Spalding (as), Christian McBride (b), Ronnie Matthews (p), Louis Hayes (d), Javon Jackson (ts), Slide Hampton (tb), Curtis Fuller (tb), George Cables (p), Dwayne Brune (b), Joe Chambers (d), Craig Handy (ts) e Steve Davis (tb). É... Para os amigos navegantes, deixo a faixa The Intrepid Fox, gravada ao vivo em 1981 no Keystone Korner, em San Francisco. Abaixo, resenha do Iridium sobre a coisa toda. A senha para acesso à faixa é a de sempre: jazzseen.

One of the great jazz trumpeters of all time, Freddie Hubbard formed his sound out of the Clifford Brown/Lee Morgan tradition, and by the early '70s was immediately distinctive and the pacesetter in jazz. Born and raised in Indianapolis, Hubbard played early on with Wes and Monk Montgomery. He moved to New York in 1958, roomed with Eric Dolphy (with whom he recorded in 1960), and was in the groups of Philly Joe Jones (1958-1959), Sonny Rollins, Slide Hampton, and J.J. Johnson, before touring Europe with Quincy Jones (1960-1961). He recorded with John Coltrane, participated in Ornette Coleman's Free Jazz (1960), was on Oliver Nelson's classic Blues and the Abstract Truth album (highlighted by "Stolen Moments"), and started recording as a leader for Blue Note that same year. Hubbard gained fame playing with Art Blakey's Jazz Messengers (1961-1964) next to Wayne Shorter and Curtis Fuller. He recorded Ascension with Coltrane (1965), Out to Lunch (1964) with Eric Dolphy, and Maiden Voyage with Herbie Hancock, and, after a period with Max Roach (1965-1966), he led his own quintet, which at the time usually featured altoist James Spaulding. A blazing trumpeter with a beautiful tone on flügelhorn, Hubbard fared well in freer settings but was always essentially a hard bop stylist. In 1970, Freddie Hubbard recorded two of his finest albums (Red Clay and Straight Life) for CTI. The follow-up, First Light (1971), was actually his most popular date, featuring Don Sebesky arrangements. In 1977, he toured with Herbie Hancock's acoustic V.S.O.P. Quintet and, in the 1980s, on recordings for Pablo, Blue Note, and Atlantic, he showed why he is clearly one of jazz’s living legends.This week he is joined by a steller cast of musicians who will make this week very special!

14/10/2008

Só por hoje


Talvez seja só por hoje, mas o fato é que Mr. Salsa (saxes alto e tenor, clarinete, voz, cuíca e bandoneon), Afonso Abreu (contrabaixo acústico) e Pedro Alcântara (teclados) farão jazz hoje, dia 14 de outubro de 2008, no Balacobaco (Praia do Canto, próximo ao Centro da Praia, Vitória-ES). Correndo por fora, Flávio, o dono do bar, festejará o 2° lugar no concurso Roda de Boteco conquistado pelo petisco "embola rabo" que, segundo nosso criterioso provador de cachaça João Luiz, cai harmônico com a persistente e floral branquinha de Brumadinho, Segredo do Patriarca, envelhecida 12 meses em parol de concreto parafinado, mais 6 meses em tanque de inóx. Eu cá com meus botões, considerando que o petisco do Balacobaco já se mantém há três anos entre os três melhores de Vitória, recomendo uma generosa dose da suculenta Domina Suave (Gentil Senhora em latim), devidamente repousada durante 24 perfumados meses em barris de jatobá que, dizem os indígenas, é afrodisíaco. Só por hoje, ok?

14/08/2008

Jazz na Argentina

No Clube de Jazz nosso amigo Wilson Garzon relembra, recupera e vasculha o jazz produzido na vizinha Argentina que, ao contrário do futebol, tem boas coisas a nos apresentar na música. A seguir o texto do especialista: " Antecedentes - Meu primeiro contato ficou por conta do pianista Lalo Schfrin que fazia parte do quinteto de Dizzy Gillespie, no álbum “An Electrifying Evening with the Dizzy Gillespie Quintet” onde fazia solos em “Kush” e “The Mooche”, que se pareciam como solos de um músico brasileiro. Mas quem me marcou de vez foi o saxofonista Gato Barbieri, que antes de fazer grande sucesso com a trilha de “Último Tango em Paris”, gravou em 1971 “Fenix”, álbum em que interpretava com técnica e talento “Falsa Bahiana” de Geraldo Pereira e “Bahia” de Ary Barroso”, tendo a seu lado Ron Carter, Lonnie Smith e Lennie White. Outra presença, esta muito maior, ficou por conta do mago Astor Piazzolla em obras marcantes como “Maria de Buenos Aires” e principalmente nas suas gravações com Gerry Muligan. Depois de um breve tempo fui também apresentado ao trompetista Fats Fernandez, mas esse foi um caso isolado.

Clube de Jazz

A partir de 2004, com a entrada do site no ar, meu contato com o jazz argentino, aos poucos deixou de ser uma curiosidade e se tornou um tema relevante no meu trabalho de divulgar e promover o jazz. Primeiro, foram os shows que assisti da “Antiqua Jazz Band” e a “Porteña Jazz Band”, nos festivais dedicados ao hot jazz & swing. Segundo, e mais importante, foi o contato que fiz com o produtor fonográfico e empresário Ruben Bondoni. Além de publicar uma entrevista e divulgar cds da sua gravadora MDR, pude conhecer grupos contemporâneos de jazz porteño, como o Escalandrum, Pablo Ziegler & Quique Sinesi, Manuel Ochoa, Gustavo Bergalli e Jorge Navarro, entre outros. Mas não me deixou satisfeito, pois tinha conhecido apenas a ponte do iceberg d o jazz argentino. Para resolver essa demanda reprimida precisava de viajar até Buenos Aires.

Viagem

A minha viagem para Buenos Aires, além dos naturais interesses históricos e turísticos, existia um propósito maior: o de conhecer as melhores casas de jazz da cidade, conversar com os músicos, entrar em contato com as gravadoras, livrarias, programas de rádio e jornalistas dedicados ao jazz. Tudo, com certeza, não conseguiria, mas tinha que começar de algum ponto. Nesse momento, agradeço aos músicos Marcelo Coelho e Marvio Ciribelli que me abriram seus contatos para que eu pudesse conhecer Buenos Aires da melhor maneira: regada a muita música de qualidade.

Encontros

O primeiro contato foi com o saxofonista Rodrigo Dominguez, que fez parte da banda de Mariano Otero e que havia gravado recentemente “Amistad” em conjunto com outros três músicos. Nosso encontro se deu no jazzclub “Virasoro”, junto com o produtor Fernando Tarrés, que também dirige o selo Baú Records. Aos poucos me inteirava sobre o jazz da vanguarda argentina ao mesmo tempo em que escutava uma gig comandada pelo baterista Pepe Taveira e pelo tecladista / trompetista Enrique Norris. O próximo encontro se deu com o talentoso guitarrista Alejandro Demogli onde também pude conhecer as influências berkleeanas sobre o atual jazz porteño.
Mas, foi só com Ruben Bondoni, dono do jazzclub Notorious e do selo MDR é que pude entender o jazz argentino como um todo. Aos poucos fui apresentado ao veterano guitarrista Walter Malosetti, e também a Raul Barboza e Juan Falú; a nova geração representada pelo contrabaixista Mariano Otero e pelo pianista Ernesto Jodos, entre tantos outros. Ao final de uma semana, fiquei com o gosto de quero mais. Um bom palpite pode ser o festival de jazz que acontece pelas salas e parques na primavera de Buenos Aires. Mas, para orientar a quem se interesse pelo jazz argentino, listo abaixo uma pequena agenda, onde estão incluídos jazzclubs e alguns cds, distribuídos por gravadoras.


Pequena Agenda


Casas de Shows

1 – Thelonious Club
Salguero 1884 – 1º. Piso – Palermo
Tel: 4829-1562
www.theloniousclub.com.ar

2 – Notorious Bar
Av. Callao 966 - Centro - Buenos Aires
Tel: 4813-6888/4815-8473
www.notorious.com.ar

3 – Virasoro Bar
Guatemala 4328 - Palermo - Buenos Aires
4831-8918 - info@virasorobar.com.ar
www.virasorobar.com.ar

Cds / Gravadoras

1 – MDR Records
Av. Callao 964 - 6º "D" - C1023AAP - Buenos Aires
www.mdrrecords.com.ar
Ruben Bondoni – director

. Walter Malosetti – Palm
. Pablo Ziegler & Quique Sinesi – Buenos Aires Report
. Escalandrum – Visiones
. Manuel Ochoa – Manare
. Raul Barbosa – Dos orillas
. Banda Hermética – El calendário de los sonidos
. Manolo Juarez & Daniel Homer – Quarteto
. Ernesto Snajer – Despues de todo (em vivo)
. Altertango – Tormenta
. Beto Caletti - Tess

2 – Baú Records

. Rodrigo Dominguez – Tonal
. Mariano Otero - A Través
. Bárbara Togander - Lovemanual
. Fernando Tarrés - Perplexity
. Ramiro Flores – Flores

3 – Blue Art

Paraguay 727, 9 Piso, Oficina 8. S2000CVO Rosario, Argentina.
Tel.: Argentina: 0341 411 7929
Exterior: 00 54 341 4117929
Horacio Vargas / director:
www.blueart.com.ar

. Paula Schocron – Urbes
. Sued + Dominguez + Mandelman + Oberson – Amistad
. Ernesto Jodos – Solo
. Jorge Migoya – Casi solo(s)
. Mauri Sanchis – Good Vibes !!

4 – S Jazz

. Juan Cruz de Urquiza – De este lado
. Juan Cruz de Urquiza – Vigilia
. Pepi Taveira – BsAs Inferno
. Natalio Sued – Mirada Esquiva
. Mariano Otero – D Forma

Outros Cds

. Ale Demogli, Hill Greene & Oscar Giunta – 3:30
. Ernesto Jodos – Tristano/Konitz/Marsh/Bauer
. Jorge Cutello – Just in Time
. Norris, Verdinelli & Otero – Mes
. Oscar Edelstein & Raul Barboza – Dos Improptus
. Adrian Iaies – UnoDosTres
. Mariano Otero – Três
. Mariano Otero – Ca4tro".


Para os amigos, Gato Barbieri com Falsa Bahiana ( ).

12/06/2008

Stefan Karlsson

Ontem telefonei para o amigo Lester somente para lhe contar que o Blue Crow Trio estará mais uma vez no Bel Luna Jazz Club, trio e lugar que tivemos o prazer de conhecer em 2006, durante sua breve estadia em Barcelona. Como sempre arredio, Lester preferiu hospedar-se no bem localizado Jazz Hotel, a cerca de 150m do clube, ao invés de instalar-se em minha residência (ele sempre alega que não consegue dormir nem ir ao banheiro em casa alheia, ora, ora). Dessa vez, Joan Díaz (p), Nono Fernández (b) e Oriol Gonzàlez (d) contarão com a presença do trompetista Matthew Simon, um dos melhores instrumentistas da Europa. Bem, após falar sozinho por bem pagos quinze minutos, percebi um longo silêncio do outro lado da linha, sinal claro de que Lester estava contrariado. Em tom seco, o amigo perguntou: e o disco de Stefan Karlsson? Comprou? Ouviu? Realmente eu me havia esquecido de agradecer a recomendação de Lester quanto aos álbuns baratíssimos à venda na Amazon, entre eles o excelente Below Zero ( ), gravado em 1992 com Rufus Reid (b), Marvin "Smitty" Smith (d) e, na metade das faixas, com o saxofonista tenor Richard Perry. E tudo por US$1.00!!! E, de fato, Lester tinha razão quando disse lembrar de Bill Evans ao ouvir Karlsson: a mesma tensão delicada, a mesma inteligência contida, calculada, medida e, por contradição, extremamente melódica, sedutora e graciosa. É: Rogério Coimbra tem mesmo razão quando diz que Bill não tem paralelo e faz jus às homenagens de nosso amigo Francisco Grijó. Mas Karlsson é, com certeza, um grande discípulo. Abruptamente Lester me interrompe e pergunta: o álbum não vale cada dólar pago? Antes que eu pudesse responder, ele já havia desligado. Esse Lester...

02/05/2008

Augustus

O centro de Vitória renasce com a boa música. O Botequim Augustus, sito à Rua Gama Rosa, tem promovido noitadas musicais agradabilíssimas. Eduardo, o dono do bar, tratou de deixar a casa com um clima aconchegante (são dois pisos, com ar condicionado), com boa comida (o camarão na moranga é excelente) e bebida de boa qualidade. Os preços são acessíveis ao bolso médio. Aos sábados, a responsabilidade é de Chico Lessa (violão e voz), que, acompanhado por Salsa (sax alto, tenor e voz), interpreta suas parcerias com Márcio Borges (Clube da Esquina), muita bossa e standards da música pop norte americana. O som começa às 21:00h. PS - enquanto não chega a hora, divirtam-se com os blogs Jazzigo e MPBJazz.

07/01/2008

Chris

Mr. Lester resolveu partir em férias - dizem que estaria perambulando pelas ruas de Baton Rouge - e me entregou dificílima tarefa. Mas, vamos a ela. Chris Potter, nascido em Chicago em 1971, é considerado por muitos um menino prodígio. Mudando-se ainda criança para Columbia, aí passaria a infância com os pais, professores universitários. Começa na música tocando piano de ouvido e considerando o som do saxofone rude, incômodo e feio. Mas, depois de ouvir Take Five com Paul Desmond, muda de opinião e resolve tocar saxofone. Começou pelo alto, sofrendo forte influência de Johnny Hodges, o mais importante sax alto de Duke Ellington. Aos oito anos já tocava bem seu novo instrumento e participa de algumas sessões informais com jovens estudantes de música da Universidade de Columbia. Parte, então, para outros sopros, entre eles os saxofones tenor e soprano, a flauta e o clarone, bem como amplia suas referências, passando a ouvir Coleman Hawkins, Lester Young, Charlie Parker, Stan Getz, Ben Webster, Sonny Rollins, John Coltrane, Wayne Shorter, Joe Henderson, Ornette Coleman, Eric Dolphy e Dewey Redman. Nesse período Chris recebeu importante orientação dos professores do departamento de jazz da universidade de Columbia, entre eles Roger Pemberton. Bem mais velho, já com 12 anos, Chris recebe o prêmio de melhor saxofonista do prestigioso IAJE Young Talent de 1983, mesmo ano em que Terri Lyne Carrington (d), Charnett Moffett (b) e Harry Connick, Jr (p) são premiados em seus respectivos instrumentos. A essa altura, Chris já atuava profissionalmente e, em 1984, se apresentou no Aspen Music Festival, onde conheceu o baterista Myles Weinstein que, impressionado pelo desempenho do garoto, o convidou alguns anos depois para integrar o The Jazz Mentality, ainda hoje em atividade. Dois anos depois, Marian McPartland passa por Columbia e ouve Chris tocando. Impressionada, tenta convencer o pai de Chris a deixá-lo sair em turnê com alguma grande banda, como a de Woody Herman. O pai de Chris concorda, mas exige que o filho primeiro termine a escola secundária. Assim, dos 15 aos 17 anos, Chris perambula pela cidade e, nesse meio tempo, conclui o segundo grau com várias premiações, como um Presidencial Scholar pela sua excelência acadêmica e musical, uma bolsa de estudos do Hennessey Jazz Search, o prêmio de melhor saxofonista de escolas secundárias concedido pela Down Beat e uma bolsa de estudos, concedida por Zoot Sims, para estudar na prestigiada The New School for Social Research.

Mas não há dúvida de que o maior prêmio que Chris ganhou naquela época foi a oportunidade de tocar com Red Rodney no Columbia’s Main Street Jazz Festival de 1989. Os organizadores do festival conseguiram convencer Red a permitir que Chris participasse de dois números. Depois dos dois números, bastante impressionado, Red convidou Chris não apenas para tocar durante toda aquela noite como também em todas as suas apresentações no festival. Afinal, um menino prodígio deve ser capaz de reconhecer outro. Red começou sua carreira aos 15 anos e, aos 22, era o trompetista do quinteto de Charlie Parker, com quem tocou por três anos. E foi assim que Red disse a Chris para lhe telefonar quando chegasse em New York. Com 18 anos, Chris parte para New York e, ao ligar para Red, descobre que este estava precisando de um saxofonista para seu quinteto. O convite foi imediato. Além de trabalhar com Red, Chris freqüenta a The New School, onde conhece músicos como Brad Mehldau. Foi lá que, durante alguns exercícios com Kenny Werner, seu professor de composição, Chris começou fazendo algumas perguntas e, depois de tocarem juntos três músicas, Chris passou a dar algumas lições e dicas para Werner. Em 1990 Chris matricula-se na Manhattan School of Music, onde se formaria três anos mais tarde, fazendo contato com outros músicos brilhantes, entre eles o trompetista Ryan Kisor. Ainda em 1990, Chris faz sua primeira gravação, como membro do quinteto de Red Rodney. É também nesse ano que se apresenta pela primeira vez no Village Vanguard, com o mesmo quinteto. Na platéia estavam dois expectadores de tirar o fôlego de qualquer iniciante: Dizzy Gillespie e James Moody. Em 1991 Chris não grava, preparando-se para o importante Thelonious Monk International Jazz Saxophone Competition, obtendo o terceiro lugar, ao lado de Tim Warfield. O segundo colocado foi nosso amigo Eric Alexander, de quem já falamos aqui no Jazzseen, e, em primeiro, ninguém menos que Joshua Redman. Em 1992 Chris volta aos estúdios com Red, gravando também com seu antigo colega da Manhattan School of Music, Bill Warfield. Em 29 de dezembro desse ano, com apenas 21 anos, Chris grava seu primeiro álbum como líder para o selo alemão Criss Cross: Presenting Chris Potter, com Kevin Hays (p), John Swana (t), Christian McBride (b) e Lewis Nesh (d).

Em 1993 Chris é convidado por Marian McPartland a gravar na Concord, gravadora voltada para o mainstream jazz que, a princípio, fugia bastante da proposta musical de Chris, mais próxima ao post bop. Felizmente, a participação de Chris no álbum de McPartland chamou a atenção dos diretores da gravadora, que o contrataram, o que levou Chris a gravar excelentes álbuns como líder, álbuns estes que, até certo ponto, alteraram o perfil que tradicionalmente caracterizou esse selo de jazz. Nos anos seguintes, Chris gravaria dezenas de álbuns para diversos selos, entre eles Verve e Sunnyside. Desses diversos álbuns, vale destacar Unspoken, gravado em 1997 para a Concord, com John Scofield (g), Dave Holland (b) e Jack DeJohnette (d), onde Chris demonstra que era capaz de abrir seu horizonte musical (todas as faixas são de sua autoria) para além da sólida herança bebop que recebera de Red Rodney. Infelizmente, em 1988, Chris começa a sentir os sintomas da doença de Meniere, espécie de desordem auditiva que lhe retirou quase 100% da audição no ouvido esquerdo. Apesar dessa terrível moléstia, Chris foi, e tem sido até agora, capaz de adaptar seu toque às limitações impostas pela doença. É em 1998 que acompanha Jimmy Hall em importantes turnês pela Europa. Em 2000 ganha o Jazzpar Prize, da Dinamarca, um dos mais importantes prêmios do jazz contemporâneo. Como resultado, surge o álbum This Will Be: The Jazzpar Prize, gravado ao vivo em 2000 para o selo Storyville, onde Chris confirma que, além de sua habilidade como instrumentista, é também um competente compositor. Desde então Chris tem gravado álbuns de alto nível, agora também para a EmArcy. Com sua base no idioma do bebop, Chris tem feito experimentações com o funky, o pop (até Beatles, quem diria) e a fusion que, ao invés de nos confundir ou desiludir, são capazes de oferecer novas propostas e caminhos para aquilo que, ao menos para mim, é, hoje, o jazz. Para os amigos navegantes, fica a faixa Easy to Love, retirada do álbum Pure, gravado em 1994 para a Concord. Até a próxima!

24/12/2007

Jazz en Chile: Martin Joseph

Em resenha anterior já tivemos oportunidade de relatar como são agradáveis as calçadas de Santiago e bonachões seus cachorros de rua, deixando no ar aquela impressão de que, no Chile, a distância entre o jardim e a praça não é tão abissal como em certos países latinos: quem sabe um dia o brasileiro cuide de sua praça como se fosse seu jardim. Mesmo à noite, quando a lua bem cheia ilumina com algum êxito a poluída capital chilena – sim, Santiago fica num vale tão poluído que raras vezes conseguimos vislumbrar os cumes cobertos de neve da cordilheira, embora as águas do rio Mapocho, que corta veloz a cidade descendo dos Andes, devam seu caudaloso perfil ao gelo derretido por lá – ainda assim, a tranqüilidade nas ruas permanece um mistério bom que convida qualquer casal a longas caminhadas de mãos dadas pelo simpático bairro de Bellavista, onde se encontra, além de ruelas floridas e bons restaurantes, um bom número de clubes de jazz. Depois de um suculento filé regado a um El Principal 2001, foi acender o cigarro e perseguir o local anotado num pedaço de papel: Thelonious Lugar de Jazz, um club gentilmente recomendado pelo amigo Roberto Barahona, diretor do excelente site chileno Puro Jazz. Caminhando de mãos dadas com minha namorada, ouvimos jazz saindo de algum lugar indefinido. Seguindo o som, chegamos a um local denominado Sala SCD, uma espécie estranha de teatro, sem porteiro, sem bilheteria, sem pessoas. Entramos e, sempre seguindo o som, empurramos uma porta pesada, daquelas com grandes maçanetas horizontais utilizadas em cinemas. Foi assim que nos deparamos com um pequeno teatro, quase vazio – havia mais gente tocando no palco do que ouvindo na platéia. Sentamos em silêncio e conseguimos apreciar o final de um apaixonado solo de sax tenor, moderno, dilacerado, com um quê de John Coltrane. Foi o último número da noite. O saxofonista, Augustín Moya Eyzaguirre, era um convidado do trio chileno Sin Filtro, formado por Gastón Apablaza Ochsenius (g), Andrés Landón Vío (b) e Julio Denis Farias (b).
Mais tarde, no palco e no camarim, tivemos a oportunidade de conversar com os jovens músicos, todos universitários. Haviam acabado de lançar o primeiro álbum, Mercenario, uma proposta musicalmente convincente e bastante representativa do jazz mais atual feito no Chile. Depois de nos despedirmos dos simpáticos integrantes do Sin Filtro, prosseguimos na doce jornada em busca do bar Thelonious Lugar de Jazz. Foi num entroncamento de três ruas mal iluminadas por um antigo poste que identificamos a Rua Bombero Núñez, 336. Após tocar por algum tempo a inusitada campainha, fomos atendidos por uma jovem sonolenta que se limitou a apontar para uma estreita porta ao lado. O Thelonious Lugar de Jazz havia se instalado em outro número, na mesma rua. Ainda do lado de fora, percebi que algo diferente ocorria naquele lugar: pensei ouvir um trio – piano, baixo e bateria – tocando Blue Chopsticks, de Herbie Nichols. Claro que ouvir alguém tocando Herbie seria improvável em qualquer cidade do mundo, quanto mais numa latino-americana, exceto em Vitória, onde Mr. Salsa faz questão de homenagear o velho mestre do piano. Entramos e, de fato, pudemos perceber uma série de livros dispostos em estantes altíssimas, completamente fora de acesso das mãos. Pelos meus cálculos, nem pulando muito alcançaríamos sequer um daqueles vistosos tomos de jazz. Procurei por alguma escada próxima ou alguma espécie de banco que pudesse levar o consulente até as obras dispostas nas prateleiras. Nada. Após alguns minutos aturdido pela visão incômoda de uma biblioteca inacessível de um lado e a audição de Herbie Nichols que rolava solto do outro, sentamos bem instalados numa das muitas mesas disponíveis. No balcão do bar, figuras estranhas trançavam as pernas finas umas nas outras, soltando tranqüilas a densa fumaça de seus cigarros. Estou no lugar certo, pensei. Imediatamente uma solícita garçonete nos atendeu sorridente, trazendo rapidamente algumas garrafas da excelente cerveja chilena. Instalado, pude observar melhor o compenetrado trio fazendo jazz num palco amplo, perfeitamente integrado ao arejado espaço do bar, com seu pé direito generoso e janelas discretas. Nas paredes, quadros de grandes mestres em preto e branco realçavam o colorido clube. No bar, bebidas variadas. No piano, Martin Joseph, músico responsável por um dos melhores shows de jazz a que já tive o privilégio de assistir. Através de minha estratégica situação geográfica, podia observar de perto não apenas as mãos de Martin, como também suas curiosas partituras, escritas a mão, repletas de rabiscos e anotações personalíssimas que, por conseguinte, restaram indecifráveis.
Mas os temas denunciavam Martin: Monk, Mingus, Coltrane, Parker, Gershwin. Como que frutos dessa mistura de influências, Martin apresentou algumas composições próprias que, sem exagero, não deixavam nada a desejar às melhores composições do estilo que poderíamos denominar de neo-bop, quer em inspiração, quer em originalidade, quer na qualidade dos arranjos, também seus. Ao final do primeiro set, não pude me conter e fui cumprimentar o pianista. Ao invés do formal boa noite, Martin ofertou um sorriso tranqüilo e receptivo, seguido de um olhar sereno, como que reconhecendo diante de si outro amante sincero do jazz. A identificação foi imediata e recíproca e, a conversa, interrompida apenas porque o show precisava continuar. Mais tarde, depois do segundo e último set, resolvi não cansar o pianista que, compreendendo minha opção, fez um convite que me emocionou: visitá-lo em sua casa e, como se não bastasse, receber alguns álbuns de sua autoria. Convite feito, convite aceito. A residência de Martin ficava próxima ao bairro de Las Condes, um pouco adiante do centro artesanal de Los Dominicos, num aprazível condomínio de casas. Fomos recebidos com carinho e atenção pelo músico e sua adorável esposa. Na saída, carregava alegre dois álbuns de Martin: More Light: Suite in 13 tones, gravado em 1995 e Mystery Box, em 1997. O primeiro álbum é composto de 1 suíte atonal e 12 suítes em tonalidades distintas, todas para piano solo. Solo em termos, porque as suítes, compostas em Santo Domingo, durante o período em que Martin viveu na República Dominicana (1991-1995), são resultado de um pedido do pintor uruguaio Fernando Varela, que encomendou a Martin algumas pequenas peças para piano que lhe servissem de inspiração para novas telas. Assim, surgiram essas minúsculas pérolas de música contemporânea, resultados nítidos de inspiração, virtuosismo e um profundo conhecimento do jazz. Em alguns momentos, durante a audição do álbum, era como se Thelonious Monk, Lennie Tristano, Claude Debussy e Isaac Albéniz estivessem numa só pessoa, compondo, tocando e improvisando. O outro álbum, Mystery Box, é resultado da enorme capacidade que Martin possui para administrar influências musicais extremamente diversas, sempre as remodelando de acordo com o gênero musical que mais lhe agrada: o jazz. E não se trata de um determinado estilo de jazz, específico e estático, mas o jazz em sua mais ampla e dinâmica concepção, onde as heranças determinadas pelo blues, pelo stride, pelo new orleans, pelo swing e pelo bebop nunca são esquecidas ou minimizadas. Ao contrário, Martin consegue, em suas composições e interpretações, produzir jazz moderno, complexo e atual sem cair no vazio cerebral e desapaixonado que caracteriza boa parte das obras de jazz de vanguarda. Em Mystery Box, gravado em La Paz durante sua estadia na Bolívia (1995-1996), Martin conta com excelentes músicos latinos: Jonathan Cuenca (tb), Alvaro Montenegro (f, ss, as) e René Saavedra (b), além do japonês Koji Hishimoto (f) e do inglês Chris Egan (ss, ts). Os temas, muitos deles compostos por Martin, desenrolam um painel rico, complexo e saboroso do jazz contemporâneo, painel que, embora nada simples, conserva a beleza e a sedução. As referências a Charles Mingus, John Coltrane e Schoenberg são claras e explícitas, e a humildade do artista é digna de ser citada: “Este é, do meu ponto de vista, um disco de jazz ‘tradicional’. Nele se escutam instrumentos acústicos, que os músicos sabem fazer falar e tocar. O disco inclui improvisação coletiva, além dos solos. Tem, ainda, riffs e um conhecido blues dos anos ’50, assim como música livremente improvisada. Para mim, tudo isso é parte da tradição: aliás, a improvisação livre existe há 30-40 anos, ou quase 50 se consideramos Intuition de Lennie Tristano. O objetivo de fazer coexistir as diversas facetas dessa tradição viva em uma interação criativa e coerente me parece uma boa imagem de onde nos encontramos hoje, e não apenas do ponto de vista musical.” Martin Joseph nasceu em Londres, em 1938, filho de um pianista do swing. Cresceu ouvindo jazz e aprendendo piano clássico. Isso o ajudaria a moldar sua estética musical ampla, livre, curiosa, sedenta por ouvir, compor e tocar a boa música. Pianista reconhecido, compositor respeitado e professor de uma legião de jovens apaixonados pelo jazz, Martin optou pelo nomadismo espiritual e geográfico: em Londres atuou com diversos músicos do jazz e do rock, entre eles John Surman e Ginger Baker. De 1970 a 1988 trabalhou na Itália como pianista, compositor e professor, acompanhando figuras como Albert Nicholas, Buddy Tate, Art Farmer, Dexter Gordon e Steve Lacy. Nesso longo período, grava excelentes álbuns, além de criar e presidir a Scuola Popolari di Musica di Testaccio, repassando seu enciclopédico conhecimento sobre a História e os estilos do jazz. Fazendo as malas como quem troca de camisa, Martin parte para o Peru (1988-1991), depois para a República Dominicana (1991-1995), em seguida para a Bolívia (1995-1996) e, até onde sei, para o Chile, onde tive o privilégio de conhecê-lo e ouvi-lo. Sem dúvida, nessa minha longa jornada em favor do jazz, conheci poucas pessoas como Martin, um ser absolutamente apaixonado pelo jazz. Não poderia ter recebido melhor presente de Natal que aquela noite no Thelonious Lugar de Jazz. Obrigado Martin.

Colours of A Chang...

30/11/2007

150

É com grande alegria que anunciamos a chegada do mais novo colaborador do Jazzseen, Dr. Eduardo Spikeasy, mais conhecido como Edú. Para os amigos, segue sua primeira resenha para nosso regalo e aprendizagem: "Durante anos classificou-se as regulares reuniões realizadas na sede da Federação da Indústria de São Paulo (FIESP) em seu suntuoso e estranho prédio, que lembra uma pirâmide , na Avenida Paulista, como a maior concentração, por metro quadrado, do PIB (produto interno bruto) nacional. Era a avaliação à importância financeira dos empresários, membros dessa elite, participantes das reuniões e conselhos.No entanto, a poucos metros dali, menos de um km, e no mesmo bairro, num discreto ambiente, séria impossível poder calcular algum índice para a enormidade de talentos de jazz que se concentraram num espaço , até certo ponto exíguo (no máximo comportava 350 pessoas) num período um pouco maior que meia década. O local era a Alameda Campinas, 150, era a senha, como nos bons filmes de gângsteres como Scarface, de Howard Hawks (o original), para a entrada ao melhor clube de jazz, que a cidade de São Paulo conheceu e do país, desde que Cabral pousou seus pés na areia da praia. A conclusão é obvia: citem , por favor, um outro endereço e local onde se concentraram: Tom Jobim, Michel Legrand, Joe Williams, Carmen Mc Rae, Lionel Hampton, Billy Eckstine, Paquito de Rivera, Anita O Day, o casal Toshiko Akiyoshi e Lew Tabackin, Bobby Short, mestres do blues como Buddy Guy, Junior Wells e Alberta Hunter. Tudo partiu do princípio de um engenheiro, a semelhança humana, quase fiel, do personagem de “cartoon” Mr.Magoo, Henry Macksoud, porém com uma voltagem de raciocínio e sagacidade dos vencedores. Com menos de 50 anos e um verdadeiro selfmade man (tradução livre de empreendedor milionário) , Macksoud , já dono de uma maiores empresas de engenharia hidráulica do mundo, fixou idéia que a cidade de São Paulo, na entrada dos anos 80, necessitava de um hotel na medida em que a qualidade de seus serviços e recursos se estendesse ao sorriso dos recepcionistas ao abrirem a porta de entrada do ambiente, até a saída, com a bagagem do hospede sendo depositada de maneira delicada no porta-malas do táxi. Não economizou dinheiro nessa causa. E colocar um clube de jazz foi um dos itens inseridos nessa ,literal, empreitada. Seguindo a recomendação de seu filho Roberto, então gerente geral (amante de jazz e cinema , com uma discoteca pessoal na casa de milhares de discos), foi contratado como coordenador da boate ,denominada 150 Night Club, Armando Aflalo.
Esse personagem mereceria um capitulo a parte,basta defini-lo , sem exagero, como um dos 5 maiores conhecedores que já existiram no pais sobre jazz. Aflalo não amava simplesmente o jazz, ele viveu pelo jazz (take it easy JL). Com sua assessoria, estabeleceu que se formaria uma orquestra pra casa de treze figuras, sob a regência do sax-alto argentino, o bandleader Hector (Besignani) Costita, lendário personagem do jazz latino americano. Seguindo os mesmos padrões e exigências de qualidade que estabeleceu nos minuciosos detalhes da construção e funcionamento do hotel, adotou-se , também, na constituição da banda. Vinicius Dorin, saxofonista, Olmir Stockler (Alemão, um dos maiores guitarristas brasileiros de todos os tempos), Nailor Proveta (líder e ogiva cerebral da Banda Mantiqueira, provavelmente o musico popular mais completo do país) só pra citar alguns, foram membros desse “dream team”. E tocavam, antes e após as entradas da atração principal, para os casais (homem e mulher, registre-se) dançarem agarradinhos na pista. Prática colocada de lado, hoje em dia, e só exercitada em bailes de formaturas, festas de debutantes e festividades da terceira idade. Aos poucos foram “seduzindo” os artistas que aguardavam sua entrada, começando a exigir que passassem à participar da apresentação de alguns de seus ídolos. Ir ao 150, era um das poucas ocasiões em q podia vestir calças compridas, tinha menos de 10 anos, naquela época. Fui duas vezes , na companhia de meus avós, ver Joe Williams e Michel Legrand. Da primeira vez, lembro do sorriso largo de Williams passando entre as mesas, pedindo coro a platéia em seu clássico “Every day I Have the Blues”. Mas meus inocentes olhos , e a maioria absoluta dos homens feitos, estava hipnotizado com a figura de Christiane Torloni, a menos de três metros, aos vinte e poucos anos, insuperável. Na de Legrand, impressionei-me como um músico, feito mágico e sua cartola, poderia retirar uma canção, mais inesquecível que a outra. E todas elas de sua autoria. É melhor parar por aqui. O 150 não existe mais e grande parte desse elenco esta fazendo música em outro “ pedaço”. Só pra não esquecer: Frank Sinatra se apresentou num dos salões de festas do hotel. O 150 era pequeno demais. E Mel Tormé assustou Roberto, quando negociavam seu cachê, colocando quem arcaria com o combustível de seu jatinho particular." (Foto: Bobby Short no 150 Night Club, Maksoud Plaza, 1983 - Fonte: Ovadia Saadia).