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04/02/2009

Pois é

Pois é, tenho recebido centenas de e-mails incisivos, muitos deles beirando a agressividade, em função de que tornei público, via  Jazzseen, que não tolero fusion, tambores, eletricidade e Miles Davis nem Djavan. Ora, em minha defesa, só poderia suscitar a prostituta das provas, o testemunho do amigo e guru do Meyer, Millôr Fernandes. Na página 20 de seu Millôr Definitivo: A Bíblia do Caos, 3ª Ed., o alquebrado mestre confessa: “Pois é, nasci com talento melódico numa época em que o pessoal só se interessa por percussão.” A coisa é por aí mesmo, com a turma da Timbalada associando-se às duplas caipiras eletrificadas, arrasando qualquer perspectiva do belo. Tudo bem, que não do belo em sua inteireza, mas do diverso em sua pluralidade e do plural em sua diversidade. Afinal que gravadora gostaria de administrar um cirrótico Lester Young se pudesse dispor de um cordato Kenny G? Você, dono da Sony Records, prefere conduzir a carreira de uma obstinada Billie Holiday ou a de uma saltitante Cláudia Leite? Trazendo novamente o turbulento testemunho do amigo Millôr: “Sou do tempo em que relógio tinha ponteiro.” Isso equivale a dizer que sou do tempo em que jazz não tinha tomada. Nunca poderia imaginar o Olney ou o André Tandeta tocando uma bateria eletrônica, daquelas pré-programadas, que dispensam os pratos, as baquetas, o bumbo e o baterista: basta um bom software japonês fabricado na China. Não, isso não. Quero o som amadeirado das madeiras. Quero perceber o sopro que sai do lábio penetrando o instrumento de metal, escapando aqui e ali pelas frestas das boquilhas e palhetas. Quero a escova escovando. Quero os ruídos dos dedos movendo as chaves e das chaves tocando o corpo do sax ou do clarinete. Quero os sussurros surdos e as batidas de pé do pianista. Quero um porão mal iluminado e mal freqüentado, em New York, Rio, Paris ou Porto Alegre. Quero casa vazia, quero público atento, quero um relógio com ponteiros. Para os amigos fica a faixa Love For Sale , com o pianista russo Valeri Grohovski, acompanhado por Vitaly Solomonov (b) e Eduard Zizak (d). O álbum é Plays Cole Porter, de 2005, lançado pelo selo Studio Chenailles. Pois é, quero os mesmos e lindos clássicos, reinterpretados indefinidamente até que um raio me atinja.

06/08/2006

Pasteurização

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Outro dia eu conversava com Rogério Coimbra, um dos sócios mais antenados do Clube das Terças, sobre o processo de pasteurização pelo qual o jazz tem passado nos últimos 50 anos. Assim como Louis criou em 1864 um processo através do qual podemos eliminar os microorganismos dos alimentos, muitos músicos de jazz criaram uma atmosfera elétrica através da qual toda emoção era retirada da música que produziam. Contrabaixos, pianos e outros instrumentos acústicos foram sendo eliminados. Junto com eles, as delicadas tessituras sonoras que davam tanta vida ao jazz foram sendo paulatinamente substituídas por frios sons eletrônicos. Confesso que coisas como Pat Metheny e Cia realmente nunca me atraíram sinceramente. Ok, você pode alegar a virtuosidade, a originalidade, a versatilidade mas... Sei lá, para mim falta a madeira envelhecida do baixo, falta a pancada do velcro sobre a corda esticada do piano. Não sabaria dizer exatamente o que sinto - talvez um musicólogo o saiba - mas falta emoção nessa coisa eletrônica toda que tem sido expelida no mercado sob o nome de jazz.

E Rogério sempre lembra: homens como Bill Evans não precisam de energia elétrica. Dê-lhe um velho piano e relaxe. Lembrando dessas palavras tive uma grata surpresa ao ouvir um músico para o qual até então eu não dava a mínima: Lyle Mays, aquele que sempre acompanha Pat em suas aventuras etéreas e, para mim, sem sal. Ao ouvir Lyle tocando piano acústico percebi quanta coisa esse jovem músico sabe sobre timbre e sobre emoção. Na faixa que coloquei acima, no Gramophone Jazzseen, o tributo a Bill Evans é evidente não apenas em função do título da faixa (Bill Evans) mas pelo simples fato de soar como um agradecimento sincero e emocionante ao velho mestre. Para aqueles que pretendem investigar o jazz moderno feito com sensibilidade, recomendo o cd Fictionary sem restrições, mesmo aos navegantes mais desconfiados. A coisa é toda acústica, com Marc Johnson no baixo e Jack DeJohnnet na bateria. Rogério Coimbra, tenho certeza, aprovaria.