20/02/2008

Latin Jazz - Parte 2

Após uma boa conversa com Fidel, resolvemos que seria melhor o velho ditador pendurar as congas e maracas, dedicando-se apenas a ouvir a música fantástica produzida em sua ilha particular. Deixamos a política de lado, e passamos a tratar sobre jazz, quer dizer, sobre latin jazz, é claro. Conforme vimos na resenha Latin Jazz – Parte 1, a influência latina sobre a música popular norte-americana foi importante, chegando a constituir uma das vertentes musicais que forneceriam elementos fundamentais para a formação do jazz. Era o que Jelly Roll Morton denominava de ‘cor hispânica’, tempero sem o qual, segundo Morton, não se pode fazer jazz. Com o advento do bebop, em meados da década de 1940’, houve um afastamento importante do jazz em relação às melodias e aos ritmos bailáveis, até então determinantes no nascimento e na evolução do jazz, música essencialmente destinada à dança. Por outro lado, na década de 1950’, a música latina passa a ocupar os amplos espaços vazios deixados pelo jazz mais intelectualizado, competindo francamente com o rock, estilo com o qual a música latina também flerta abertamente. Penetrando simultaneamente no jazz e no rock, a música latina encontrará no hard bop, em especial no ambiente do soul jazz, as condições necessárias tanto para o surgimento de um latin jazz mais intelectualizado (com ritmos e harmonias bastante elaboradas, quase sempre apresentadas em jam sessions repletas de improviso – denominadas ‘descargas’), bem como, paralelamente, encontrará seu nicho mais comercial e dançante. 

Em 1953 o clarinetista Buddy DeFranco e o baterista Art Blakey já gravavam ‘Star of Africa’ com o percusionista Sabu Martinez (1930-1979). Nascido na parte hispânica do Harlem, Sabu aprendeu percussão ainda criança, tocando em latas e baldes nas ruas 111 e 125, em New York. No mesmo ano, Horace Silver e Art Blakey gravam o álbum Sabu, com o mesmo percusionista. No ano seguinte, o mambo e a rumba atingem o máximo de sua popularidade, ganhando um festival no Carnegie Hall, seguido de apresentações no Paramount Theatre (Brooklyn) e no Apollo Theatre (Harlem). Nesse mesmo ano, Dizzy Gillespie grava Manteca Suite, com Luis Miranda, Antar Daly, Ubaldo Nieto, José Mangual e Candido. Cal Tjader grava o álbum Ritmo Caliente com o percussionista Armando Peraza (1924). Nascido em Havana, Peraza vendia verduras na feira até ser reconhecido como um dos maiores especialistas em congas e bongos de todos os tempos. Sua versatilidade permitiu-lhe atuar em diversos contextos, desde Santana e Eric Clapton, até Herbie Hancock e John McLaughlin. Em 1955 o trompetista Kenny Dorham grava o long play Afro-Cuban, com J.J. Johnson (tb), Hank Mobley (ts), Cecil Payne (bs), Horace Silver (p), Oscar Pettiford (b), Art Blakey (d) e Carlos "Patato" Valdes nas congas. Valdes (1924) é considerado um dos percussionistas mais melódicos já produzidos em Cuba, alcançando amplo reconhecimento no jazz principalmente em função de seus trabalhos ao lado do flautista Herbie Mann, com quem gravou os álbuns Flautista, Right Now e The Beat Goes On. 

Em 1956, no décimo dia de novembro, Horace Silver grava “Señor Blues” para a Blue Note, composição no compasso 6/8 típico do ritmo de dança afro-cubana. O álbum era 6 Pieces Of Silver, contando com Donald Byrd (t), Hank Mobley (ts), Doug Watkins (b) e Louis Hayes (d). No mesmo ano, o pianista George Shearing grava seu maior best-selling, o álbum Latin Escapade, com Toots Thielemans tocando sua saudosa guitarra e o solicitado Armando Peraza na percussão. Com o sucesso das versões de Perfídia e Cuban Love Song, Shearing gravaria em seguida Mambo Inn. Em 1957 Art Blakey e seu The Jazz Messenger gravam Cubano Chant, composição do pianista Ray Bryant baseada no cha cha cha. No mesmo ano, Blakey reforça o caldo no álbum Orgy in Rhythm, gravado por seu Art Blakey Percussion Ensemble, formado por Herbie Mann (fl), Ray Bryant (p), Wendell Marshall (b) Jo Jones, Art Taylor e Charles Wright nas baterias e Carlos "Patato" Valdes, Jose Valiente, Sabu Martinez, Ubaldo Nieto e Evilio Quintero na percussão. No mesmo ano, Cal Tjader volta ao latin jazz com Más Ritmo Caliente e Israel “Cachao” López grava diversas de suas famosas ‘descargas’ em Havana. Em 1958 o saxofonista José “Chombo” Silva (1923-1995) grava suas clássicas descargas em Havana e nos EUA, aqui em companhia de Cal Tjader. Chombo Silva e Gustavo Mas seriam os dois mais importantes saxofonistas cubanos de sua geração. No mesmo ano surge em Cuba o Grupo Instrumental de Música Moderna, chamado mais tarde de Los Amigos, formado por Frank Emilio Flynn, Guillermo Barreto e Tata Güines. Ainda em 1958, Ramón “Mongo” Santamaría e Willie Bobo passam a integrar o quinteto de Cal Tjader, enquanto o vocalista cubano Beny Moré passa a se apresentar com a orquestra de Tito Puente no Hollywood Palladium. Em 1959 Mongo Santamaría grava seu clássico “Afro Blue”, espécie de canto africano temperado com ritmos cubanos, enriquecendo a polirritmia e a superposição de ritmos com a companhia de excelentes percussionistas, como Modesto Duran, Francisco Aguabella, Carlos Vidal e Pablo Mozo. Nesse mesmo ano, Herbie Mann forma seu Afro-Jazz Sextet, nitidamente influenciado pela música africana, brasileira e latina, apresentando-se a partir de 1960 pela África com Patato Valdés, José Mangual, John Rae e Doc Cheatham. 

É também em 1960 que Mongo Santamaría retorna à Cuba na companhia de Willie Bobo, com quem gravaria dois álbuns com músicos locais. Como não poderia deixar de ser, Miles Davis aproveita o calor latino para, com a ajuda indispensável de Gil Evans, gravar Sketches of Spain, talvez o disco de jazz mais importante e influente com referência à herança espanhola ao jazz. No ano seguinte, em 1961, o empresário Al Santiago lança seu Alegre All-Stars, uma série de cinco álbuns de ‘descargas’ gravadas em New York, reunindo alguns dos mais importantes músicos do latin jazz, entre eles Charlie Palmieri, Johnny Pacheco, Pedro “Puchi” Boulong, Kako, Jose “Chombo” Silva, Louie Ramírez, Mark Weinstein, and Bobby Rodríguez. Essa coleção histórica foi lançada em cd pelo selo Fania, sendo a única gravação que conheço a colocar o nome de um garçom nos créditos do álbum. Foi também em 1961 que John Coltrane, não resistindo ao saboroso tempero flamenco, grava Olé Coltrane, considerado um dos melhores álbuns do saxofonista segundo nosso amigo Grijó, responsável pelo insubstituível blog Ipsis Litteris. Além da seção rítmica clássica – McCoy Tyner (p), Reggie Workman (b) e Elvin Jones (d), Coltrane conta com a presença marcante de Art Davis (b), Freddie Hubbard (t) e Eric Dolphy (f, as). Em 1962 o guitarrista Grant Green grava The Latin Bit, com Willie Bobo, Wendell Marshall, Patato Valdés, Carvin Masseaux e Johnny Acea, dentro de um contexto mais próximo ao boogaloo, estivo derivado do soul jazz. No mesmo ano, Ray Barreto (1929-2006) grava Latino, um estimulante álbum baseado na charanga e em outras influências latinas, como a brasileira, representada pela faixa Manhã de Carnaval. O álbum é recheado de excelentes solos do saxofonista Jose “Chombo” Silva (foto) e do trompetista Alejandro “El Negro” Vivar. Em seguida, gravaria um de seus maiores sucessos: El Watusi. Barreto foi, sem dúvida, um dos maiores líderes do latin jazz de todos os tempos, dominando com igual maestria as linguagens latinas e o idioma do jazz, o que lhe abriu as portas para trabalhar com músicos como Gene Ammons, Cannonball Adderley, Kenny Burrell, Lou Donaldson, Red Garland, Dizzy Gillespie, Freddie Hubbard, Wes Montgomery e Cal Tjader. 

Ainda em 1962 Mongo Santamaría (1922-2003) grava “Watermelon Man”, composição de Herbie Hancock, atingindo a décima colocação nas paradas de sucesso. Regravada por mestres como Count Basie, Errol Garner e Woody Herman, Watermelon Man consolidou a chamada ‘latin soul crazy’, estilo também denominado de ‘popcorn’ ou ‘boogaloo’. Infelizmente não teremos oportunidade de explorar mais a fundo todas as facetas daquilo que se costuma denominar latin jazz. Existem diversos estilos e subestilos associados à expressão ‘latin jazz’, entre eles o soul jazz, o boogaloo, o west coast jazz e o hard bop de um lado. Do outro lado, temos o afro-cuban jazz, a bossa nova, o modern son e a New York salsa. De modo geral, com exceção talvez da bossa nova, o latin jazz se caracteriza inicialmente pelas tessituras latinas adaptadas às bandas do swing e, mais tarde, ao incremento da percussão, dando relevo especial à complexidade rítmica, apresentada sob a linguagem do bebop. Nesse ambiente, a bossa nova se diferencia não pelo calor rítmico atordoante, mas antes pela falsa simplicidade de sua batida, associada à uma complexidade melódica e harmônica bastante distante da música latina média, quase sempre feita para dançar. É no contexto do west coast que o brazilian jazz acontece com maior relevo, primeiro em 1962, quando Stan Getz grava Jazz Samba (primeiro álbum de jazz totalmente dedicado à bossa nova) com o guitarrista Charlie Byrd e, no ano seguinte, se reúne com o baiano João Gilberto e o carioca Tom Jobim para gravar o álbum Getz/Gilberto. A partir de João Gilberto e Tom Jobim, diversos músicos brasileiros participarão do contexto jazzístico, quase sempre influenciados pela bossa nova. Entre eles podemos citar Sérgio Mendes, Luiz Bonfá, João Donato, Luiz Eça, Laurindo Almeida e muitos outros, a maioria deles bem sucedida nos EUA. No contexto mais especificamente hispânico, o trabalho continua a toda: em 1963 o saxofonista Sonny Stitt, que gravaria na década seguinte com o Zimbo Trio, lança o long play Stitt Goes Latin, com os percussionistas Carlos “Patato” Valdés e Willie Bobo. No mesmo ano, o multinstrumentista portorriquenho Tito Rodríguez invade um dos santuários do jazz e grava seu álbum clássico, Live at Birdland. Em 1964 o baterista e percussionista peruano Alex Acuña passa a integrar a orquestra do pianista cubano Pérez Prado. Nesse mesmo ano Cal Tjader grava Soul Sauce, o mais popular álbum de latin jazz da década e Jerry Masucci e Johnny Pacheco fundam o selo Fania, o mais importante da música latina. No ano seguinte, Willie Bobo (1934-1983) grava Spanish Grease, álbum fortemente influenciado pelo R&B. Bobo é outro grande percussionista oriundo do denominado ‘spanish Harlem’ e considerava Dindi, de Tom Jobim, sua música predileta. Ainda em meados da década de 1960’ o pianista cubano Frank Emilio Flynn (1921-2001) e o grupo Los Amigos grava a faixa “Gandinga, Mondongo y Sandunga”. Flynn ficaria completamente cego devido a complicações no parto, o que não impediu que se tornasse um dos pinistas mais importantes na criação e divulgação do ‘filin’, estilo de música cubana repleta de influências do blues e do jazz. 

Em 1966 os contrabaixistas Israel “Cachao” López (1918) e Bobby Rodríguez se enfrentam ‘mano a mano’ durante memoráveis ‘descargas’ no Village Gate, lançadas em três long plays pelo selo Fania. Entre os participantes dessa jam latina estavam Eddie Palmieri, Charlie Palmieri (p), Vincent Frisaura, Alfredo "Chocolate" Armenteros, Pedro Boulong, Victor Paz (t), Jose Papo Rodrigues (tb), Candido, Jimmy Sabater, Francisco Pozo, Tito Puente, Ray Barreto (perc), Alfred Abreu (ts), Bobby Porcelli (as) e Johnny Pacheco (f). No ano seguinte é fundada em Havana a Orquesta Cubana de Música Moderna, sob a direção de Armando Romeu, Jr. Na década de 1970, embora o jazz naufragasse, o latin jazz ainda conseguia manter-se, ao menos como uma alternativa dançante ao jazz e rock que, cada vez mais, penetravam em terrenos arenosos e, na maioria das vezes, psicodélicos e relaxantes. Em 1971 o saxofonista colombiano Justo Almario torna-se diretor musical da orquestra de Mongo Santamaría. No mesmo ano, o saxofonista argentino Gato Barbieri abandona suas experimentações free, no contexto herdado de John Coltrane, e mergulha de cabeça nas maracas e bongos. Alterando sua tonalidade crua e lancinante dos primeiros álbuns (que lembram bastante a sonoridade do saxofonista brasileiro Ivo Perelman), a partir de 1969 Barbieri passa a investigar as possibilidades da música latina e brasileira no contexto do jazz, gravando Piazzola e Villa-Lobos em seu álbum Third World. Em 1971 grava o álbum Fênix, talvez o melhor álbum de latin jazz da década, onde prossegue com suas investigações acerca da música brasileira e latina, trabalho que jamais abandonará e que lhe retribuirá com muito sucesso (vide o álbum Last Tango in Paris, de 1972). Será também em 1972 que o pianista Chick Corea, após gravar com Cal Tjader, Mongo Santamaría e Willie Bobo, resolve formar o Returne to Forever que, inicialmente, contava com os brasileiros Airto Moreira na percussão e Flora Purim nos vocais. Logo em seguida, Corea optou pelo jazz-rock ou fusion, eletrificando totalmente a banda e afastando-se cada vez mais do latin jazz. Nesse mesmo ano o percussionista Armando Peraza passa a integrar o grupo de latin-rock do guitarrista Santana. No ano seguinte, Charlie Palmieri e Tito Puente participariam do álbum Primo, de Cal Tjader. Ainda em 1973, agora em Cuba, o produtor Rodulfo Vaillant realiza as primeiras gravações de um grupo de músicos que, mais tarde, formariam a banda Irakere, uma das mais importantes do latin jazz. É também em 1973 que o pianista Eddie Palmieri ganha o Grammy com o álbum The Sun of Latin Music, com arranjos de René Hernández. No ano seguinte, a cantora cubana Célia Cruz (1924-2003) e o saxofonista portorriquenho Johnny Pacheco gravam o álbum Celia and Johnny, obtendo grande sucesso. Ainda em 1974, Wayne Shorter, Herbie Hancock e Milton Nascimento gravam Native Dancer, um marco da colaboração entre a música brasileira e o jazz. No mesmo ano, Astor Piazzolla grava com Gerry Mulligan o álbum Reunión Cumbre, uma mistura bem sucedida de tango, jazz e música clássica. Mas os tambores não calaram na década de 1970. Em 1975 Machito grava Afro Cuban Jazz Moods, com solos de Dizzy Gillespie e arranjos de Chico O’Farrill. Em 1976 Charles Mingus conta com a colaboração do saxofonista colombiano Justo Almario para gravar Cumbia & Jazz Fusion. 

No ano seguinte Dizzy Gillespie, Stan Getz, Arturo Sandoval, David Amram, Ray Mantilla, Los Papines e Irakere participam do primeiro Festival Jazz Plaza, em Havana. Ainda em 1977, Charlie Palmieri junta-se a Cachao para a gravação do álbum Descarga 77. No ano seguinte, o Irakere se apresenta nos EUA, recebendo uma indicação para o Grammy com o melhor álbum ao vivo. Ainda em 1978, Eddie Palmieri grava Lucumí, Macumba, Voodoo, contando com a participação de seu irmão Charlie e do espetacular trompetista Jon Faddis. Em 1979 Poncho Sánchez grava seu primeiro álbum como líder, ao lado do versátil pianista Clare Fischer, capaz de perambular pelo bebop (com Dizzy Gillespie) ou pelo latin jazz (com Salsa Picante) com a mesma desenvoltura. , makes his first solo recording. Nesse mesmo ano o trompetista Jerry González forma a Fort Apache Band com seu irmão Andy e outros excelentes músicos. Jerry gravaria uma série de álbuns para a Sunnyside, entre os quais o excelente Rumba para Monk. Ainda em 1979 o trombonista cubano Juan Pablo Torres (1946-2005) produz Estrellas del areito, uma série de gravações ao lado de gente como Arturo Sandoval, Félix Chappotín, Paquito D’Rivera, Jorge Varona, Enrique Jorrin, Rafael Lay, “Niño” Rivera, Tata Güines, Rubén González, entre outros importantes solistas do latin jazz. Ainda no final da década de 1970, a CBS vai a Cuba levando alguns de seus melhores músicos de jazz, realizando apresentações no Teatro Carlos Marx entre os dias 2 e 4 de março de 1979 que, mais tarde, seriam lançadas nos álbuns Havana Jam I e II. Tito Puente fecha a década com chave de ouro, ganhando seu primeiro Grammy com o álbum Homage to Beny. Na década de 1980 o latin jazz já se encontrava consolidado como um dos ramos mais bem sucedidos da world music, muito embora mantivesse seu sabor único e inconfundível, afastando-se, assim, das inúmeras experiências levadas a efeito com as tradições musicais do oriente. De simples e alegre música para bailar, passa a contar com harmonias e arranjos de maior complexidade, fornecendo texturas mais adequadas ao improviso do jazz moderno pós bebop. A década começa com a apresentação do The Latin Jazz Percussion Ensemble no Montreux Jazz Festival, reunindo figuras como Patato Valdés, Tito Puente, Jorge Dalto e Alfredo de la Fé. De outro lado, o pianista argentino Jorge Dalto despede-se de George Benson para formar sua própria banda. Em 1982 Justo Almario e Alex Acuña formam a banda Tolú, em Los Angeles. Em 1983 a pianista Michele Rosewoman (1953) apresenta com sua banda o show “New-Yor-Uba”, em New York. 

Enquanto isso, Tito Puente ganha seu segundo Grammy com o álbum On Broadway. No período que vai de 1984 a 1987 observamos uma longa série gravações importantes no contexto do latin jazz, entre as quais podemos destacar: Giant Step, de Chalie Palmieri; Masterpiece, de Patato Valdés; Something Grand, de Hilton Ruiz; Papa Gato, de Poncho Sánchez e Mi gran pasión, de Gonzalo Rubalcaba. Vale destacar também o álbum Soplando, do guitarrista Juan Luis Guerra, onde deliciosos merengues são tratados pela ótica do jazz com o auxílio do grande saxofonista dominicano Tavito Vásquez. Em 1985, durante três semanas em New York, acontece o primeiro Blue Note Latin Jazz Festival e Tito Puente ganha seu terceiro Grammy com o álbum Mambo Diablo, com a colaboração de George Shearing. No ano seguinte acontece em Porto Rico o primeiro San Juan Jazz Fest, mais tarde denominado Heineken Jazz Fest. Ainda em 1986, em San Francisco, John Santos forma o Grupo Machete. Em 1988 Brett Gollin funda o grupo Bongo Logic, em Los Angeles e Jerry González, conforme já dissemos, grava o álbum Rumba para Monk. É também em 1988 que a saxofonista canadense Jane Bunnett inicia sua aventura pela música cubana, com a colaboração de Guillermo Barreto, em Havana. Nesse mesmo ano Dizzy Gillespie forma sua The United Nation Orchestra, integrada por músicos como Paquito D’Rivera, David Sánchez, Charlie Sepúlveda, o brasileiro Claudio Roditi, Arturo Sandoval, Danilo Pérez, Steve Turre, Ignacio Berroa, Mario Rivera e Giovanni Hidalgo. Em 1989 o panamenho Mauricio Smith é escolhido como diretor musical do filme Crossover Dreams, estrelando o cantor também panamenho Rubén Blades. No mesmo ano, Eliane Elias grava seu segundo álbum para a Blue Note, Eliana Elias plays Tom Jobim, aconpanhada por Eddie Gómez (b), Jack DeJohnette (d) e Naná Vasconcelos (perc). 

Durante toda a década de 1990 vamos ter uma infinidade de novas perspectivas do latin jazz, sendo quase impossível enumerá-las todas, mas não sendo possível esquecer o trabalho de músicos como Steve Berrios, Rebeca Mauleón, Víctor Mendoza, Paquito D’Rivera, Arturo Sandoval, Dave Valentín, Papo Vázquez, Michel Camilo, Orlando “Maraca” Valle, Ralph Irizarry e Chucho Valdés. Reconhecendo nossas limitações, arriscamos destacar que, no início dos anos 90’, há uma espécie de renascimento do jazz na Espanha, onde observamos o pianista Chano Domínguez e o saxofonista Jorge Pardo estabelecerem-se como líderes do flamenco jazz. Do saxofonista, devemos citar o importante álbum Las Cigarras Son Quiza Sordas, de 1991. No mesmo ano, Arturo Sandoval participa da trilha sonora do filme The Mambo Kings. Nos últimos três anos de vida (1991-1993), Mario Bauzá grava três importantes álbuns: Tanga, My Time Is Now e 944 Columbus. Em 1992 o panamenho Danilo Pérez faz sua primeira gravação, enquanto Tito Puente forma seu The Golden Latin Jazz All-Stars. No mesmo ano, o trompetista Charlie Sepúlveda grava seu álbum Algo Nuevo, auxiliado por David Sánchez (ts), Ed Simon (p), Andy González (b), Adan Cruz (d) e Richie Flores (perc). Em 1993 o saxofonista Mario Rivera mistura jazz com merengue no álbum El Comandante. Também nesse ano chega ao fim, com o fechamento do clube, as tradicionais performances de latin jazz no Village Gate, onde ocorriam as famosas ‘descargas’ e onde semanalmente se realizavam a semanais “Salsa Meets Jazz”, promovidas pelo disc jockey “Symphony Sid” Torin e pelo empresário Jack Hooke. No ano seguinte, Bebo Valdés lança seu primeiro álbum depois de mais de trinta anos de silêncio, Bebo Rides Again. A partir de 1995, observamos uma estranha, porém produtiva, fusão entre jazz, música latina e rap. Seus principais interlocutores foram Irakere, Steve Coleman, Orlando “Maraca” Valle, Charlie Sepúlveda e Omar Sosa. Em 1995 Chucho Valdés realiza sua primeira apresentação como solista nos EUA, apresentando-se em San Francisco e Los Angeles. No ano seguinte, Chucho se apresenta e grava com a banda Crisol, de Roy Hargrove. Ainda em 1995 o Grammy Awards cria a nova categoria Latin jazz. Seu primeiro ganhador foi Arturo Sandoval com o álbun Danzón. Os outros indicados foram Ray Barretto (Taboo), Mario Bauzá (944 Columbus), Jerry González (Crossroads) e Eddie Palmieri (Palmas). Em 1996 o pianista Michel Camilo interpreta uma série de clássicos do latin jazz (Manteca, Perdido, Afro-Blue, St.Thomas) em seu álbum Thru My Eyes. No mesmo ano, Steve Coleman grava The Sign and the Seal com o grupo folclórico cubano Afrocuba de Matanzas. Ainda em 1996 Jerry González (Pensativo), Patato Valdés (Ritmo y candela: Rhythm at the Crossroads), Eddie Palmieri (Arete), Chico O’Farrill (Pure Emotion) são indicados para o Grammy na categoria latin jazz, sendo Antonio Carlos Jobim, com seu álbum Antonio Brasileiro, o vencedor. 

Em 1997 David Sánchez e Branford Marsalis gravam o álbum Obsesión, reunindo uma série de clássicos da música latino-americana. É nesse ano que Paquito D’Rivera ganha o Grammy com seu álbum Portraits of Cuba, concorrendo com Ray Barreto (My Summertime), Steve Berrios (And Then Some), Terence Blanchard (The Heart Speaks) e Don Grolnick (Medianoche). Em 1998, três contrabaixistas de gerações distintas, Al McKibbon, Andy González e Carlos del Puerto, Jr., prestam suas homenagens ao lendário contrabaixista Israel “Cachao” López, no segundo Annual Latin Jazz Festival, em Los Angeles. Em 1998 Ray Hargrove e seu conjunto Crisol recebem o Grammy pelo álbum Habana, vencendo os concorrentes Conrad Herwig (The Latin Side of John Coltrane), Giovanni Hidalgo (Hands of Rhythm), Patato Valdés (Ritmo y candela II) e a Banda Mantiqueira (Aldeia). Em 1999 o pianista Gonzalo Rubalcaba e outros, incluindo Papo Luca, Roberto Fonseca e o veterano Rubén González, apresentam-se no El Festival Barranquijazz, na Colômbia. Nesse mesmo ano, Arturo Sandoval ganha seu segundo Latin Jazz Grammy com o álbum Hot House, vencendo Ray Barretto (Contact), Paquito D’Rivera and the United Nation Orchestra (Blue Jackal), Danilo Pérez (Central Avenue) e David Sánchez (Obsesión). Ainda em 1999, numa espécie de neo-tradicionalismo latino, a orquestra Cubanismo explora as históricas conexões entre o velho estilo New Orleans e a música latina. Enquanto issso, músicos como David Sánchez, Gonzalo Rubalcaba e Charlie Haden voltam-se para o bolero, utilizado como fonte inspiradora para seus novos trabalhos. Durante o século XXI serão diversos os artistas ligados ao jazz sob uma ótica eminentimente latina: Jane Bunnett, Danilo Pérez, William Cepeda, Ed Simon, Héctor Martignon e Omar Sosa exploram as possibilidades regionais dos países como Cuba, Panamá, Porto Rico, Venezuela, Colômbia e Equador. Diversos festivais ao redor do mundo prestigiam o latin jazz, como o Festival Jazz Plaza em Havana, liderado por Chucho Valdés e Irakere, apresentando solistas e conjuntos de todo o mundo, incluídos quinze atrações norte-americanas e sete espanholas. Outros exemplos seriam o Annual Central Avenue Jazz Festival, em Los Angeles (com John Santos e seu Machete Ensemble, Bobby Matos e seu Afro-Latin Jazz Ensemble, Johnny Blas Latin Jazz Band e Robert Incelli Latin Jazz Band) e o Annual Latin Jazz Club Caravan, também em Los Angeles, realizado através de diversas apresentações em mais de dez clubes noturnos diferentes. 

E, assim, termina nossa curta viagem através do latin jazz, com as desculpas sinceras aos músicos que não puderam ser citados nessas breves linhas, como Al McKibbon, Gary Burton (Libertango), Bobby Sanabria (Afrocuban Dream) Donald Veja, Los Hombres Calientes, Irvin Mayfield e Bill Summers, além de todos os músicos que participaram dos filmes Buena Vista Social Club e Calle 54. E muitos outros... Para os amigos ficam as faixas abaixo.


25 comentários:

thiago disse...

grotesco

avaliador de blogs disse...

Uma resenha imensa com parco conteúdo. Nota 3,61.

Anônimo disse...

A melhor coisa dessa segunda parte do tratado sobre Latin Jazz foi saber que os Latin jazzmen chamam de "descargas" os seus fantásticos esforços musicais. Parabéns, Mr. Lester. Está dito tudo. Garibaldi Magalhães.

Marília disse...

Que malvado esse Garibaldi! Liga não Lester, adorei a resenha.

PREDADOR.- disse...

Avaliador de blogs e Garibaldi estão com toda razão. Texto imenso, parecendo até os "escritos de Edú", espaço precioso jogado fora com esta insana latinidade. Não aguentamos mais, sr. Lester. Existem outros caminhos do jazz bem mais proveitosos para você abordar.

John Lester disse...

Prezados amigos e inimigos, os fatos históricos nos impedem de negar a influência latina no surgimento e na evolução do jazz. Assim sendo, prosseguiremos nossa jornada conforme prometido: fevereiro de 2008 é dedicado ao latin jazz. Doa a orelha de quem doer. E como bem observou nosso perspicaz Garibaldi, não esqueçam da descarga após os comentários.

Salsa disse...

Concordo com Lester, mas meus olhos (um farol alto e um farol baixo + uma poli-esculhambose qualquer)impedem-me de apreciar textos longos na telinha. Aguardarei a publicação do livro. Serei o primeiro a comprar.

Anônimo disse...

Lester, caraca, que mapeamento de nomes, dados , personagens e fatos.Impressionante e considerável trabalho.Fico ,quase sem jeito , pelo volume de informações prestadas em dar uma brevíssima linha de informação: nosso João Donato foi nos anos 70, durante um período de quase dois anos nos EUA, arranjador principal da banda de Tito Puente.Gravando depois com Cal Tjader discos, um dos quais um dia ainda pretendo ouvir chamado The Prophet,saído somente em cd no Japão e parece esgotado.Já ouvi de Donato que uma de suas maiores referencias musicais como criador é a musica latina e o Afro-Cuban Jazz.Edú

abílio disse...

Resenha fantástica!

bia disse...

jazzseen cada dia melhor, bju!!!

Anônimo disse...

Exauri.
RCoimbra

Anônimo disse...

O trompetista Araken Peixoto morreu terça-feira , dia 19.Não tive o prazer de conhecê-lo pessoalmente, somente seu irmão, Moacyr ,de quem aproximei-me em seus últimos cinco anos de vida.Araken havia se mudado em meados dos anos 90 para o Rio de Janeiro.Era considerado, em vida, um dos patriarcas do “piston”, como classificava o instrumento, em seus discos da série “dentro da noite”, pelo selo Eldorado.Mantinha admiração e influência por Harry James, provavelmente o maior trompetista branco do jazz e Roy Eldridge, maior ídolo de Dizzy Gillespie.Foi um musico que conheceu a época em que as famílias ainda se reuniam pra ouvir música.E, portanto, sabiam como valorizá-la.Descanse em paz.Edú

Mª. Augusta disse...

Mr.Lester, entendo a importância de falar sobre a influência da música latina na história do Jazz, acho interessante tomar conhecimento destes fatos, mas como você dedicou o mês de fevereiro de 2008 ao assunto, poderia ter publicado este texto em 3 capítulos, II,III e IV, tornando mais confortável a leitura. Resenha do Edú ficou pequenininha comparada à esta! De qualquer modo, parabéns pelo estudo e pelo texto, como sempre, bem elaborado, sendo vc. um amante do Jazz e das letras!

Anônimo disse...

Nesta vida houve o Araken(Quem ???)Lá em São Paulo, era o rei da noite.Eu o vi, ouvi.
Essa família de Niterói foi, é, forte. Ele, Cauby, Moacyr, tudo ali Pery que tem Cecy, ou vice-versa.
Asssim caminha humanidade como dizia Oscar Gama Neves.
Ass: Cretino de Creta

Anônimo disse...

Mr. Lester
Sua resenha é portentosa, apesar de muito extensa. Sem a latinidade hispânico-caribenha, o jazz não teria latido o tanto que latiu pelo mundo afora. Concordo com Mª. Augusta de que ela deveria ser subdividida. Mas isso não importa. Ela é portentosa, como nos referíamos lá em Jucutuquara às deusas que passavam pela Paulino Müller para pegar o ônibus pro Centro da cidade, rebolando ao som ancestral de maracas e bongôs inaudíveis para os comuns mortais, igual a essa lady que se sentiu exaurida.
José Garibaldi Mazzi Magalhães Neves

Anônimo disse...

Os que criticam com um fundo de orgulho e absurdez, onde chegamos: Axé danca do Tchan... O Jazz nao acabou mas nao cresceu aqui no Brasil, copiamos, tentamos reproduzir ou num limite cultural se pode tentar fazermos uma descarga? Seja la, nossos filhos nao tiveram nenhum base musical instrumental consideravel para entender e estudar a linguagem complexa do Jazz. Sem dizer que um dos instrumentos mais exoticos e complexos e erotico o saxsofone nem sempre é facil levar num rodada com os amigos. Um ser totalmente normal nao compra um sax no lugar de curtir uma noitada com a sua garota preferida, passou no vestibular e vai ouvir o jazz favorito dos anos 60.

John Lester disse...

Prezados amigos, estando eu ainda sob processo de investigação (talvez alguns não saibam, mas já relatei meu acidente em Havana onde, ao perder o controle de um Ford 1954 azul bebê, atingi diversas barracas de frutas, causando, assim, o maior acidente já registrado naquelas estreitas vielas). Enquanto os membros da Comissão de Inquérito recolhem e contam as bananas e abacaxis vitimados no sinistro, eu, enclausurado, aproveito meu dia de sol semanal para lançar, por sobre os muros da ditatura, minhas resenhas para o jazzseen, contando com a colaboração de uma linda morena de lábios vermelhos, que as coloca on-line. Daí tão poucas, daí tão longas resenhas.

Grande abraço e, espero, até breve!

PREDADOR.- disse...

Pena que Fidel Castro afastou-se do Governo Cubano, mas seu irmão Castro por certo o levará, sr. Lester, as barras do tribunal (que é apenas para americano ver), pois lá o rito processual é sumário. Atropelou as bananas, causou acidente, estais frito: PAREDÓN na certa. Se você, por sorte, escapar do "paredón", ficará preso por mais ou menos 300 anos e aí sim ficaremos livres de suas resenhas "latinosas" (ou gelatinosas ?)

F. Grijó disse...

Um compêndio.
Mais do que resenha.
Muito bom, JL.

O Pedador mantém a ladainha, mas ninguém mais se engana: enviarei maracas de presente a ele.

Anônimo disse...

Magnífico trabalho, Lester; uma verdadeira aula, fruto de muita pesquisa e gosto pelo assunto. Não há como negar a grande e importante influência latina no jazz e os geniais músicos que dela participaram.

olney

Mª. Augusta disse...

Provavelmente depois de ler o belíssimo trabalho de Mr. Lester, Lúcia Guimarães, do Manhattan Connection, apresentou como dica cultural e de lazer em NY,no programa de domingo último, o restaurante Son Cubano, na rua 14, com o som de Gonzalo Rubalcaba ao piano e mais tarde, um clipe com Bola de Nieve, cantor cubano admirado por personalidades como Pablo Neruda, Julio Cortazar, Caetano Veloso...Parece que o Latin-Jazz está em alta...

Salsa disse...

Lester, assessores e visitantes,
Matei o Chet de novo. Tá lá no jazzigo.

Anônimo disse...

Morre Teo Macero

Acabei de tomar conhecimento da morte do produtor Teo Macero no dia 22 de fevereiro.Tinha 82 anos e sua figura ficou associada a de Miles Davis numa união que se principia de 58 até 82 , excluindo o intervalo que Miles(74-81) dedicou-se a um retiro movido a drogas, prostituição e acidentes automobilísticos e domésticos. Miles na sua autobiografia não guarda palavras carinhosas a seu respeito, fazendo-o como uma espécie de “feitor” imposto pela Columbia a seu trabalho.Mas Miles dificilmente guardava palavras carinhosas a ninguém a não ser a si próprio.Macero nasceu Atillo Joseph Macero em Glenn Falls(NY).Mudou-se pra NY pra estudar na Juilliard School of Music em 48.Em 53, envolve-se num projeto cooperativo ao lado de Charles Mingus chamado Jazz Composers Workshop.Gravou alguns discos como saxofonista no selo criado por Mingus e Max Roach , Debut Records.Após essa experiência, passou a compor peças para o movimento Third Stream , de forma simplista, a ponte entre o jazz e a musica erudita.Em 57 entra para o “staff “ da Columbia, primeiro, como editor de mesa de som , depois, como produtor associado.Produziu J. J. Johnson, Mahalia Jackson, Johnny Mathis, Thelonious Monk e Dave Brubeck , incluindo o lendário álbum “Time Out”.Também manteve atividade na Broadway como produtor de musicais como “Chorus Line” e trilhas pra cinema.Em 75 sai da Columbia,retornando para um breve período com Miles de 81/82.Macero considerava a edição praticada nas fitas com laminas ou recursos tecnológicos mais conservadores uma obra de arte.Repudiava ,com razão, a existência das caixas com takes alternativos e material inutilizado ou inacabado.Não participando, inclusive,na supervisão de caixas –como as de Miles - em que havia participado como produtor.Na sua versão, a palavra final – a do artista e do produtor - já havia sido dada.Descanse em paz.Edú(informações retiradas do obituário do New York Times)

Sergio disse...

Lester, embora já tenha lido e muito me informado sobre a evolução do latinjazz - graças a seu texto resgatei um essencial '6 pieces of Silver' -, tô em outra. Escute isso aqui:

http://www.zshare.net/download/81248072fa1eb1/

Obedecendo as normas da casa, é só uma única faixa. Um teaser.

adalto disse...

Kd vc lester???