19/10/2010

Habla el jazz, calla la política

Na semana passada, Wynton Marsalis esteve em Cuba, apresentando-se com a espetacular orquestra do Lincoln Center, formada por quinze excelentes e, em sua maioria, jovens músicos. Era o jazz novamente rasgando as cercas ideológicas que sempre cismaram em separar os dois países. Sua presença na Ilha de Castro e a recente turnê de Chucho Valdés nos EUA lembram um pouco a atuação de Dizzy Gillespie e Chano Pozo que, em décadas passadas, incentivaram um memorável fluxo musical entre os dois países, culminando na invenção do afrocuban jazz e no asilo político de centenas de importantes músicos cubanos que, não fosse o Tio Sam, restariam desdentados e esquecidos em algum banco de praça da bela ilha. Num total de cinco concertos, Wynton Marsalis e a big band mais famosa do mundo contaram a história do jazz, interpretando clássicos de Ellington, Gillespie e Monk, com arranjos que de certa forma podem indicar os novos rumos desse velho estilo. É claro que os clássicos cubanos também estiveram na pauta, com o auxílio dos gabaritados músicos da banda de Valdés, a The Afro-Cuban Messengers, que também interpretaram composições de seu novo álbum, Chucho's Steps, lançado em 2010. Além da homenagem óbvia a John Coltrane, Valdés traz em seu novo cd a faixa New Orleans, tributo a um de seus mais célebres admiradores, Ellis Marsalis.

Ciceroneado por Chucho Valdés, talvez o melhor pianista de jazz cubano em atividade, Marsalis e sua banda participaram também de workshops e puderam ouvir o desempenho de bandas escolares do ensino médio e fundamental, passando aos alunos suas impressões e sugestões. Não bastasse, alguns deles foram convidados a tocar com a banda em sua última apresentação, na verdade uma emocionante jam session. Entre uma apresentação e outra, Marsalis arranjou tempo para participar da gravação de um novo álbum de filin, com Valdés e Omara Portuondo. Emocionada com o solo de Marsalis, a musa da voz cubana não conteve as lágrimas. 

Durante toda a turnê não se ouviu uma única palavra sobre política.

Marsalis, avesso a assumir qualquer posicionamento político explícito, disse que "estamos aqui para unir as pessoas através do swing". E quanto ao fato de que alguns músicos da banda não foram à Cuba por motivos políticos, alegou que se tratava de convicções particulares de cada um.

Eu, que nunca fui homem de muitos amigos, gostaria que Marsalis tivesse a coragem de Gillespie. Gostaria que ele se posicionasse em relação às centenas de músicos cubanos que abandonaram e ainda abandonam sua terra natal para viver na Europa e nos EUA. Gostaria que ele comentasse o sofrimento de homens como Arturo Sandoval, que teve sua música e a de seu conjunto Irakere utilizada pelo governo cubano sem sua autorização. Que teve sua criatividade tolhida por um sistema ditatorial. Que tentou diversas vezes o asilo político na Europa e nos EUA, mas sempre fraquejava diante da possibilidade de abandonar sua família em Cuba. Que teve a ousadia de se inflitrar no partido cominista cubano somente para obter autorização do governo para levar sua esposa Marianela e seu filho Arturo Jr. para uma turnê na Europa e, ao chegar em Roma, e com o auxílio de Dizzy Gillespie, pediu e recebeu asilo nos EUA.

Bem, pelo menos Marsalis não foi canalha em comparar os presos políticos que morrem de fome em Cuba com os bandidos comuns do Brasil. Para os amigos fica a faixa Las dos caras , retirada do novo álbum de Valdés. Tem até citação brasileira no magistral solo de Chucho. 

Para Valdés, a visita de Marsalis constitui um marco nas relações entre os dois países. Eu esperava mais. 

15 comentários:

augusto carlos disse...

Quem gosta de Fidel é comunista de Ipanema!!! Cuba Libre!!!

Takechi disse...

Perfeito, Lester!
Abraço,
Takechi

Salsa disse...

Lester, existem "canalhas" que também estão demonizando aqueles que tiveram coragem para peitar a nossa ditadura. Equiparando-os àqueles que explodiram as torres, terroristas perversos ou a bandidos comuns. Vejo isso quase diariamente na rede.
E viva Valdés!

Andre Tandeta disse...

Mr. Lester,
excepcional essa orquestra liderada pelo grande musico Winton Marsalis. E tambem gostei muito da musica postada, do grande Chucho Valdes.
O resto, a tal da politica,deixo pra os mais inteligentes,cultos, bem formados e informados. Meu negocio e' batucar.
Se quiser saber qual e' minha preferencia politica a resposta e', infelizmente,impublicavel em um blog de alta categoria como o Jazzseen.

Paula Nadler disse...

Viva Valdés, viva Gillespie!!!

John Lester disse...

Prezados amigos, eis que surge a cizânia!

Minha intenção era propor salutares debates acerca de nossa elição. Mas quem poderia negar que vivemos momento único, decisivo para os destinos de nossa democracia?

Sei que a grande maioria de nossos amigos, senão todos, são pessoas altamente informadas, vividas e antenadas e que carregam consigo convicções musicais, morais, religiosas e políticas.

Acredito que todos, salvo exceções aqui e acolá, são amantes da liberdade, essa coisa que permitiu ao jazz nascer com muito esforço, frutificar lentamente e manter-se, espalhando pelo mundo a necessidade do improviso, da voz própria, do 'eu quero'.

Sendo assim, creio inapropriado comparar ou insinuar que o governo do PSDB, sob a presidência de FHC, tenha tido qualquer semelhança com a ditadura de direita que assombrou nosso país nas décadas de 1960 e 1970.

Ao contrário: qualquer análise fria e imparcial revelará que os oito anos de governo Lula é que nos remete aos tenebrosos anos de ditadura militar, com seu governo repleto de bandidos, espalhados por todos os setores do serviço público, com seus programas de censura e com seus amigos ditadores.

Não é à toa que Collor e Sarney estão com Lula.

Grande abraço a todos, JL.

pituco disse...

master lester,

chucho valdés e michel camilo apresentaram-se juntos, poracá, esse ano...infelizmente, não pude assisti-los...ainda bem que temos o jazzseen...post bacanudo e sonzaço na radiola...obrigado

abraçsonoros
ps.colocar a música, arte, a favor dos direitos humanos e coisa e tal...sim...contra governos, políticos...não.

APÓSTOLO disse...

Prezado JOHN LESTER:

Pelo que postou e considerando que alguns músicos não foram à terra do assassino fidelito por convicções políticas, concluo que o grande MARSALIS não falou em Cuba sobre política e, portanto, escapou do "paredón" e retornou vivo aos U.S.A.
Menos mal.....

Nursilitart disse...

OIiiii
tudo bem ????

bjosss

Sergio disse...

Caro mr. dom Lester, como não sou nada Marsalis, agora é a minha vez de convidá-lo a dar um pulo um pulinho um instantinho no meu bar. Acho a história tá valendo a visita..

Abraços.

John Lester disse...

Mestre Apóstolo, bom saber que não idolátras bandidos. Sinto-me bem ao lado de pessoas que sabem identificar o mal, venha ele da esquerda, venha da direita.

Seja bem-vinda ao nosso blog Miss Nursilitart.

Logo, logo estarei por aí Mr. Sônico.

Grande abraço a todos que frequentam esse bloguinho. Bloguinho que nem sequer chegou ao segundo turno do TOPBLOGS!

JL.

APÓSTOLO disse...

Prezado JOHN LESTER:

De direita ou de esquerda, assassinos, ladrões, sequestradores, pedófilos, mentirosos, assaltantes, corruptos e outros CRIMINOSOS assemelhados, sempre me provocaram repulsa e engulho. Sempre que alguem ou um grupo fala em defender a democracia praticando esses CRIMES, fico sabendo que não são democradas mas simples OPORTUNISTAS.
Quando vejo jovens e não tão jovens usando bonés, camisetas e adesivos com efígies de fidelitos e guevaritas, imagino que sofreram violenta e continuada lavagem cerebral ou, pior, nem cérebro possuem.
Pobres coitados que por ignorância histórica (ou cumplicidade ou morbidez mental) incensam assassinos.
Cuba livrou-se da corrupção escancarada de Fulgêncio Batista para cair na desgraça da ditadura do tal fidelito, assassino por crime continuado contra a humanidade.
Decorridas tantas décadas, sigo sem entender como o povo cubano e os "adoradores" do ridículo fidelito ainda acreditam, ou querem que seres humanos pensantes acreditem, que as mazelas sofridas pelo povo cubano devem-se ao "embargo" americano (ah! esses americanos, sempre culpados de tudo, desculpando as culpas dos outros).
Uma ilha que se inscrevia entre os maiores produtores de açucar, de café, de frutas, de cacau e sempre foi a primeira na produção de fumo e seus caros derivados, assim como foi criadora e exportadora de MÚSICA e importadora de turismo, em nada dependeria de embargos e não embargos americanos ou de quaisquer outros, caso não vivesse subjugada pela ditaduta fratricida de um castrismo incompetente.
Enquanto isso o tal do ridículo fidelito segue esbanjando poder pessoal, mordomias e culpando terceiros pela pobreza que criou e segue criando para o povo cubano; e tolos acreditam e fazem coro com chiquitos buarques e outros parvos, que lá não querem viver.

John Lester disse...

Mestre Apóstolo,

Nem sei o que dizer diante de suas palavras.

Não que eu seja um idólotra dos EUA; não que eu seja um inimigo de Cuba. Nada disso.

Reconheço, até onde li e estudei sobre Che - e veja que li e estudei muito sobre ele - virtudes notáveis, sinceridade, coragem e determinação. Infelizmente o 'sonho socialista' não deu certo. Nem na teoria, nem na prática. Nem em Cuba, nem na URSS, nem em lugar algum. Talvez porque os homens ainda não estejam preparados para sonho tão grande.

O resultado inegável e positivo da luta entre o capitalismo e socialismo, da guerra fria, dos muros, das torturas e assassinatos cometidos por ambos os lados, é que o socialismo não foi capaz de gerar riqueza e tecnologia de forma tão eficaz quanto o capitalismo. As grandes nações socialistas renderam-se ao modelo capitalista para sobreviverem.

A segunda grande lição retirada desse processo foi que descobrimos que tanto capitalistas quanto socialistas podem ser assassinos (Stalin, na verdade, foi um dos maiores genocidas da História), corruptos, manipuladores, populistas, belicistas, poluidores, demagogos, fisiologistas e torturadores.

Nossa tarefa, como simples eleitores, é identificá-los por seus atos e palavras. Daí a importância fundamental de uma imprensa livra.

É claro, eu concordo que houve muitos integrantes sinceros no PT, homens com histórico democrático de luta pela liberdade. E, também é claro, a maioria deles já abandonou o PT há muito tempo. Não aceitam conviver com ratos.

Quanto ao PSDB, concordo que não seja o partido dos meus sonhos. Mas certamente é um partido que oferece uma alternativa (Mr. Serra)infinitamente superior à ex-terrorista. E superior em todos os sentidos: acadêmico, político e moral. Claro que minha avalição não se baseia na capacidade de dar tiros, matar e assaltar, mas na capacidade de estudar, vencer eleições no voto e alterar os rumos de um país através do jogo democrático.

Já está na hora de pessoas de bem colocarem terroristas, sejam de esquerda, sejam de direita, na cadeia.

Grande abraço, JL.

Carioca da Vila disse...

É verdade...

Don Oleari disse...

Certamente, melhor Marsalis & Banda terem tocado do que falado.
Melhor mesmo é ser comunista rico de Ipanema e adjacências, pedir democracia aqui e aplaudir cinquenta anos de Fidel em Cuba, aplaudir as relações do Brasil Varonil com ditadores corruptos e sanguinários da Mama África...Ahmadimijá...