18/03/2009

Elas também tocam jazz - Tânia Maria

Em nenhuma das duas edições da Enciclopédia da Música Brasileira, editada pelo amigo Marcos Antônio Marcondes, há menção ao músico André Tandeta, excepcional baterista, figura constantemente presente às melhores apresentações instrumentais do Rio de Janeiro desde 1976. Afinal, quem já acompanhou com desenvoltura Maria Bethânia e Wilson das Neves, quem já gravou discos e trilhas sonoras para a TV, quem já integrou o conjunto A Tampa ao lado de João Rebouças (key), Luizão Maia (b), Zé Luís de Oliveira (sax) e Victor Biglione (g), mereceria constar de nossas enciclopédias ainda em vida. E é o que ocorre com o bem nutrido Dicionário Houaiss Ilustrado da Música Popular Brasileira, criado e supervisionado pelo também amigo Ricardo Cravo Albin, tipo humano que demandaria uma ou duas resenhas longas para resumir-lhe os méritos e feitos. Mas não viemos aqui para isso. Viemos aqui hoje apenas para assinar o armistício face à fragorosa derrota em nossa luta pelo jazz exclusivamente instrumental, tentativa vã de apagar da história do jazz as lamentáveis intervenções vocais que permeiam a quase perfeita caminhada desse estilo musical ímpar. Vencido, permito-me apenas denunciar a absoluta e imperdoável ausência, tanto na Enciclopédia da Música Brasileira quanto no Dicionário Houaiss Ilustrado da Música Popular Brasileira da pianista e cantora Tânia Maria, nascida num estado brasileiro em que o trabalho escravo ainda persiste incólume. É no segundo dos três escorreitos volumes do Grove Dictionary of Jazz, de Barry Kernfeld, que descobrimos que a menina começou a estudar piano aos sete anos e, após gravar cinco álbuns durante sua adolescência, parte rumo a Paris em 1974, onde trabalha em clubes e grava para selos franceses e alemães. Com sua apresentação no Newport Jazz Festival de 1975, chama a atenção do público norte-americano, que a acolhe em New York em 1981. O álbum de maior sucesso comercial da célebre gravadora Concord é obra sua: Come with me, gravado em 1982. Livre de preconceitos, como toda mulher inteligente que conhece a caatinga, soube integrar sua competência técnica, bastante influenciada por Oscar Peterson e Nat King Cole, com a popularidade fácil, ora circulando ao redor do mais puro jazz, ora em torno do pop. Infelizmente, quase sempre insiste em cantarolar em seus discos, o que nos distrai muito durante a audição e tornando quase efêmera uma obra que merece todo nosso respeito. Contudo, quando ataca com seu scat sing em uníssono com o piano, Tânia demonstra não apenas o domínio perfeito do instrumento, mas, acima de tudo, sua feliz e fértil inventividade musical. Por isso é que deixo a faixa Para Chick , constante do álbum Brazil with my soul, gravado em 1976 e citado erroneamente em alguns almanaques como seu álbum de estréia. Prestem atenção na voz da menina. E mais ainda em seus dedos.

18 comentários:

edú disse...

Da escola q Shirley Horn foi magnífica reitora – cantora e pianista q própria se acompanha no jazz – Tânia Maria é primeira aluna de turma.A menina é um assombro.

John Lester disse...

Breve Edù, note, então, quando ela cala. Perfeita.

Grande abraço, JL.

edú disse...

JL,
também acho irresistível nela quando associa : o scat( q nenhuma cantora brasileira faz melhor) com o swing do piano.Abraço.

bia disse...

delicia...

Andre Tandeta disse...

Mr. Lester,
meu irmão caçula Edú é testemunha que eu pretendia dar umas ferias a voces daqui do Jazzseen. No entanto não posso deixar de agradecer suas palavras tão gentis em relação a minha ,digamos assim,carreira profissional.Essa tal carreira ,iniciada no longiqui ano de 1976,seria mais uma estrada cheia de curvas e com coberturas variadas,as vezes asfalto, as vezes terra e por vezes lama,pedregulhos caindo da ribanceira o tempo todo. Mas ca estamos ,mais vivos do que nunca.
Ricardo Cravo Albin dispensa apresentações .é um dos maiores batalhdores da cultura musical brasileira. Acho que seria muito bom o Jazzseen ter uma ,ou duas,resenhas sobre ele e seus trabalhos importantissimos para a cultura brasileira.
Quanto ao jazz cantado me ombreio ao senhor:tambem não sou muito chegado.Ella ,Sahra,Billie e algumas outras poucas em doses homeopaticas. Nada contra prefiro os instrumentos.
Obrigado pela deferencia ,Mr Lester,
Abraço

Hector Aguilera S. disse...

Felcitaciones por tu blog, es muy interesante, respecto a Tania María, me encanta como pianista de jazz, y tengo varias grabaciones de ella y las disfruto escuchándolas,
Saludos cordiales,
Héctor Aguilera S.
www.musicadejazz.blogspot.com

John Lester disse...

Prezado Hector, obrigado por sua visita e pelas manifestações de apreço pelo trabalho de nossa equipa.

Um grande abraço, JL.

Vinyl disse...

Conheço o som da menina. Ela tem uma batida percussiva e com muito swing. Valeu a lembrança.

Vagner Pitta disse...

...um trabalho interessante a não perder é o duo da Tânia com o legendário contrabaixista NHOP: trata-se do disco Tânia Maria In Copenhagen (1979)

Tania é isso aí: cantora multifacetada e excelente em todas suas abordagens ao mesmo tempo, uma raridade de cantora!

Valeu! Abraços!

edú disse...

Aproveitando a menção no texto do grande , em todos os sentidos, contrabaixista Luizão Maia, agradeço o envio por parte de seu filho Zé Luiz Maia - extensivo ao meu “mano mais velho” , Tandeta - do cd produzido pelo jovem em homenagem ao saudoso pai intitulado “Tal Pai” (selo Delira Música) para a equipe do Jazzseen.Em ocasião oportuna teceremos algumas considerações sobre esse respeitável trabalho.

Salsa disse...

Olas,
passei para dizer que estou com um novo blog: http://meusdiscosderock.blogspot.com. Aguardo a visita.

John Lester disse...

Esse é o Salsa, o único intelectual vivo que ainda utiliza galochas. Quando o conheci, num congresso em Salamanca, ainda defendia a desacreditada tese de que o zero é o pilar da civilização ocidental. Em nosso primeiro encontro, achava que eu era ele e somente após várias garrafas de Tempranillo percebeu o equívoco, concordando em ir para casa com sua esposa, suspirando aliviado com a perspectiva de declarar todo seu amor sem remorso ou culpa. Mulher de amigo meu é homem, gritou o genial artista antes de roubar minhas galochas e sair correndo na chuva. Somente algumas semanas depois foi encontrado numa praça em Lisboa, lendo Ulysses em voz alta para seus pacientes. Ao me reconhecer, entregou-me seu relógio e haveres, pedindo desculpas sinceras e, ato contínuo, tentou enfiar-se em meu terno. Nunca mais o vi. Sei apenas que abriu uma tinturaria em Macau, especializada em fraldas. Grande homem, grande artista.

Salsa disse...

Então era você que era eu? Cáspite! Terei que começar tudo de novo...

Marília disse...

Fala sério!!! Hilário!

douglas disse...

Mas isso aqui é blog de jazz ou de mpb??? Que Tania Maria o que!!!

Daniel Nakamura disse...

Tânia Maria realmente é um assombro improvisando.
Tive o privilégio de vê-la tocar no Sesc Pompéia, há alguns anos, e realmente, o nível é alto ! Se eu não me engano, fazia uns 25 anos que ela não tocava por aqui.
O show teve participação do Ed Motta, que é fã declarado da pianista, cantando "Cry Me a River". De chorar mesmo.
Bom, quanto ao reconhecimento, eu acho que ela está no lugar certo. Aqui no Brasil ela jamais teria o reconhecimento que tem lá fora.
Douglas, escute o som que o Lester gentilmente postou aí, no final da coluna. Que comentário infeliz...tss, tss.

figbatera disse...

Eu sou fã da Tânia Maria desde criancinha...

coimbra disse...

Essa eu conheço e assino embaixo.É q nem homem, desculpem-me, q nem mulher grande.