17/04/2011

Elas também tocam jazz - Lauren Sevian

Certos gênios do jazz parecem inclassificáveis, isto é, dificilmente podem ser alocados pacificamente em algum estilo. Veja, por exemplo, o caso do pianista Thelonious Monk. Embora todos os estudiosos e críticos teimem em colocá-lo entre os inventores do Bebop, não há como identificá-lo com a música de Charlie Parker e Dizzy Gillespie, estes sim os verdadeiros criadores do estilo mais veloz e alucinante do jazz. Outros casos semelhantes seriam os de Lester Young, Miles Davis, John Coltrane, Lennie Tristano e Charles Mingus, este último o responsável pelo jazz mais louco que já tive oportunidade de ouvir. Quando digo "louco" quero dizer instigante, complexo, libertador e esmagadoramente bonito em sua diversidade. Embora não seja citado uma única vez nas 572 páginas do excelente livro The Birth of Bebop, de Scott DeVeaux, em 1947 Mingus já estava fazendo bebop com a turma da costa oeste. Ou seja, se ele não estava presente no momento do parto, certamente ajudou a cortar o cordão umbilical desse estilo que nasceu em New York, entre 1944 e 1945. São desse período dois lamentáveis incidentes ocorridos com Miles Davis: talvez porque fornecesse heroína para Charlie Parker, ninguém entende como Miles conseguiu convencer Parker a colocar Dizzy Gillespie no piano nas gravações realizadas para a Savoy, em novembro de 1945. Nas canções mais lentas, Miles consegue tocar alguma coisa mas, quando chega a vez da rápida Cherokee, Miles é obrigado a sair de fininho e entregar o trompete a Gillespie, este sim um mestre absoluto do instrumento. Talvez envergonhado, Miles escapole para Hollywood, onde levará outra surra homérica atuando como sideman de Charles Mingus, um virtuose do contrabaixo e exímio pianista.

Sempre atento às raízes do jazz, com especial apreço pelo blues, Mingus inicia sua atribulada carreira de forma humilde, tocando com a turma da velha guarda, entre eles Kid Ory, Barney Bigard e Louis Armstrong. Em seguida, trabalha algum tempo com bandas de rhythm & blues, grava como líder em diversos estilos sob o nome de Baron von Mingus (é aqui que aplica as sovas em Miles), até que retorna à condição de sideman, atuando com músicos como Lionel Hampton, Red Norvo, Tal Farlow, Billy Taylor, Stan Getz, Art Tatum, Charlie Parker, Dizzy Gillespie, Bud Powell, Max Roach e Duke Ellington, este último sua primeira inspiração e mais permanente influência.

Em 1956, ano em que grava o álbum Pithecanthropus Erectus, para a Atlantic, Mingus já não é apenas um dos melhores contrabaixistas do jazz: agora é reconhecido como grande líder e compositor. Daí em diante, produzirá algumas das gravações mais importantes da história do jazz, até ser acometido por uma doença terrível, a esclerose lateral amiotrófica, que o impede de tocar seu instrumento e o leva à cadeira de rodas até sua morte, em 1979.

A paixão que sua música despertava, e ainda desperta, já era compartilhada por músicos como Eric Dolphy, Jackie McLean, J.R. Monterose, Jimmy Knepper, Roland Kirk, Booker Ervin, John Handy, Dannie Richmond, Jack Walrath, Don Pullen, George Adams e muitos outros instrumentistas que tiveram o privilégio de trabalhar sob seu comando. Tal paixão foi preservada com a criação, logo após sua morte, da banda Mingus Dynasty que, em 1991, foi ampliada e passou a se denominar Mingus Big Band,  agrupamento que ao longo dos anos tem acolhido alguns dos melhores instrumentistas de jazz da atualidade, todos dispostos a manter viva a música do mestre.

Sob a direção artística de Sue Mingus, a banda formada por 14 integrantes tem celebrado a música de Mingus semanalmente em clubes de New York, desde 1991, e atualmente apresenta-se no Jazz Standard. Além de excursionar por todo os EUA, já gravou 10 discos, 7 dos quais indicados ao Grammy. A seguir, os atuais componentes da banda:


Trompetistas: Randy Brecker, Earl Gardner, Alex Sipiagin, Lew Soloff, Tatum Greenblatt, Ryan Kisor, Kenny Rampton, Jack Walrath, Sean Jones;
Trombonistas: Conrad Herwig, Andy Hunter, Ku-umba Frank Lacy, Earl McIntyre, Dave Taylor, Robin Eubanks, Joe Fiedler, Clark Gayton;
Saxofonistas: Vincent Herring, Seamus Blake, Abraham Burton, Wayne Escoffery, Donny McCaslin, Mark Gross, Craig Handy, Scott Robinson, Jason Marshall, Lauren Sevian, Jaleel Shaw, Steve Slagle, Ronnie Cuber, David Lee Jones;
Pianistas: Orrin Evans, David Kikoski, Helen Sung, George Colligan, Kenny Drew Jr.;
Contrabaixistas: Boris Kozlov, Hans Glawischnig, Andy McKee, Joe Martin, Ugonna Okegwo, Dwayne Burno e
Bateristas: Donald Edwards, Gene Jackson, Victor Lewis, Jeff "Tain" Watts, Adam Cruz.

O leitor mais atento certamente encontrará na lista acima a saxofonista barítono Lauren Sevian, cuja idade não é revelada em seu site nem em qualquer outra fonte a que tive acesso. Sabemos apenas que é loura, tem olhos azuis e gosta dos saxofones Buffet-Crampon e das palhetas Rico. Além disso, começa a trabalhar profissionalmente aos 12 anos, primeiro como pianista, depois saxofonista. Aos 16, vence a competição Count Basie Invitational. Aos 17, já havia se apresentado em casas consagradas, entre elas Carnegie Hall, Lincoln Center e Village Vanguard.

Em 1997, Lauren parte para New York, ingressando na prestigiada Manhattan School of Music, onde tem a oportunidade de estudar com Mark Turner, Donny McCaslin, Steve Slagle, Joe Temperley e Mike Abene. Além de integrar a Mingus Big Band, Lauren mantém dois quartetos: o LSQ (sax, piano, baixo e bateria) e o Eb Quartet (sax barítono, sax alto, baixo e bateria), com os quais tem se apresentado regularmente em clubes como Kitano, Smoke, Jazz Gallery e Fat Cat. Lauren atua também em diversas outras bandas e colabora com uma infinidade de outros músicos, como Travis Sullivan's Bjorkestra, Todd Londagin Big Band, Rachel Z, Oliver Lake’s Big Band, Harlem Renaissance Orchestra, Benny Goodman Tribute Orchestra, Steve Slagle's Sax Quartet, Blue #9 e muitos outros.

Para os amigos, além da foto abaixo, deixo as faixas Not So Softly, do seu álbum Blueprint, gravado em 2008 para o selo Inner Circle, e Birdcalls, do álbum Mingus Big Band Live at Jazz Standard, gravado em 2010. Notem que o pequeno escorregão da moça no primeiro solo de Birdcalls não lhe retira os méritos nem lhe impedirá de tornar-se uma grande solista em breve. 
     

14 comentários:

thiago disse...

sonoridade deliciosa

Naura Telles disse...

Não 'vi' escorregão nenhum John.

olmiro muller disse...

Para tocar sax barítono é necessário ter dedos longos, para compensar a distância entre as chaves.
Mãos grandes, pelo menos, a moça têm. De qualquer maneira, porém, ela consegue manter o timbre do instrumento. Com o passar do tempo, vai adquirindo experiência.
Conseguirá ser uma Gerry Mulligan de saias?

Érico Cordeiro disse...

Mr. John Lester,
Muito bom o som da moça!
Ela realmente tem uma sonoridade bastante convincente e fazer essas "estripolias" no sax barítono não é prá qualquer um.
Vai prá listinha!
PS.: Mandei um e-mail - você viu?

PREDADOR.- disse...

Como disse mr.Olmiro: "conseguirá ser uma Gerry Mulligan de saias?"
Estou pagando p'ra ver(ouvir)

Peçanha disse...

É fácil observar pela foto que a menina nem sabe segurar o instrumento adequadamente. Duvido que seja ela nos solos apresentados.

Grijó disse...

Mingus, Mingus, Mingus.
Mais que contrabaixista e pianista, é possível que tenha sido um dos 3 melhores orquestradores do jazz.

A mocinha té toca legal.

Abraço

FG

apostolojazz disse...

A resenha é uma viagem, e das boas.
A solista, à qual fui agora apresentado, é muito boa (2X).

John Lester disse...

Pois é, Mr. Grijó, de todas as facetas do mestre, ainda destaco e saúdo seu lado compositor.

Boa não, Mestre Apóstolo, formidável!

Grande abraço, JL.

Sergio disse...

Nossa, que saxofonão!...

John Lester disse...

Grande Mestre Sônico, obrigado pela visita, sempre oportuna.

JL

Sergio disse...

Mister Lester, uma gata sexy dessas, soprando um saxão desse tamanho... mas é calaro q já saí em campo, né? Ainda não esgotei as possibilidades, mas até onde fui, é praticamente impossível encontrar “Blueprint” ou qualquer coisa onde Lauren Sevian participe e apareça de verdade. Porram, dentre as 'coisas' que ela participa acabo de encontrar um disco de outra gata não tão sax, isto é, não com tanto sax appeal, q já estou ouvindo e é bem bom: “Under the Hat” da sax-tenorista Ada Rovatti.

Explicando melhor: o disco “For Rent” (2003), de Ada Rovatti, em que Lauren Sevian está nos créditos, não rolou. Mas tou ouvindo este “Under the Hat”, tbm de 2003 - com Randy Brecker e Mike Stern e outros menos conhecidos – q foi uma grata surpresa. Indico-o-o sem restrições. Ada manda bem.

John Lester disse...

Boa dica Mr. Sônico, como sempre.

Agora preciso ir ao Jazzigo, fazer uma visita ao amigo Salsa.

Grande abraço, JL.

figbatera disse...

Gostei muito!
A resenha está ótima (como sempre) e o som é bom demais...
A moça é bonita e manda muito bem!