16/01/2011

Lenda Viva: Clark Terry

 Quanta responsabilidade escrever sobre um dos maiores trompetistas do jazz, verdadeiro mestre do instrumento, capaz de navegar tranquilamente pelos rios mais caudalosos do Swing e sobreviver tenazmente às enchentes e avalanches mais violentas do Bebop. Nascido em St. Louis, Missouri, no dia 14 de dezembro de 1920,  Clark Terry ganhou experiência tocando em bandas locais, aprimorando sua técnica durante o serviço militar. Nos primeiros anos de estudos, opta pelas partituras para clarinete que, segundo ele, forneciam uma sonoridade mais fluida e redonda ao seu trompete. Após dar baixa da Marinha, passa algum tempo na banda de Charlie Barnet para, em seguida, integrar a orquestra de Count Basie por três anos, até 1951. No mesmo ano, ingressa na orquestra de Duke Ellington, onde permanece por oito anos. Em 1959, em New York, Terry torna-se um dos primeiros músicos negros de estúdio, participando regularmente de uma série formidável de gravações. Paralelamente, atua durante vários anos ao lado de Doc Severinsen, apresentando-se no popular  Tonight Show, de Johnny Carson. Como se não bastasse, Terry manteve-se permanentemente ligado aos grandes músicos de jazz, apresentando-se em clubes e participando de gravações ao lado de instrumentistas como Milt Jackson, Cecil Payne, J. J. Johnson, Johnny Griffin, Stan Getz, Bob Brookmeyer e muitos outros. Não foram poucos os grandes jazzmen que integraram a Big B-A-D Band, liderada por Terry.

No início da década de 1970, convidado por Norman Granz, Terry passa a fazer parte do famoso JATP - Jazz At The Philharmonic, gravando abundantemente para o selo Pablo. É  também nesse período que inicia a tocar flügelhorn, instrumento que adotaria com bastante frequência em estúdio e apresentações. Nos vinte anos seguintes, participa de uma série de concertos e festivais por todo o mundo, seja como líder ou como um humilde sideman. Dotado de uma técnica incomum, capaz de trafegar com destreza pelos estilos Swing, Bebop e Hard Bop, Terry nunca perdeu a emoção, profundamente enraizada no sentimento de blues que lhe percorria as veias e artérias. Além disso, todo o seu contagiante senso de humor podia ser captado em suas interpretações vocais, algumas delas dotadas de um scat muito peculiar, sem falar nos duetos consigo mesmo, mediante a utilização impressionante do trompete e do flëglehorn em diálogos que nunca descambavam para o virtuosismo gratuito. Para os amigos, fica a faixa Trumpet Mouthpiece Blues e uma modesta recomendação discográfica:

Clark Terry - 1954/1955 - Verve 314 537 754-2 - Embora tenha gravado algumas faixas lançadas em V-Disc no final da década de 1940, este é considerado o primeiro álbum de Terry como líder. Lançado em CD pela Verve, apresenta duas sessões. A primeira (quatro últimas faixas), gravada em 1954,  conta com a presença de Norma Carson (t) Urbie Green (tb), Lucky Thompson (ts), Corky Hale (harp) , Terry Pollard (vib), Horace Silver, Beryl Booker (p), Tal Farlow, Mary Osborne (g), Oscar Pettiford , Bonnie Wetzel , Percy Heath (b) e Kenny Clarke, Elaine Leighton (d). Na segunda sessão (demais faixas), gravada em 1955, Terry conta com o apoio de Jimmy Cleveland (tb), Cecil Payne (bs), Horace Silver (p), Wendell Marshall, Oscar Pettiford (b, cello), Art Blakey (d) e Quincy Jones (arr). Curioso que, na época dessas gravações recheadas de Bebop, Terry trabalhava na banda de Ellington, após um importante período com Basie, dois importantes signatários do Swing. Excelente álbum.

In Orbit - 1958 - Riverside OJCCD-302-2 - Outro excelente álbum, contando com a rara presença do pianista Thelonious Monk como sideman. Completam o quarteto Sam Jones (b) e Philly Joe Jones (d).

Color Changes - 1960 - Candid CCD-79009 - Considerado por muitos críticos como seu melhor álbum, Terry apresenta com seu octeto sete composições inéditas, quatro delas de sua autoria. Os arranjos ficam por conta de Yusef Lateef, Budd Johnson e and Al Cohn. Com ele estão Jimmy Knepper (tb),  Julius Watkins (frhn), Yusef Lateef (ts, f, oboé), Seldon Powell (ts, f),  Tommy Flanagan (p),  Joe Benjamin (b)  e Ed Shaughnessy (d).

Tread Ye Lightly - 1964 - Cameo C 1071 - Dentre os excelentes álbuns gravados na década de 1960, neste Terry comparece em sua melhor forma, particularmente nas baladas Georgia on My Mind, e Misty. Com ele os competentes Seldon Powell (ts, bs, f), Buddy Lucas (harm, ts),  Major Holley (b) e um tal de Homer Fields no piano que, na verdade, é Ray Bryant. Quem cantarola em algumas faixas é Major Holley.

Live At Montmartre - 1975 - Storyville 8358 - Gravado em junho de 1975, este concerto gravado em Copenhagen somente veio a público em 2003. Acompanhado pelo antigo companheiro da banda de Count Basie, Ernie Wilkins, Terry executa excelentes solos com o flugelhorn e com o trompete. Além da  seção rítmica impecável, formada por Horace Parlan (p), Mads Vinding (b) e Bjarne Rostvold (d),  Terry srecebe ainda a visita de Dexter Gordon nos vocais. Recomendo.  

To Duke And Basie - 1986 - Enja 5011 - Após um excelente dueto gravado com Oscar Peterson em 1975, Terry dessa vez conta com a colaboração perfeita do contrabaixista Red Mitchell, interpretando clássicos associados a dois gênios do Swing: Count Basie e Duke Ellington. 

What A Wonderful World: To Louis And Duke - 1993 - Red Baron 53750 - Aos setenta e dois anos de idade, e em plena forma, Terry presta uma emocionante homenagem a duas personalidades únicas do jazz, Armstrong e Ellington. A enchurrada de swing é auxiliada pela presença de Al Grey (tb), Dado Moroni (p), Lesa Terry (vln), Ron Carter (b) e Lewis Nash (d).

Herr Ober: Live at Birdland Neuburg - 2000 - Nagel Heyer 68 - Gravado ao vivo na Alemanha, este é apenas um dos excelentes álbuns que Terry gravou na década de 2000. Em impressionate forma para os seus 79 anos, Terry executa uma série de clássicos do Swing e demonstra que seu scat murmurado mantém-se intacto. Com Dave Glasser (as), Don Friedman (p), Marcus McLaurine (b) e Sylvia Cuenca (d).

   

13 comentários:

Internauta Véia disse...

ADOREI!
ESPETACULAR!

TANKS!

thiago disse...

bizarro

Salsa disse...

belo blues, lester. Valeu!

Carioca da Vila disse...

Que beleza, Mr. Lester!

Érico Cordeiro disse...

Mr. John Lester,
Clark Terry já foi chamado de "o som mais alegre do jazz".
Publiquei uma resenha sobre ele no jazzbarzinho, abordando o álbum "In Orbit", onde o piano é tocado por ninguém menos que Thelonious Monk, em uma rara participação como sideman.
O post está em: http://ericocordeiro.blogspot.com/search/label/Clark%20Terry
Ali também se pode ver algumas fotos com o pessoal da TJB e com o querido Mestre Apóstolo.
Um dos maiorais, um verdadeiro bamba!
Abração e cuidado com as onças :-)

PREDADOR.- disse...

Após perder tempo com trumpetistas de quinta linha, como Lina Allemano,voltar a falar e resenhar sôbre músicos de primeira linha é outra categoria. Agora sim mr.Lester, você recobrou o juízo e retorna ao jazz com Clark Terry, apresentando um álbum muito bom, se não me engano, gravado em 1957, reunindo Paul Gonsalves, Mike Simpson, Willie Jones, Remo Biondi, Jimmy Woods e Sam Woodyard. Parabéns e desculpe ter antecipado alguns dados do disco. Boa estada em Manaus.

pituco disse...

master lester,

blues performático...bom pacas...rs

abraçsons

John Lester disse...

Prezados amigos, claro que a faixa exposta possui caráter meramente emblemático, ofertando breves aspectos do domínio técnico do mestre, a serviço do apurado senso de humor ressaltado por Mestre Cordeiro.

Faz pensar se a unânimidade é, de fato, burra. Terry talvez seja uma das exceções à regra de Nelson.

Grande abraço a todos, JL.

Coloda disse...

É mesmo...!

MaJor disse...

John, Clark Terry para mim figura entre os melhores trompetistas. Sempre de uma elegância ao tocar, um suingue maravilhoso. Gosto muito de seus trabalhos. No blog do CJUB em dezembro postamos uma homenagem aos seus 90 anos, "bem tocados".
Um abraço
Mario Jorge

Anônimo disse...

Muito bom...

APÓSTOLO disse...

Tudo de "blues" com o mestre da emoção e da respiração circular.
Contrariando Nelson Rodrigues, esse é o caso da unanimidade inteligente.

APÓSTOLO disse...

Em tempo, se é que o há = e põe humor nisso.