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09/03/2011

Samba também é jazz - Lula Galvão

Foi grande a confusão quando Chico Brahma chegou ao Clube das Terças afirmando que, finalmente, conseguira destilar uma excepcional tequila em seu quintal. Sim, com a garrafa em punho, ele passaria a narrar toda sua grande aventura a um público boquiaberto e atento. Embora de origem polonesa, mais afeita à destilação da vodka a partir de batatas ou beterrabas, Chico ouvira falar que mais à direita, na Rússia, as melhores vodkas eram produzidas a partir do centeio, com eventuais adições de trigo, aveia ou cevada. "Mas o importante é a qualidade da água", advertiu Fernando Achiamé, lembrando que a presença de metais pesados é que causam dor de cabeça. Considerando que o quintal de Chico fica localizado na Praia do Canto, em Vitória, o terroir desaconselhava a plantação de grãos, daí Chico também ter desistido da produção do uísque a partir da cevada ou do milho,  voltando todos os seus esforços para a produção de grappa e conhaque, dois famosos destilados obtidos a partir do vinho. Conforme John Lester havia advertido, a excessiva umidade gerada pelo microclima capixaba, aliada ao fato da pequena exposição solar em seu quintal, resultou no aparecimento de fungos e pragas nefastas, dando fim a suas  três belas videiras de touriga nacional, cepa clássica de Portugal.  Inconformado, aquele homem de bochechas rosadas e pés ligeiros passa  um breve período tentando produzir sidra a partir das belas maçãs e pêras colhidas em seu florido quintal. Seguindo as orientações da família Bockmann, de Campos do Jordão, Chico passa a destilar um excelente calvado (brandy) a partir da sidra, utilizando a técnica que John Lester havia introduzido em New Orleans, onde produzira excelentes applejacks. Infelizmente, contando com apenas uma macieira e uma pereira, a produção anual não chegava a duas doses, fato que o levou a abandonar o projeto.

Rejeitando mais uma vez os conselhos de John Lester, Chico põe na cabeça que obterá gim e steinheger, bi-destilados obtidos a partir do mosto de bagas de zimbro, arbusto que ele mantinha com orgulho em seu diversificado e bem cuidado quintal. Esquecendo-se que a planta é típica do clima temperado do hemisfério norte, observa novo fracasso. Antes que desistisse de produzir seu próprio destilado, Chico aceita o conselho de Lester e passa a trabalhar com mosto de abacaxi, nossa nativa e dulcíssima bromeliácea. A variedade escolhida foi o abacaxi pérola, que além do belo fruto, fornece belas flores. Ainda seguindo a orientação do velho amigo, Chico planta alguns pés de agave que, além de ornamentarem lindamente qualquer espaço, ainda poderiam nos fornecer alguma tequila caso tudo desse certo. E deu! Ao contrário do abacaxi, o agave azul demonstrou grande rendimento em álcool no preparo do mosto fermentado, auxiliando consideravelmente o processo de destilação. Embora detenha alguma semelhança com o abacaxi, a piña retirada do agave azul (foto abaixo) é venenosa e pode alcançar  extraordinários 70kg. Após cozidas em panela de pressão, as piñas eram moídas com o motor do velho Gol 1981, que Chico preservou com muito carinho. Após a fermentação, era só esperar que as altas temperaturas do alambique fornecessem o néctar mexicano.


Emocionado, Chico confessou que muito de sua inspiração era devida ao falecido Lula Galvão, o grande e bigodudo crítico de gastronomia e vinho, responsável por mais de trinta anos de deliciosas matérias publicadas no Estadão. Antes que Chico pudesse terminar sua homenagem ao grande jornalista, João Luiz Mazzi intervém, dizendo que Lula Galvão nunca escreveu em jornal e está vivinho da silva! O nome do expert em comes e bebes é Saul Galvão, este sim falecido em 2009. Já Lula Galvão é um dos melhores guitarristas brasileiros em atividade. Aproveitando o clima carnavalesco, Pedro Nunes trouxe à baila a impressionate retirada de cabeças dos integrantes da Unidos da Tijuca: como eles retiravam as cabeças dos pescoços daquele jeito? Lester respondeu que, infelizmente, ninguém retirou a cabeça de Roberto Carlos, o que certamente o silenciaria para todo o sempre. Sem que mais ninguém à mesa prestasse atenção à tequila, passamos a ouvir o excelente álbum Bossa da Minha Terra, gravado para a Biscoito Fino. Nascido em Brasília, além de guitarrista, Lula é também excelente violonista e arranjador, daí ter trabalhado com artistas como Guinga, Rosa Passos. e Cláudio Roditi. Improvisador nato, começa a tocar violão aos quinze anos, mas somente aos 18 dedica-se seriamente ao instrumento.

Como demonstra ao longo do álbum, Lula domina o idioma do Bebop com fluência pouco usual entre instrumentistas brasileiros. Há também, embora discreta, a nítida influência da música clássica, estilo a que vem se dedicando nos últimos tempos. Amante da exuberante e rica música popular brasileira, Lula reconhece a influência de gente como Victor Assis Brasil, Hermeto Pascoal, Egberto Gismonti, Hélio Delmiro e Hector Costita em sua formação inicial. Irmão do baterista Zequinha Galvão e do contrabaixista e compositor Carlos Galvão, Lula integra o conjunto Pagode Jazz Sardinhas Club, com o qual já lançou dois álbuns. Para os amigos, deixo duas faixas, na companhia de Idriss Boudrioua (saxofone), Fernando Moraes (piano), Sérgio Barrozo (contrabaixo), Rafael Barata (bateria), além das participações especiais de Rosa Passos, Cláudio Roditi, Raul de Souza e Mauricio Einhorn.



19/05/2009

De Alfredo veio Johnny

A mais ambicionada experiência musical em meados dos anos 80 na cidade de São Paulo era concluída a goles de café e a margarina escorrendo pelos dedos proveniente do pão francês saído direto do forno. Eram as visitas matinais de finais de semana promovidas por amigos e conhecidos conduzindo alguns escolhidos fãs ao apartamento de Johnny Alf - localizado, na época, na sobreloja de uma padaria num bairro adjacente na zona central da cidade. Era a repetição da situação (sem pão,nem café) – da procura do público fiel, atento, quase capturado nos olhares e audição - que trinta anos antes reservava assento no bar do Plaza em Copabacana. Tom Jobim, Carlos Lyra,Luiz Eça e um baiano de hábitos estranhos recém chegado de Juazeiro chamado João Gilberto ocupavam lugar na platéia. Nara Leão, Roberto Menescal e o pianista Luis Carlos Vinhas mantinham-se,por medo, próximos a entrada do banheiro para,na even tualidade da presença do juizado de menores, escapulir pra dentro do cubículo.Com suas canções – algumas delas das mais notáveis do século XX do cancioneiro brasileiro. Forma de tocar piano – complexa e sofisticada. Estilo de cantar – aconchegante ,lírico numa balada e desconstruindo a divisão rítmica na voz num tema em bossa - fizeram de Johnny Alf uma espécie de farol da nossa melhor música “tornando sua luz” intima aos caminhos mais modernos que ela poderia trilhar. Nada disso surgiu de forma preconcebida ou elaborada. Alf nasceu Alfredo José da Silva em Vila Isabel , subúrbio do Rio de Janeiro, em 19 de maio de 1929. Filho de cabo do exército e empregada doméstica. Aos três anos de idade ficava órfão de pai e era obrigado a seguir junto à mãe ao trabalho pela ausência de creche ou alguém que “olhasse por ele”. Numa dessas residências ,pelo acaso do destino, rompe a barreira social ,aos oito anos de idade, atravessando o cômodo dos empregados em direção à sala de visitas.No piano que repousava na área o menino encontra sua familiaridade.Por generosidade da família , proprietária da casa,Johnny tem estudos custeados com a professora Geni Borges.Aos 14 anos forma seu primeiro grupo e como bolsista do colégio Pedro II entra em contato com o Instituto Brasil – EUA interessado em saber como se aprende inglês.Fundando,mais tarde, um pequeno núcleo dedicado ao intercâmbio da música brasileira e americana - apoiado pelo instituto - com sessões semanais direcionadas aos estudos das orquestrações,exibições de filmes e audições de concertos de jazz. Membro do Sinatra-Farney Club – fã clube dedicado ao culto de Frank Sinatra e Dick Farney - desde os 11 anos de idade, tem como colegas: João Donato, Paulo Moura e o cineasta Carlos Manga – líder do clã. Dentro das salas de cinema, aliás, Johnny passa grande parte de sua juventude assistindo sessões consecutivas de musicais,desenhos em longa metragem de Walt Disney interessado,especificamente, nas canções e nos arranjos das trilhas sonoras.
Com 23 anos de idade inicia peregrinação tocando piano no circuito das boates cariocas. Já se tornava então de Alfredo à Johnny Alf por sugestão de uma amiga antes de uma apresentação no programa de jazz de Paulo Santos na rádio MEC. Assim surgia o artista brasileiro mais jazzístico de seu tempo sem ter o menor conhecimento do que seria propriamente isso.Em algumas das boates em que trabalhava dividia sessão com outro pianista chamado Newton Mendonça.Parceiro de carreira e de vida curta ,autor de quinze preciosidades eternas com Tom Jobim entre elas: “Meditação”, ”Foi a Noite”, ”Desafinado” e “Caminhos Cruzados”. Newton Mendonça segundo os estudiosos, tinha equivalência em conhecimento musical com Jobim.Não raro, em composições da dupla, Tom ficava encarreg ado do caderno de rascunhos e do dicionário de rimas e Newton com a elaboração das harmonias e desenvolvimento melódico.Desse contato, movido a troca de sugestões, opiniões ,idéias e cigarros filados do maço mais próximo fizeram Johnny colocar para consideração de Newton suas composições como “O que é amar”, ”Céu e mar” e “Rapaz de bem” – considerada a música que precipitou o estilo da Bossa Nova (criada em 1952 quando o movimento formalmente teve inicio em 1958). Não foi a toa que Ronaldo Bôscoli na apresentação de um show de bossa na Faculdade de Arquitetura em 1960 dizia que “Johnny Alf já faz bossa nova há dez anos”.Várias definições foram aplicadas a Johnny.Pai da bossa nova.Dos geniais criadores da música brasileira, o mais desconhecido.Nenhuma definição foi tão precisa quanto aquela que conseguiu retirar a expressão parva das faces de João Gilberto substituindo - a por uma séria.O monossilábic o João disse :“Johnny Alf é o máximo !” numa tarde em Nova Iorque nos anos 90.De carreira de pouco mais de uma dúzia de discos, Johnny nunca perdeu tempo em lamentações.Preferiu dedicar o tempo disponível na doação integral a música. Seguindo fielmente seus instintos.Seja fazendo seu primeiro disco em 1953 de forma apenas instrumental na base do Nat King Cole trio( piano,contrabaixo e guitarra , uma de suas adorações). Como no amor declarado ao jazz. “Musica é som.Gosto de jazz e na minha música isso é o mais forte”. Na comemoração pífia dos cinqüenta anos da Bossa Nova em 2008 não tivemos a presença de Johnny Alf. Deteriorado na saúde e sofrendo constantes sessões de radioterapia não encontrou forças suficientes para uma apresentação pública. Poderíamos ficar tristes com essa situação justo neste mês de maio corrente em que completa seus 80 anos de vida - dia 19. Mas basta recordar as estrofes de “O que é amar”. “Agora eu posso arg umentar/Se perguntarem o que é amar/É só olhar, depois sorrir, depois gostar”. Que um pequeno quinhão de nossa própria felicidade pessoal seja dedicada a ele ao ouvir essa música e letra de sua inspiração. O escritor e jornalista Ruy Castro afirma que “assistir a Johnny Alf numa pequena boate é uma das grandes experiências que podemos ter na música”. Levando a efeito essa frase, deixo aos visitantes o tema “O que é amar” durante uma apresentação no Vinicius Piano Bar no Rio de Janeiro em 1997 com Alf ao piano, Idriss Boudrioua (sax alto), Marcos Souza (contrabaixo acústico) e Carlos Ramón (bateria).

19/08/2006

Brazil Jazzseen apresenta: LORONIX

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Se você pensa que nossos clássicos da MPB estão definitivamente arquivados no limbo do esquecimento, você está muito enganado. Foi bastante agradável descobrir, numa dessas viagens virtuais que varam a madrugada, o blog Loronix (depois clique aqui para visitá-lo). Como diz o próprio Zecalouro, autor do blog, o Loronix se destina basicamente a promover a boa música brasileira rara e esquecida em velhas prateleiras, a maior parte dela fora de comércio. Com excelentes fotos e textos em inglês, as resenhas são claras e acessíveis, além de repletas de boas informações e dicas. Além das postagens, Zecalouro oferece a possibilidade de aquisição on line das gravações que comenta. Recomendo Loronix com entusiasmo.