08/07/2006

Você sabe amar?

O Garibaldi chegou ao Bar do Henriq cantarolando "você sabe o que é ter um amor, meu senhor?" e, sem dar tempo para o próximo verso, emendou outra: "Você não sabe amar, meu bem, nem sabe o que é o amor...nunca sofreu". Antes que iniciasse a terceira, eu interrompi a cantoria: que é isso, camarada? Não sabia de seu interesse pela mpb... Bobagem, esses são nossos standards, disse ele semi-grave. Se eu tocasse, gravaria esses temas. E prosseguiu variando o assunto: Você já reparou como os poetas têm a desfaçatez de dizer que sabem o que é o amor? Corja de mentirosos. Desde que o mundo é mundo tem chovido um festival de conversas fiadas sobre o dito cujo. Até nosso presidente Reinaldo, vez e outra, se presta ao papel de mistificar a relação amorosa. Mas, dentre os mentirosos, eu prefiro o maior de todos: Ovídio. Tenho tudo (em latim, inclusive), e sacou da bolsa o livro Poemas da carne e do exílio e presenteou-me. Isso é puro jazz, disse-me. Pergunte ao Lester a origem da palavra jazz. É pura sacanagem. Amor leve e solto, como aquele apregoado por Eros. Olha só: At nuper bis flaua Chlide, ter candida Pitho / Ter Libas officio continuata meo est; (E há não muito, sem interrupção, dei duas na loura Clide, três na branca Pito e três em Libas). Pode? Haja fôlego! Variando novamente o tema, Garibaldi diz: encontrei uma velha paixão: Gene Ammons. Estava lá, abandonada na estante: a gravação de uma sessão de 1958 com os bam-bam-bans da época (ele fazia isso para a Prestige de vez em quando). Sabe quem está lá tocando sax alto? Antes que eu dissesse que não sabia ele disse: John Coltrane. É curioso ouvi-lo quando ainda não estava completamente insano (Garibaldi não gosta de Coltrane). Quem também estava na sessão era o baritonista Pepper Adams, além do tenorista Paul Quinichette e do flautista Jerome Richardson. A cozinha estava aos cuidados dos chefes Mal Waldron (piano), George Joyner (baixo) e Art Taylor (bateria). Mais do que rápido ele tirou uma cópia do cd de um envelope pardo e disse: ouve e põe uma faixa no seu gramophone. Do jeito que chegou, saiu: cantando (com um risinho no canto da boca): looove for sale...

9 comentários:

Piton disse...

Pra mim Cândida era um bichinho que dá uma coceira desgraçada no Pito...

Vai saber!

Pinto Souto disse...

nâo tinha ouvido nem ovídio. Muito bom, ambos.

Vinícius disse...

como q é essa parada? o cara não gosta do coltrane... é do contra?

bia disse...

Nada como acordar e ouvir o Jazzseen...

Salsa disse...

O Garibaldi não gosta da fase "astral" (é assim que ele fala dos últimos discos de Coltrane).

Vinícius disse...

eu só acho q ele perdeu a mão um pouco depois que acabou o famoso quarteto da impulse, mas isso é o fim do fim.

Om disse...

Coltrane é tão poderoso que até mesmo aqueles que não gostam de sua música sentem-se na obrigação de explicar o porque. Constrangimento? Talvez.

José Firmo disse...

Esse disco é arretado de bom. Vale uma constelação.

bmm disse...

A seleção do Lester no Gramophone está simplesmente maravilhosa. Músicas suaves, que agradam até mesmo aos ouvidos menos entendidos de jazz.

O Blog está ótimo,

Um grande beijo,