02/08/2006

O padre e o saxofonista


Diverti-me duplamente: li uma pequena coletânea de contos Chesterton, com o seu fantástico personagem detetive e padre Brown, e ouvi J. T. Meirelles e Copa Cinco. O escritor inglês conseguiu construir um personagem que a cada passagem destila uma dose de sutil ironia (com aquele gostinho do humor negro britânico) sobre o homem e sua civilização. Este foi-me apresentado pela nossa biblioteca ambulante e presidente do clube das terças, o digníssimo e de barba feita Reinaldo. Já os três discos do Meirelles (O som, Novo som e Samba jazz), eu os ganhei de Acir Vidal (editor do blog contraovento). J. T. Meirelles é um dos heróicos personagens da música instrumental brasileira. Repito aqui o que ouvi de testemunhas sobre a sua postura séria em relação à música e à vida pública (e, como fontes respeitáveis que são, eu não negarei suas palavras): é heróico por conseguir manter alguns princípios básicos e fundamentais em ambas as esferas. Pois bem, quando a “redentora” ditadura militar instalou-se no nosso Brasil varonil, Meirelles deveria (isso é uma suposição) estar no Beco das garrafas, bucólico sítio boêmio do Rio de Janeiro, erguendo barricadas com a sua música. Talvez até estivesse tocando alguns dos temas que ele gravou, à época, no disco O som, um marco na música instrumental brasileira. O samba-jazz executado por Meirelles e Copa Cinco é um totem e um farol: merece reverência e é um guia para as gerações que surgiram depois do seu lançamento (especialmente para aqueles que tiveram contato com essa obra, pois, como sempre, ficou restrito às mãos de uns poucos felizardos que compraram ainda em vinil. É nesse momento que a gente tem que tirar o chapéu para figuras como o jornalista José Domingos Raffaelli, que, de certo modo, ensejou Meirelles a retomar a sua música ao convidá-lo para tocar nuns lances jazzísticos, em 2000, no Rio, fato que propiciou aos filhos da ditadura, eu entre eles, a conhecer a sua musicalidade exemplar). Parênteses fechados, retornemos ao Copa Cinco: o piano de Luis Carlos Vinhas, a bateria do consagrado Dom Um Romão e o baixo de Manuel Gusmão associados aos sopros de Meirelles produziram uma estrutura musical sólida como poucas vezes nós temos oportunidade de encontrar nesse mundinho cão. Deixarei a faixa Blue Bottle’s no Gramophone by Salsa para o seu deleite.

11 comentários:

beto disse...

E os outros dois?

Salsa disse...

São bons, também.

Rogério Coimbra. disse...

Curioso que na época saiu junto o Você Ainda Não Ouviu Nada, com Sergio Mendes e o Bossa Rio, arranjos de Eumir, com Costita, Maciel, Raulzinho, Tião e Edson Machado, outra obra prima. A turma então adolescente discutia qual seria o melhor. A Down Beat comentou os 2 na mesma edição(Pete Weddind, ou semelhante)O Som ganhou 1 estrela e meia e o Bossa Rio três e meia estrelas. Hoje, são ambos 5 estrelas, pelo que representaram.

avaliador de blogs disse...

Meirelles merecia ter gravado mais e melhor. Mas, tá valendo. O blog tem se mostrado esforçado: por isso sua nota passa a ser 6,5.

Salsa disse...

Esse povo toca com meirelles no O novo som

Pedro H. Martins disse...

Olá! Adorei seu blog Salsa. Ótima oportunidade para conhecer mais de jazz. Abraço!

Salsa disse...

Valeu a visita. Depois eu apareço lá no seu sítio.

Salsa disse...

Prezadoi Rogério,não sei se as estrelas são só pelo que representaram. Ouça o disco. à época, talvez fosse complicado avaliar o trabalho do grupo. Hoje, distanciados, podemos perceber a força do trabalho do grupo. Os ianques talvez quisessem preservar o território da inevitável invasão. Tanto que, hoje, chegam a afirmar que o jazz mudou para a europa.

Internauta véia disse...

Bons tempos do Beco das Garrafas, muita gente boa começou ali...Saudade!

Rogério Coimbra. disse...

Salsa, na época a torcida era pelo O Som, por isso a então decepção.Ouvimos ininterruptamente por 40 anos esses sons e, hoje, vc pode perceber que, então, o Bossa Rio era realmente mais maduro e o Copa 5 mais emoção, mais engatinhando. Pôxa, que discussão boba. Ouça Salvador enquanto isso.Ou Zé Bodega. Ou Cipó.Ouça Luiz Americano.

olneyfig disse...

Foi com esses discos que praticamente eu "nasci" para a música; despertaram em mim a vocação e o gosto musical por esse estilo que até hoje venero.