24/09/2006

Deu na Folha: O coelho surfista

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Para aqueles que, como eu, nunca sentiram qualquer atração pelas prostitutas e pelos livros do Paulo Coelho, vale a pena ler a opinião dos especialistas sobre as semelhanças entre os serviços que Bruna Surfistinha e Paulo Coelho prestam à sociedade. Afinal, se há pessoas que sobem de joelhos o Convento da Penha, porque condenar aqueles que se utilizam de outras formas de fé ou prazer? Segue a matéria da Folha de São Paulo:
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Não é só o sucesso de vendas que pode aproximar Bruna Surfistinha de Paulo Coelho.Nos dois casos, temos auto-ajuda, na opinião de Eliane Robert Moraes, professora de estética e literatura da PUC e autora de "Lições de Sade - Ensaios sobre a Imaginação Libertina" (editora Iluminuras)."O livro de Bruna Surfistinha e seus similares não são eróticos, porque a literatura erótica mobiliza a fantasia, o que não ocorre com esses diários das ex-prostitutas. Esses livros são moralistas, não têm nada de transgressão, reafirmam os lugares sociais. O fato de todas deixarem a prostituição segue o modelo da auto-ajuda, de Paulo Coelho, do herói que passa pelas provas e que no final é recompensado", avalia Moraes.Para ela, enquanto Paulo Coelho é a "banalização do misticismo", Surfistinha e cia. são do erotismo. "O misticismo de Paulo Coelho e o erotismo de Surfistinha são "light", perdem o que é mais importante: a capacidade de perturbar lugares sociais, de transcender. Ao contrário, são normalizadores, reafirmam os lugares sociais."O sucesso de vendas dos diários de ex-garotas de programa, avalia, está ligado "à demanda de voyeurismo da sociedade". "E, no fundo, esses livros atendem a uma sociedade que deve estar com sua sexualidade muito reprimida, não obstante o sexo e o erotismo presentes no horário nobre da televisão."Sobre o fascínio despertado por esses livros, o psicanalista Chaim Samuel Katz, membro da Formação Freudiana e doutor em comunicação pela UFRJ, afirma: "A prostituição tem um lado fascinante, sedutor, que é tomar conta e dirigir os desejos dos atos sexuais".Ele acredita haver semelhanças entre a prostituição e o "comércio" de afetos a que muitos estão submetidos hoje em dia: "Talvez possamos tirar algumas ilações se tomarmos o que se chama de "azarações" contemporâneas. São grupos --especialmente de mais jovens-- que se encontram em lugares determinados ("points') e fazem concursos de "quem fica mais". O pagamento é em acréscimo de poder", avalia.Dupla personalidade - Joel Birman, professor do Instituto de Psicologia da UFRJ, avalia que esses diários são utilizados pelas autoras para "matar" o lado da prostituta. "É como se fosse um enterro. A própria escrita deve servir como ritual de purificação. Tem peso simbólico de retomada de sua "verdadeira" condição."Tanto em "O Doce Veneno", de Bruna Surfistinha, como em "O Diário de Marise" e "A Agenda de Virgínia", as autoras se dividem em duas personalidade, com nomes reais e "de guerra". Birmam diz que isso faz parte "do reconhecimento da condição da prostituta na sociedade". "É uma figura muito vilipendiada."

3 comentários:

Salsa disse...

Então, esse é o tal malabarismo (contorcionismo, melhor dizendo) literário? A foto está perfeita.

waldemir disse...

Ler Paulo Coelho é como beijar Bruna Surfistinha.

denian disse...

O problema com o Paulo Coelho é que você nunca chega lá.