01/12/2006

Monk e a voz de Dioniso

Creio que todos devem conhecer alguma canção fácil de assobiar. Aquele tipo de canção que rapidamente impregna a nossa alma e se impõe nos nossos solfejos enquanto dirigimos ou quando estamos sentados no ônibus a caminho do serviço. Também existem aquelas que incomodam nossos ouvidos e faz com que nos levantemos e desliguemos o som. Esse foi o mote inicial da conversa que entabulei com a minha amiga Adélia, uma noite dessas, no boteco Don Oleari, aqui em Vitória. Enfim, tratávamos dos efeitos das leituras estéticas da vida. Tendemos para o simples, constatamos, aquilo que exige maior atenção pode provocar mal-estar. Queremos crer num mundo estável, sem dissonâncias, previsível, sob controle. Algumas canções trazem esse tipo de simplicidade, mas são facilmente esquecidas. Outras, não. Concluímos que a arte sempre pautou por mostrar as falhas de nossas concepções harmônicas (seja na literatura, seja na pintura, seja na música): o mundo é muito mais do que imagina nossa vã filosofia. Independente de qualquer concepção estética, a arte, assim como a vida, nos afeta. A história da arte está cheia de exemplos. Falamos sobre aquela música cerebrina que exige do seu receptor um nível de informação tal que torna necessário a confecção de um manual para esclarecer qual o princípio norteador de sua obra, e acabamos cedendo e até gostando (algumas vezes o manual é mais interessante do que a obra artística propriamente dita: leia o livro, não ouça a música). Há, no entanto, aquela música que nos toca, nos incomoda, nos causa estranheza, mas mesmo assim nos faz assobiar. Em outros casos, não conseguimos assobiá-las, mas elas não saem de nossa cabeça e não é necessário nenhum glossário estético para elucidá-las. Elas simplesmente se apossam de nossas mentes e corpos e conseguem dirigir nossos olhares e ouvidos para ângulos do nosso cotidiano (que passavam despercebidos) e nos nos forçam a repensar uma série de coisas que estavam tranqüilamente estabelecidas como verdades naturais e absolutas. É aquela estória do poeta que nos dá uma palavra que finda por desestabilizar todo o nosso repertório. Eu tive essa impressão quando ouvi pela primeira vez um disco de Monk. Suas composições e seu modo aparentemente tosco de tocar provocam uma fissura na ordem estabelecida e parecem permitir que Dioniso cante: a vida é muito mais, Salsa, muito mais. Ouçamo-lo, pois, no Gramophone by Salsa.

3 comentários:

Garibaldi Magalhães disse...

João Luis Mazzi, meu primo, adora a primeira faixa do gramophone.

Salsa disse...

Não diga o nome. Como disse o poeta Fernando pessoa, o nome, a palavra só serve para nos atrapalhar. Ouça a música de Monk. E ponto final.

John Lester disse...

Mr. Salsa quase conseguiu traduzir Monk em palavras. Quase, porque impossível.