13/01/2007

Desafio Jazzseen - New York Jam Session

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Nada como começar o mês com um desafio. Eu nunca saberei exatamente por qual motivo a mãe biológica do jazz foi New Orleans. O fato é que sua verdadeira mãe é New York: é essa a cidade que acalenta, nutre e mantém o jazz vivo. Talvez New York, como outras cidades do norte, não tenham tratado o negro com a mesma rigidez e brutalidade com que as do sul. Acredito que a profunda tristeza e melancolia dos negros do sul foram os responsáveis pelo nascimento do blues e do spiritual, bem como das remotas work songs, todos elementos vitais para o parto desse ser híbrido. Mas, como dizem, mãe é aquela que cria, que dá carinho, atenção e amor, pouco importando se a prole é bastarda ou legítima. Talvez somente Paris tenha tratado o jazz com semelhante amor e carinho. Mesmo assim, podemos considerá-la madrinha do jazz. Nada além disso. A mãe, não resta dúvida, é New York. Ali o ensino público e gratuito era inaugurado em 1805, a escravidão era abolida já em 1827, o New York Times era lançado em 1851, as pessoas se rebelavam contra o alistamento militar obrigatório em 1863, grandes parques, teatros, museus, projetos de urbanização ao longo de todo o século XIX fizeram de New York uma cidade com mais de 10 milhões de habitantes falando mais de 80 línguas. Já havia até mesmo uma classe média negra, consciente de sua situação inaceitável num país onde a liberdade, palavra de ordem da nação, não tinha a mesma semântica para brancos e negros. Não foram poucos os milhares de negros sulistas que para lá fugiam, dispostos a sonhar o sonho americano. No Harlem de 1924 nasciam negros como o escritor James Baldwin e em 1944 o líder negro Adam Cleyton é eleito para o Congresso. Em 1990 David Dinkins é eleito o primeiro prefeito negro da cidade. Somente um fruto tão viçoso, suculento e cintilante como New York poderia gerar tamanho ódio e inveja suficientes para que alguns doentes explodissem suas duas torres gigantes, fazendo desaparecer seis mil pessoas entre escombros. New York prosseguiu incólume, brilhante, cheia de luz, música e liberdade para sonhar, criar, escrever, falar, tocar sax na rua ou tambores no metrô. Se você caminhar com calma pelas ruas da cidade, poderá perceber cada uma das inúmeras gotas de sangue, suor e esperma que, reunidos, conseguiram vencer todas as terríveis pestes, conter a corrupção avassaladora, amaciar os gangsters, driblar as depressões, aquecer as nevascas, tributar os especuladores, gotas que fizeram de New York uma das cidades mais deliciosas do mundo. E, além de tudo, aquela em que mais podemos ouvir jazz de boa qualidade, preparado e servido na hora. Não seria sincero dizer que conheço a Grande Maçã profundamente. Creio que poucos privilegiados a conhecem até as sementes. O que tenho são apenas leves impressões de um viajante atônito, e um viajante que, talvez por ser míope, sempre ouve mais do que vê. Em minha segunda visita à cidade (se tivesse numerário suficiente iria todo ano) pude reconhecer novos aromas e sabores que pretendo apresentar aos amigos navegantes, em doses semanais de fotos, resenhas e música. Espero demonstrar, mesmo que por redução ao absurdo, que New York tem sido o centro mundial do jazz, essa forma de arte popular que arrebentou as vitrines de cristal da cultura clássica. Ok, você pode objetar toda essa bobagem que escrevi citando New Orleans e Chicago, ou até mesmo Kansas City. E eu concordarei que, excluindo os pianistas de stride, foi somente no final da década de 1920 que New York entra em cena pra valer. Nesse início, o papel do Harlem foi fundamental, com seus inúmeros teatros e clubes: Count Basie no Linconl Theater, Chick Webb no Savoy e Fats Waller pela cidade toda. Na década de 1930 a cidade explode, com Fletcher Henderson, Duke Ellington, Lionel Hampton, Paul Whiteman, Tommy Dorsey, Benny Goodman e tantos outros, como as vocalistas Billie Holiday e Ella Fitzgerald. Na década de 1940 a coisa não se modifica e é ali, também no Harlem, mais precisamente nos bares Minton's (que ainda existe!) e Monroe's que ocorreram as jams entre os músicos Charlie Parker, Dizzy Gillespie, Thelonious Monk e Kenny Clarke, entre outros, que mudariam para sempre os rumos do jazz, agora apelidado bebop. Surge do nada a Rua 52, com suas dezenas de clubes essenciais para o desenvolvimento do jazz. É para lá que seguiam, e ainda hoje seguem, os músicos que amam o jazz e pretendem fazer jazz, repetindo os passos de Miles Davis, John Coltrane, Charles Mingus, Sonny Rollins e tantos outros. É ali, e talvez somente ali, que você pode entrar num bar às 22h e ouvir excelentes jam sessions até às 4 da manhã, como é o caso da jam apresentada no desafio em tela. O primeiro navegante que disser quem está tocando na jam session acima, gravada no Smalls em janeiro de 2007, ganhará o disco do sexteto, além de uma camisa do Blue Note, do Birdland ou do Iridium, à sua escolha. Dica: o trombonista é John Mosca. Boa sorte!

6 comentários:

bin disse...

É... Explodir as coisas é fácil. Construir um espaço onde a liberdade possa florescer é dificílimo. Não faço a menor idéia de quem toca. Só sei que gostei do som!

Salsa disse...

Prezado Lester,
Tentei ampliar a imagem, mas não rolou. Abraços,

Predador disse...

Bem vindo a nossa Terra sr.Lester.Espero que tenha tomado um banho de cultura, especialmente jazzístico, em New York, e, de agora em diante, no seu site publique artigos e músicas mais consistentes e verdadeiramente "ligadas" ao jazz.Chega de free, funks, batidão, musica de boite e outras porcariadas.

João Luiz disse...

Saudações Lester, bom saber do seu retorno. Espero tenha gostado de NYork e ouvido muito jazz. Aproveito a oportunidade para participar do seu desafio-Jam session. Lá vai: Joel Weiskopf(piano), Doug Weiss (bass), Bill Drummond(drums), Walt Weiskopf(tenor), Greg Gisbert(trumpet) e John Mosca. É isso ,e muita polêmica vai rolar.

thiago disse...

pq só 5 minutos de jam??? coloca mais aí lester!!!

John Lester disse...

É necessário informar aos amigos navegantes que já há vencedor para o Desafio Jazzseen de dezembro. Vejam comentários na resenha acima.

Parabéns a todos e até a próxima!