15/01/2007

Dia 31/12/06 - A Amazônia É Aqui

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Você chega em New York no dia 31 de dezembro de 2006 e percebe que não há neve no Central Park. A grama está verde e os esquilos ziguezagueiam ariscos. O The New York Times escreve que isso não ocorria desde 1877. Então seria assim? Um Natal e um fim de ano sem neve em New York? Isso é o mesmo que feijoada sem feijão! São 8h da manhã e o céu muito azul parece denunciar que, logo mais à noite, o show de passagem de ano vai ser ótimo. Irei ao Blue Note e, não posso negar, minha primeira experiência por lá, em 1996, não foi nada boa: o show a que assisti, de David Sanborn, foi bastante ruim. Por causa desses caprichos do destino, o músico que tocará mais tarde é Chris Botti, um trompetista muito competente tecnicamente, bastante letrado na herança de Chet Baker e Miles Davis, mas que realmente nunca me causou maior interesse. Sua forte ligação com o crossover, o smooth jazz e o pop descartável sempre me fizeram investir em outros músicos e outros álbuns. Mas, tendo em vista as reduzidas possibilidades da agenda, foi ouvindo Botti que resolvi comemorar a passagem de ano. A reserva, feita e paga on line com antecedência, indicava a necessidade de se estar por lá 30 minutos antes do show, a fim de assegurar um bom lugar no pequeno cubículo em forma de corredor que é o Blue Note. Como todo fanático por jazz, lá estava eu na fila 1h antes do show, recebendo em cheio o vento gelado da noite, que penetrava fácil pelos tecidos mais espessos, cortando a carne e congelando nariz e orelhas.
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Sendo o meu show o das 22:30, o último de duas sessões, e considerando que havia simultaneamente muita gente lá fora querendo entrar e muita gente lá dentro não querendo sair, o rebuliço na porta do clube foi grande. Depois de 1h de fila e ansiedade, finalmente sentei à mesa com outras sete pessoas, todas desconhecidas, apertadas umas contra as outras. Uma vez assentado, era praticamente impossível mover-se ou circular pelo clube lotado. Bastante pouco à vontade e com sorrisos mutuamente constrangidos, fomos relaxando pouco a pouco, colocando as cabeças sob os chapéus fornecidos pelo clube e sorvendo timidamente a champagne gratuita servida em pouco generosas taças de vidro. De fato, nada justifica a forma absurda com que o Blue Note acomodou as pessoas naquele dia 31 de dezembro de 2006. Todos sabemos que clubes de jazz estão muito mais associados ao prazer que ao lucro. Quem pretende apenas fazer dinheiro sabe que deve abrir um teatro na Broadway, um banco na Wall Street ou uma casa de massagem no Greenwich Village. Os clubes de jazz, todos reconhecem, são movidos pela paixão de alguns entusiastas desvairados, apaixonados por jazz e muito pouco preocupados com lucro. A idéia é pagar as despesas e deixar o som rolar. A disposição ridícula das mesas e a quantidade absurda de pessoas espremidas no Blue Note afrontava até mesmo as normas mais elementares de segurança. Cheguei a pensar na tragédia que um incêndio poderia produzir naquelas condições. Se o pobre coitado que fosse acomodado na última cadeira precisasse ir ao banheiro, a tragédia talvez fosse ainda pior, pois era impossível sua passagem, em tempo hábil, entre as cadeiras ou qualquer outro tipo de circulação. Éramos todos, literalmente, reféns do jazz.
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Mas, como a maioria faz nessas ocasiões, fiquei calado e, resignado, pedi uma taça de vinho e um filé ao ponto. 23h começa o show e, para minha surpresa, Botti faz um som totalmente assentado na herança bop, com solos intensos, elaborados e, quem diria, com velocidades e acordes bastante surpreendentes. Deixando de lado suas açucaradas baladas, Chris sentou o sarrafo ao lado de uma excelente banda, com destaque especial para o guitarrista. O próprio Botti, a certa altura, confessa que aquelas semanas no Blue Note foram as mais satisfatórias de sua carreira. O músico pode e sabe tocar o bop. Isso ficou claro para todos nós. Com o competente auxílio dos músicos Billy Childs (p), Mark Whitfield (g), Jon Ossman (b) e Billy Kilson (d), assisti a um dos melhores shows de jazz de minha vida. Mais tarde, no gift shop, encontrei uma atendente com um inglês inacreditavelmente pior do que o meu. Depois de algumas dificuldades de comunicação, descobrimos sorridentes que seu nome era Madalena, uma amazonense que preferiu viver na floresta de concreto. Assim, foi mais fácil pedir e escolher as lembranças de viagem para alguns grandes amigos que, ao menos virtualmente, estiveram ali comigo durante todo o show: Reinaldo Santos Neves, João Luiz Mazzi, Mr. Salsa, Pedro Nunes, Paulinho, Fernando Achiamé, Rogério Coimbra e Chico Brahma. O jazz tem dessas coisas. E, ao fim e ao cabo, o que importa mesmo é que o filé do Blue Note é excelente.

11 comentários:

Salsa disse...

Puro coquetel! Bunitim.

Vinícius disse...

q q vc trouxe para mim?

John Lester disse...

Caro vinicius, trouxe poucas coisas para muitos amigos. Mas nada que um cd de mp3 não resolva.

Grande abraço, JL.

Vinícius disse...

eu quero uma camiseta original do vanguard, um copo roubado do blue note e o chapéu usado do monk...

Vinícius disse...

e a dentadura do sal mosca!!!

guzz disse...

que beleza !
tem que ter presente pros visitantes também

rs

abraço

Salsa disse...

Hoje é dia de ganharmos biscoitinhos do exército da salvação, ôbaaa!!!

John Lester disse...

Prezados navegantes, tentar, eu tentei. Mas o Sal não parava de mastigar involuntariamente. Ficarei devendo a dentadura do mestre.

Reinaldo Santos Neves disse...

Welcome back, Mr. Lester. E, já que você, de nós todos, sócios do clube, é o único que tem peito pra viajar em busca do que resta do melhor do jazz e viver todas essas experiências maravilhosas, cabe-nos agradecer por partilhá-las conosco sob a forma de palavras, imagens e sons, e, em especial, sob a forma dessa amizade que nos une através do jazz.

John Lester disse...

It's all right, Mr. Rey.

Anônimo disse...

Menos de um ano depois. Um grupo q tenha Billy Kilson,Mark Whitfield e Billy Childs escandaliza até mesmo o adocicado trumpete de Botti.Edú