10/02/2007

O urso panda, a dulcina e o bassoon

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Vivemos num mundo onde muitas pessoas ainda se emocionam ao ver um panda rolando preguiçoso pelo chão ou quando ouvem um animado solo de tuba. Alguns podem até mesmo ter uma síncope ao ver uma arara-azul em suas varandas ou enfartar ao ouvir alguém tocando oboé num quiosque de Camburi Garden. Por onde andam nossos queridos e exóticos peixes-boi, botos cor-de-rosa e instrumentos acústicos? Por onde anda a dulcina? Não sei dizer. Outro dia, nosso guia músico-espiritual Salsa encontrou sinais de vida saudável no estranho álbum Black Beauty: Miles Davis at Fillmore West: que diabos Miles Davis está tocando nesse álbum? Eu poderia jurar que não é um trompete. E foi assim. Hoje esbarrei num antigo e já quase esquecido disco de jazz, Gabrielle’s Balloon, jogado num canto empoeirado da estante. É do tocador de bassoon Michael Rabinowitz, gravado em 1995, em New York, cidade onde Rabinowitz costumava tocar seu curioso instrumento em pequenos clubes, como o 55 Bar. Diante das assustadas platéias, Rabinowitz tinha não apenas que tocar bem, o que ele efetivamente faz, mas também sobrepujar o preconceito do público de jazz contra todo sopro que não seja emitido por um trompete, um saxofone ou um trombone. Ele nos mostra que o jazz, antes de tudo, é uma atitude diante da música, uma atitude baseada apenas num ritmo altamente complexo e imediatamente identificável: se você tem o ritmo, pouco importa a melodia e a harmonia. Nenhum gênio ou teórico, por mais esforçado, consegue explicar o que é jazz e, no entanto, qualquer criança o reconhece quando o ouve.
O que importa não é tomar notas detalhadas de uma receita, mas apenas observar a mão da velha cozinheira negra ao preparar esse prato afro-americano, temperado com idéias musicais oriundas da África e da Europa. Fazendo assim, você poderá tocar jazz com um berimbau ou com um bassoon. Aliás, bassoon quer dizer fagote, aquele instrumento da família das madeiras, de palheta dupla, derivado de nosso ancestral amigo oboé. Seu som, quando produzido por Rabinowitz, em alguns momentos nos lembra uma flauta obesa, em outros um sax tenor rouco e, em algumas oportunidades, se assemelha a um sax barítono feito de algodão, como na faixa Have You Met Miss Jones? onde o fagote esperto faz uma rápida alusão à Wave, de Tom Jobim. Gabrielle’s Balloon é um grande disco, com excelentes improvisos de fagote, com John Hicks (p), Ira Coleman (b) e Steve Johns (d), lançado pela Jazz Focus e colocado no e-mule por nosso amigo Jas, em 192kbps. Recomendo. Quem quiser conferir como esse mundo é estranho, basta dirigir-se à Radiola Jazzseen.

6 comentários:

salsa disse...

Você já havia falado desse cara, Mr. Lester. Ficou com saudades?

thiago disse...

manero o som

Konny Lee disse...

Great!

augusto carlos disse...

nada mal esse tal de bassoon

abílio disse...

tem tambem um tal de yusef lateef que toca oboe, vcs tem alguma coisa dele ai?

abraço

John Lester disse...

Sim, Salsa, lembro que disse qualquer coisa sobre ele lá no blog do Acir. Mas, agora a resenha vem com 'équiú' como diria Seu Creyson.