13/02/2007

Por onde anda a beleza?

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Por onde anda a beleza ? O homem médio, do tipo que ainda amarra seus próprios cadarços, sempre acaba espantado diante das inovações que a História lhe oferece. Coisas como a redondeza da Terra, gente estranha caminhando na Lua e a raiz quadrada de – 1 sempre causaram bastantes alvoroços. Na música, o ouvido médio não age diversamente. Afirmam para ele que Carlinhos Brown é um gênio: e lá vai o pobre homem de boa vontade sapatear atônito diante daquela orquestra sinfônica de atabaques e congas, onde todos os componentes sorriem não se sabe do que. Se vacilarmos, eu e você também começaremos, inconscientemente, a batucar e gargalhar como idiotas. Em seguida afirmam para ele que Yamandú Costa é gênio: e o pobre homem médio faz um esforço hemorroidal para ouvir até o fim aquele disco insuportavelmente repleto de notas musicais e vazio de sentimento: música notável e insuportável. Pior que Yamandú Costa e Carlinhos Brown talvez somente Peter Brötzman. Ou Ornette Coleman tocando notas erradas em seu saxofone de plástico e acompanhado por uma orquestra de marroquinos desafinados. Tipos como Yamandú, Brown, Brötzman e Ornette estabelecem o que se poderia denominar de região cinza da música, um local onde o virtuosismo estúpido e a falta de musicalidade copulam, gerando um feto amorfo, capaz de chorar ainda no ventre um choro natimorto, triste e irregular, que muito se assemelha ao som da magnífica orquestra da rádio PRK 30. O homem médio, contudo, aprendeu que discutir beleza, desde Platão e Aristóteles, sempre acaba em buscas estéticas infrutíferas, iluminadas apenas por indivíduos singulares que, surgindo de raro em raro, emolduram sem esforços ou contendas novos conceitos do belo. Sabemos e não podemos fugir do fato de que arte é imitação, não no sentido elementar de contrafação ou colagem nos moldes de um John Zorn. Mas imitação num sentido mais amplo, sutil, de gerar beleza no viés esquecido das tradições, emoldurando a noção de beleza com material tão associado à nossa memória e ao nosso inconsciente que, mesmo resistindo e relutando, sucumbimos totalmente entregues à sedução estética avassaladora. Por isso, o pobre homem médio, do tipo que ainda não consegue explicar porque o som do lp é melhor que o som do cd, sempre acaba ouvindo Pixinguinha, Lester Young, Baden Powell, Bud Powell, Villa-Lobos ou Thelonious Monk. O pobre homem médio não entende – coitado, ele não tem qualquer formação musical digna – que a música é, para alguns, a capacidade de causar ojeriza ou polêmica. O álbum Machine Gun, do saxofonista alemão Peter Brötzman, é um clássico nesse sentido. Para os navegantes mais curiosos ou masoquistas deixo uma das faixas desse álbum na Radiola Jazzseen. Mas fica o alerta: prefiro um tiro de escopeta em cada orelha a ouvir tal coisa.

8 comentários:

João Luiz disse...

Que perda de tempo Lester! As pessoas que gostam de jazz, mesmo os neófitos, rejeitarão por certo esse disco do Peter Brotzman que é uma afronta a qualquer tipo de música. Vou providenciar tiros de escopeta em suas orelhas ,só por voce ter comentado e colocado na Radiola, esse "lixo musical".

OLNEY disse...

Ora Lester, pra que então postar e divulgar coisas assim, se há tanta coisa bonita do que se falar (e pra se ouvir)???!!!

John Lester disse...

Como dizia o bom Neocronte, lá do alto das muralhas do senado grego: a liberdade cobra um alto preço de nós.

Via a democracia, essa coisa horrível que, por enquanto, ainda é a melhor maneira de vivermos.

JL.

Anônimo disse...

Xiiiiiii.....

Anônimo disse...

Por onde anda a "beleza" Lester ?

Vinícius disse...

caro lester, vc que é um cara cheio de bufunfa, me diga, vc tem esse box?

http://www.cduniverse.com/productinfo.asp?pid=1177676&WID=6615261&BAB=L

oq tem nele, que gravações são essas que ele fez na verve

(serviço jazzseen responde)

John Lester disse...

Prezado Vinicius, antes é preciso esclarecer que não há bufunfa por aqui. Há, sim, muitos empréstimos a pagar. Bem, quanto à coleção de Lester na Verve, há quem diga que não é aí que você encontra a melhor fase do mestre. Para esses críticos, a melhor fase de Lester teria sido aquela anterior a 1945, principalmente em suas gravações com Count Basie e Billie Holiday. Eu discordo dessa opinião e considero essa coleção excelente, onde você encontra um Lester maduro e em excelente forma. Mas sou suspeito para falar sobre Lester, pois considero todas as suas fases excelentes, inclusive a última gravação que ele realizou, na França, pouco antes de morrer.

Tem uma resenha no All Music bastante interessante. Anote aí: http://www.allmusic.com/cg/amg.dll?p=amg&sql=10:r9duaknkkm3b

Um abraço, JL.

John Lester disse...

Prezado Olney, você sabe. Tipos como Brotzman estão nos principais guias de jazz, como o All Music Guide (2, 3 e 4 edições), Penguin Guide (5 e 6 edições), Rough Guide e muitos outros. Em todos eles Brotzman é considerado um gênio do free jazz, etc, etc.

Por isso trazemos estas aberrações para os amigos navegantes conhecerem e darem suas opiniões.

Grande abraço, JL.