21/09/2007

Quase Tudo é Jazz 2007 - II

Tomar um café da manhã de domingo com Madeleine Peyroux, João Donato e Bud Shank foi uma experiência curiosa. Todos estávamos nas decentes instalações da Pousada Mondego, que fornece um café forte de fazenda e uma bela vista da Igreja São Francisco de Assis, fruto da parceria rococó entre Aleijadinho e Mestre Athayde. Enquanto beliscava um bolo de aipim e observava São Francisco recebendo as chagas de Cristo na fachada da igreja, percebi que Madeleine toma o café da manhã em pé, andando de lá para cá. Talvez com medo do assédio de adolescentes, muito comum sobre artistas da música pop, ou pelo constrangimento de sentar-se face a face com um músico de jazz como Bud Shank. Seja como for, procedi como no show da noite anterior do Tudo é Jazz: concentrei-me na parceria quase barroca Donato & Shank. Embora a atuação dos dois no sábado (15/09/07) não possa ser considerada consagradora ou apoteótica, também não se pode dizer que fizeram feio.
E nem poderiam. Músicos completos, dotados de talento e muita estrada, os dois pareciam cumprir algum tipo de promessa profana: não houve toda aquela empolgação de um Omer Avital, mas também não houve aquela pasmaceira de uma Madeleine. Eu, como dedicado devoto do jazz, já havia passado por situações semelhantes, como no show de Dizzy Gillespie no Canecão, creio que em 1987, ocasião em que o mestre tocou duas ou três notas, deixando o trabalho pesado para James Mood, seu respeitável saxofonista tenor. Existem ocasiões no jazz – e a apresentação de Donato e Shank é um exemplo – em que nos cabe apenas estar presentes, como que prestando um tributo a pessoas que fizeram a história do jazz. Esse é o caso de Bud Shank, um senhor de 81 anos de idade, ainda capaz de nos emocionar com seu fraseado lépido e suave, bem ao estilo do sutil cool jazz. Ao contrário de Madeleine, Bud tomou seu café da manhã de domingo e tocou seu saxofone sentado durante todo o tempo. Menos espécie causou Donato, que toca piano. Com o repertório do Frog e adjacências, a dupla recebeu bem o carinho da platéia. Agradeço ao Bud por ouví-lo.
Em seguida tivemos a oportunidade de ouvir o aritmético quinteto de seis músicos de Oscar Castro-Neves, um dos mais bem sucedidos músicos brasileiros que lotam a California. Bastante emocionado em virtude dos quinze anos longe dos palcos brasileiros, a emoção foi arrefecendo lentamente em virtude de problemas técnicos: ninguém, inclusive ele, conseguia ouvir seu violão. Cercado por meia dúzia de técnicos que reviraram cabos e conexões por quase meia hora, Oscar desistiu e se retirou do palco, aguardando o fim da batalha eletrônica em seu camarim. Se eu já estava nervoso e encabulado, imagine ele. Num último recurso, foi oferecida a Oscar uma viola caipira e um microfone gigante, de modo a tornar possível o show improvisado. A música de Castro-Neves, embora admirada e aclamada pela crítica especializada, não é exatamente a música que mais me agrada, além do que não a considero jazz na minha acepção da palavra. Penso que suas composições podem cair bem em trilhas sonoras ou em concertos para estrangeiros que procuram por música brasileira, onde certos arremedos e clichês são emoldurados com arranjos inteligentes e, muitas vezes, inovadores. Mas não me emocionam. Alternando composições próprias com standards da bossa nova, o destaque ficou mesmo para seu excelente saxofonista kamikase Andy Hiroshi Suzuki, um instrumentista que domina desde John Coltrane (eles tocaram Naima) até Tom Jobim, de quem Oscar falou e tocou bastante. Pena que Andy tenha tido pouco espaço para demonstrar toda sua técnica e habilidade com o tenor e o soprano, além da flauta. Ao contrário do espalhafatoso casacão dourado do violinista Charlie Hanna, que se sacudia pendularmente no palco e arrebentava as cordas de seu violino, quem chamava realmente a atenção era a bateria do cubano Walfredo de Los Reyes, músico excepcional, preciso, vibrante e discreto. O aroma de jazz era fornecido pelo esperto piano do mestre Don Grusin, proprietário daquele legado bebop que tanto me agrada. E se não foi essa a noite com mais jazz, foi certamente a noite mais alegre e com maior público. É o tipo de estratégia – mesclar jazz, pop e bossa nova – válida nesses tipos de festivais, tão preciosos para nós, amantes de jazz e bolo de aipim.

5 comentários:

Anônimo disse...

Lester, beleza de texto, corroboro, pedindo permissão ao Salsa para apropriar-me de sua expressão, com a integridade de suas palavras.Donato é um dos criadores originais da Bossa Nova ,junto com os protagonistas Jobim e João Gilberto e o relegado grandioso Johnny Alf.Bud Shank, q ví duas vezês, nesses ultímos três anos, conduz a carreira de maneira "sóbria".Algum interessado em levantar e aplaudir efusivamente , após a audição de seu solo durante o set, deve procurar outra atividade de entretenimento.Edú

augusto carlos disse...

De fato o Sr. John Lester sabe ouvir. Posso arriscar, pois já tive o prazer de ouvir Shank na California de 1970, que ele sempre tocou assim, sentado e tranquilo. E olha que o velhino já trabalhou com muita gente boa e, nem por isso, virou estrela: Chet Baker, Art Pepper, Shelly Manne, Bob Brookmeyer, Shorty Rogers, Cortis Counce, Chico Hamilton, Gerry Mulligan, Jimmy Raney, Frank Rosolino... Alguns se mataram, outros morreram, e Bud continua tocando prá nós.

Salsa disse...

Lester me fez economizar quilos de palavras com essa resenha. Realmente, Bud, como ícone que é, mesmo se soprasse duas notas, eu estaria presente e aplaudindo. É a história do jazz diante de nossos olhos, e ainda tirando os harmônicos do seu sax alto. As frases curtas, já sem o vigor da juventude, ainda são as frases de Bud Shank, o eterno Bud Shank.
O encontro desastrado de Oscar com a tecnologia foi de lascar. Confesso ter sossobrado à angústia. Quando rolou 'round midnite, eu virei abóbora e fui rolando para o hotel.

xiko disse...

Adoro ouvir Charlie Parker chupando rapadura!

olney disse...

O Lester tem razão; esse batera Los Reyes é mesmo muito bom!