21/10/2007

Uma espécie de


Na primeira vez você sempre escorrega na neve do Central Park, não tem jeito. Em dezembro há muita gente nas ruas e as árvores ficam repletas de pequenas lâmpadas, fornecendo um pouco de calor às imensas fachadas de concreto centenário. As sirenes altíssimas sinalizam que, apesar do frio aconchegante e dos esquilos saltitantes, todo cuidado seria pouco naquela New York de 1996. Como todo bom turista, eu deveria seguir à noite para o Blue Note, uma espécie de Canecão deles, só que comprido e apertado. O filé com batata sotê ficava por US$26.00 e a taça de vinho desconhecido, US$6.00. Pronto: com a barriga e canelas aquecidas, agora seria possível encarar David Sanborn & Los Congueros del Diablo, um noneto de percussão liderado pelo aclamado caboverdeano Pablo Otero Reyes, uma espécie de Carlinhos Brown deles. Foi no hall do hotel que vi pela primeira vez meu amigo Lester. Fumando escondido, conversava animadamente com alguns porteiros e carregadores de malas. Ouvi algo sobre o Cotton Club, o Apollo Theater e o Minton’s Playhouse. Curioso, fui me aproximando e consegui descobrir algo sobre a grande dica da noite: Tim Armacost, no Smalls.

Sim, embora os gerentes louros do hotel tivessem pavor do Harlem e revirassem os olhinhos para o Village, os porteiros negros sorriam daquilo tudo e ensinavam os macetes para se sair vivo e incólume daquelas áreas mais obscuras e alternativas da grande maçã. Entrando na roda, descobri que Lester estava sozinho e, assim, me ofereci para dividirmos o táxi, algo em torno de US$7.00 do Grand Central Terminal até o Smalls. Descemos por uma escada estreita, que balançava ameaçadoramente quando o trem do metrô passava. E foi ali, dobrando à esquerda no fim da escada, num ambiente apertado e escuro, que presenciei um dos melhores shows de jazz da minha vida. Um trio já fazia das suas quando chegamos, enquanto vários técnicos esticavam fios e posicionavam microfones por toda a parte: sim, o show seria gravado para ser lançado em cd. Foram cerca de duas horas de arte instantânea, com todo aquele improviso que faz do jazz o que ele é. Creio que devemos muito daquela noite a Tom Harrell, o trompetista esquizofrênico que acompanhava o excelente e desconhecido saxofonista Tim. Na cozinha, além do vinho barato em garrafões de 5 litros, estavam Johnny King (p), Gerald Cannon (b) e Shingo Okudaira (d). Para os amigos, fica a faixa You Don’t Know What Love Is, uma espécie de Carinhoso deles. A coisa toda, altamente recomendável para quem aprecia um bom post bop, pode ser comprada em vários locais, como na Amazon e no E-music.

Tim Armacost - You...

8 comentários:

alberto disse...

Vim tomar café e adorei esse tenor. Cadê os álbuns do Getz que Lester prometeu???

thiago disse...

perverso...

João Luiz disse...

Reinaldo Santos Neves deveria estar lá, em New York com voces, naquela noite. Ele iria adorar David Sanborn e especialmente Los Congueros del Diablo. Coisa de louco!!!!

Salsa disse...

Resolvi dar uma paradinha em Cuba, para visitar meu amigo fidel e comemorar o aniversário da revolução Bolchevique fumando charuto nacional e bebendo run. Fui em um boteco ouvir o excelente pianista Infante Jesus (vá entender como alguém conseguiu, em Cuba, ser registrado com esse nome)> O fato: é impossível resistir à música cubana, ao vivo. Os tambores dos malucos novaiorquinos poderiam ir até lá para aprender.

Anônimo disse...

Bom o tenor, Mr. Bravante. E o Smalls, que andou fechado algum tempo, felizmente reabriu suas portas. Édi.

John Lester disse...

Mr. Bravante e sua memória invencível. Volte sempre, a casa é sua.

amílcar disse...

Tim é mesmo um grande tenorista. Infelizmente passou a tocar música indiana e free jazz. Uma perda para o jazz.

augusto carlos disse...

Bom o garoto, valeu a dica Lester.