03/02/2008

Spanish Fandango

Tendo perdido o controle sobre meu próprio blog, através de um motim democrático, os colaboradores do Jazzseen determinaram que eu também escrevesse algo sobre o latin jazz. Embora reconheça nas palavras de Jelly Roll Morton que a tinta hispânica realmente fez parte do esboço inicial do jazz, sempre defendi que jazz, para mim, é bebop e hardbop. Entendo que é nessas duas últimas fases ou estilos (1945-1955) que o jazz se estabelece como arte, passando de simples manifestação folclórica inusitada (estilo New Orleans) e de contagiante música de dança (estilo swing) para algo mais denso e elaborado, tanto em termos líricos quanto intelectuais. Ainda assim, mesmo nessa fase que considero áurea, observamos várias influências latinas no jazz, sobretudo a cubana e a brasileira – como esquecer o vendedor de amendoins ou a bossa nova? Então, navegando sob os chicotes afiados da democracia, aqui estou eu para falar da cor latina que volta e meia é derramada sobre o jazz. Dos males, o menor: falaremos sobre Luckey Roberts (1887-1968), um dos mais brilhantes e influentes pianistas e compositores do stride, estilo pianístico caracteristicamente novaiorquino, criado pelos negros no Harlem, que viria a substituir o ragtime. Luckey nasceu na Philadelphia e começou a estudar piano por volta dos 13 anos, revelando-se um virtuose acrobático, o que lhe valeria, anos mais tarde, uma série de vitórias nos famosos cutting contests promovidos entre os pianistas de New York. Por volta de 1908, Luckey já estava em New York, participando das chamadas renty parts, encontros promovidos por músicos em dificuldade, com a finalidade de arrecadar algum para o aluguel. Como compositor, Luckey atuou no ragtime, stride, música para teatro de revista e música clássica. Nas décadas de 1910 e 1920 produzirá mais de 20 musicais, além de efetuar algumas gravações para a Columbia, em 1916, que nunca foram lançadas. Preciosas são também seus rolos de pianola, gravados principalmente para a Ampico, quase sempre fora de catálogo. Além de líder bem sucedido, Luckey apresenta-se no Carnegie Hall em 1939 e abre um bar no Harlem, o Rendezvous, que fez grande sucesso. Infelizmente Luckey gravou muito pouco e são escassas as gravações de boa qualidade. Para os amigos navegantes fica Spanish Fandango, gravada em 1958 e retirada do álbum Luckey & the Lion: Harlem Piano (Good Time Jazz 10035). Uma curiosidade: Luckey nunca admitiu ser um músico de jazz: ele se denominava um dos últimos pianistas do ragtime e considerava que sua música era “séria”.


Luckey (esquerda) & The Lion

11 comentários:

dred disse...

nice post john

PREDADOR.- disse...

Sr.Lester, por favor, dá um tempo! Vá brincar o carnaval. Jazz é jazz. "Latin jazz" não existe: é simplesmente apelação comercial.

Marília disse...

adorei john! bju

Roberto Scardua disse...

Lembrei até um pouco do Gottschalk, beleza!

thiago disse...

véi sinis

Anônimo disse...

"Frame" isolado retirado do conjunto de fotos de Art Kane intitulada "Harlem Jazz Portrait" de 1958.

Anônimo disse...

Anônimo da rua Ceará:
Você é apenas amigo do Predador, certo?
Bem colocada sua observação sobre a turma fotografada.
RCoimbra

F. Grijó disse...

Ótima postagem (bem menos mirabolante que as anteriores; também excelentes), mas, com um adendo tanto gramatical quanto semântico (um e outro se confundem, na maioria dos casos):

"(...) várias influências latinas no jazz, sobretudo a cubana e a brasileira – como esquecer o vendedor de amendoins ou a bossa nova?"
Não deveria ser "influências latinas DO jazz", já que este influenciou a bossa nova de modo decisivo? Estarei eu enganado?

Abraço e mais uma vez parabéns pela postagem.
Não conheço o disco, mas conhecerei.

E essa fúria "predatória" é fogo de palha. Há quem diga que o Predador regozija-se ao som de Rubalcaba.

John Lester disse...

Prezado Grijó, quem sou eu para discutir com um mestre em letras e palavras e verbos.

Ocorre que, com meus limitados instrumentos retóricos, aliados à minha estreita ótica, posso ter gerado alguma confusão entre nossos milhares de leitores.

Que o jazz nasceu sem nem estar aí paro a bossa nova, creio que todos sabem. A recíproca, concordo com você, não.

Mas depois, depois do filho feito, creio que papai jazz aprendeu algo com nenê bossa nova. Era isso, ok?

Quanto à danza cubana e a habanera, ficam para uma resenha.

Grande abraço, JL.

Anônimo disse...

Esqueci de assinar meu comentário sobre a foto do Art Kane.Tinha acabado de chegar, literalmente, de um baile de carnaval.Edú

Anônimo disse...

Eu soube essa semana e repasso:quando o Willian "The Lion" Smith,referencia no “stride piano”, foi fazer o Blinfold Test da revista Down Beat (teste às cegas de quem esta tocando o que?)colocaram um disco do Dave Brubeck como a do único pianista branco em meio a outros pianistas negros de diversos estilos.Brubeck foi identificado por Lion como o que melhor se expressava no blues em estilo stride.Edú(parte II)