11/11/2008

2gether

A leitura atenta do Pare de fumar para sempre, de Martin Raw, um dos maiores especialistas em aproveitar boas oportunidades de vendas, me fez acender mais um cigarro. Afinal, sabe-se lá, poderiam ser meus últimos tragos, caso o livro um dia venha a funcionar realmente. A ironia foi que, num momento delicado como esse, na difícil trajetória de um dependente químico, Warren Vaché e Bill Charlap interpretavam Easy Living no toca-discos. Justo no capítulo em que Raw se propõe a ensinar ao ex-fumante a manter-se definitivamente distante dos prazeres da lasciva nicotina. Se você visitar o All Music, não encontrará muitas informações sobre o álbum 2gether, gravado nos dias 13 e 14 de dezembro de 2000 em Connecticut. Lançado em 2001 pelo excelente selo de jazz Nagel Heyer, 2gether é, como bem define Dan Morgenstern nas liner notes, um dos mais bonitos álbuns de jazz lançados naquele ano. Na verdade, Morgenstern, que é diretor do Institute of Jazz Studies, vai mais longe, afirmando tratar-se de um de seus álbuns preferidos de jazz. No televisor cigarros gigantes sinalizavam a proporção do apoio de alguns manifestantes que, vestidos de esqueletos, rolavam em frente à Assembléia Legislativa de São Paulo apoiando a promulgação da lei que, agradecm os planos de saúde e as seguradoras de vidas, proibirá o fumar em todo e qualquer local fechado daquele colossal estado-membro.
Precisamos reconhecer: é irreversível a marcha humana em direção à vida eterna, à qualidade otimizada de vida e àquela tez absolutamente perfeita, esticada e imóvel. Oxalá não estarei mais por aqui quando todos os rostos forem idênticos, todos os sorrisos forem perfeitos e todos os nossos terríveis vícios eliminados. Haverá espaço para o improviso? E concordo com Morgenstern, diretor do Institute of Jazz Studies, que 2gether é um disco bastante saboroso, especialmente para aqueles que apreciam travessuras como as de Ruby Braff, um dos melhores cornetistas do swing, em memoráveis duos, como os com o pianista Ellis Larkins. As multas paulistas prometidas serão elevadas, algumas chegando a severos 3 milhões de reais, mas aplicadas somente contra o estabelecimento enfumaçado: a lei não prevê punição para o fumante, ao contrário do que se fazia com os dependentes químicos na década de 1950, quando eram presos e tratados como criminosos, como Art Pepper e Billie Holiday, ou perdiam sua licença para tocar, como Thelonious Monk. Numa linguagem que poderia confortavelmente ser catalogada como neobop, Vaché e Charlap contam velhas estórias - If I Should Lose You, You And The Night And The Music, Darn That Dream, Prelude To A Kiss, St. Louis Blues - com sotaque contemporâneo, mostrando que os three T's - time, technique e taste - podem evoluir de forma inteligente e bela. Cof cof.

18 comentários:

bia disse...

Que bom que voltou Lester. Linda música!

Anônimo disse...

Viu,Sérgio,atiça o leão q ele ruge.Um dos mais lindos albuns de jazz do século XXI.Bela recomendação.Edú.

Sergio disse...

Não! Eu acho essa luta do Lester pelo prazer, hábito ou seja lá o que nos atiça a vontade de gostar de fumar (é problema nosso!)* de uma sofisticação (e necessidade) visceral!

Há alguns anos cunhei essa frase:

Sinto mesmo uma ponta(da) de felicidade ao saber que os cigarros que fumo com prazer andam afetando certos passivos. (explico: é o meu prazer que os afeta e não a fumaça)

Hoje passivos, ativa e organizadamente, estão se vingando. Não pegaram bem a coisa. Não é a toa que no meu sônico vivo gritando contra a burrice.

Enfim... agora eu tenho que descer à banca pq o meu maço de LM acabou de acabar.

Ah!, quanto a volta do jazzseen: finalmente retomo a minha rotina e já providenciando 2gether pra ontem!

*em casa só fumo na janela. mesmo morando só. Detesto e não fumo enquanto caminho. Respeito e compreendo cada pequeno ritual deste hábito. Também procuro somente acender um cigarro, quando com vontade. Quem pede é o desejo, quando percebo que é o organismo, saboto ele pr'ele não me sabotar.

Enfim, se alguém aqui leu o capítulo sobre o fumo da biografia do Luis Buñuel entendeu há muito a relação do bom fumante com o seu prazer. O meu é particular e intransferível. Sou um egoísta quanto a isso, daí não dividi-lo com ninguém desde sempre.

Valeu Lester, fazes uma falta que eu chagaria a caracterizar como dependência, aos seus leitores.

Salsa disse...

Prezados,
O discurso higienista tornou-se a nova face fascista. Em nome da tal da boa saúde, justifica-se invadir a privacidade alheia e solapar o direito de vivermos como quisermos. Tudo, como disse erasmo, é ilegal, imoral ou engorda. Creio que foi Adorno que falou algo assim: o homem, com aquele papo da verdade científica, inventa coisas que, depois, naturalizadas no senso comum, o transformam em objeto. E essa porcaria de discurso se entranha, insidioso que é, na população que o repete a-criticamente. O problema do fascismo é esse: ninguém acha que está sendo fascista em suas atitudes. As pessoas passam a recriminar (olha, não filhinho, é um fumante - diz a mãe apavorada) em nome da vida, em nome de deus, em nome da pátria e por aí vai. E o tal easy living, como fica?
Vou ali acender um - depois eu volto.

Salsa disse...

olha não, filhinho.

Sergio disse...

Pois é Salsa, e que espécie de tarados são esses caveirões deitados na grama agarrados nessas rôlas descomunais? Não tinham algo mais útil pra se ocupar não?

Lembrou-me uma placa pichada q vi no Aterro uma vez, dizia: "Não pise na grama (sirva-se!)". Ê mundinho...

Marília disse...

Podemos sentir que, mesmo escrito as pressas, o texto de lester sugere tantas abordagens que seria cansativo enumera-las. Basta repisar, com salsa, a faceta higienica de um processo que vem desumanizando o humano, plastificando a madeira e eletrificando os instrumentos acusticos.

Lembram de quando os medicos diziam que carne de porco fazia mal? Agora os medicos a recomendam.

Todo prazer cobra seu preço, a curto, medio ou longo prazo. O crack nos mata em 5 anos, o cigarro em 25. Mas viver sem prazer algum durante 100 anos...

Mamãe disse...

Olha a foto do meu 2Gether aí!!!

Sergio disse...

Mais uma vez, "perdoa a ignorância do macaco", mas atingida a faixa 8 na audição "Etude #2", esse é quase um disco de música clássica, pois não?

John Lester disse...

Prezado Sérgio, na verdade, de acordo com as informações trazidas pelo encarte do cd original, a faixa 08 é Soon. Etude #2 é a faixa 07.

Quanto ao álbum ser de música clássica, talvez seja necessário negar. Para mim, música clássica remete a Bach, Beethoven, Vila-Lobos. Já nosso álbum 2gether trata com Schartz, Berlin, Ellington & Handy, artistas que, se clássicos, seriam clássicos da música popular norte-americana.

Aos meus ouvidos, salvo algum tempero flamenco a la Tedesco ou Falla no flugelhorne a capela de Etude #2, o álbum é todo jazz. E que jazz.

Grande abraço, JL.

Sergio disse...

É, mr. vc sabe, sem o álbum físico na mão, põe-se simplesmente pra tocar enquanto se trabalha-se - o que não é, claro, a melhor maneira de se observar músicas desse naipe. Mas até que eu não estava tão distante ontem, faixa 06, "Nip-Hoc Waltz (Homage to Chopin)". E essa Etude #2 tbm me deu essa sensação.

É um belo álbum, sem dúvida. Bill Charlap me foi aplicado por aqui, p/variar, e hoje tenho uns 5 ou 6 álbuns do homem. Mas tem uns uns flertezinhos, aqui e ali. Pelo menos nas faixas mais pianíssimas.

PREDADOR.- disse...

Para um album dito de jazz, gravado em 2000 e com dueto de trumpet & piano até que é bastante agradável. A maioria das músicas, standards, não saturam os nossos ouvidos, tem um tempo máximo ideal para este tipo de disco, isto é, não ultrapassam 6 minutos, exceção feita ao tema meio chatinho "Prelude to a Kiss". De resto muito bom!
Em tempo: para Lester, Grijó, Mr.Coimbra, etc... Warren Vaché é melhor que Miles Davis.

Danilo Toli disse...

Vaché nem merece ser comparado, como instrumentista, ao farsante Miles Davis.

Salsa disse...

Mudando de assunto: Alguém foi à inauguração do Spirito Jazz? Eu gostaria de saber se o Vinyl obteve informações precisas sobre os vips que foram convidados para assistir Filó Machado.

Vinyl disse...

Sr. Lester,
Comunico, atrasado, que usei texto de sua autoria em post lá no Jazzigo. Muito bem escrito, destaque-se.

John Lester disse...

Aos tribunais, já!

Mª. Augusta disse...

Que bom texto novo de Mr. Lester, e outro, novinho , de Mestre Edú...Chet Baker ao fundo, bom, muito bom...Insônia e Jazzseen...este Chet está bom demais!

Rogerio Ribeiro disse...

Predador: Vachê catar !