19/06/2009

Luz no fim do túnel

Nem só a feliz lembrança dos mustangues cor de sangue, cadilaques rabos de peixe e – atualmente – bilhões de dólares despejados em subsídios governamentais faz a cidade de Detroit – epicentro da indústria automobilística mundial – melhor aos nossos olhos. Para nosso sentido auditivo, contudo, nenhuma cidade americana – nem Chicago, Nova Orleans ou mesmo Nova Iorque - é berço tão fértil na origem de tamanha seleção de pianistas da primeira linha do jazz. Hank Jones, Tommy Flanagan, Hugh Lawson, Sir Rolland Hanna, Barry Harris e Kirk Lightsey são exemplos dessa incidência geográfica. Todos pianistas de jazz oriundos da área metropolitana da cidade do automóvel. Em virtude dessa “linha torta de montagem” - formadora de talentos e virtuosidade - que Kirk Lightsey, nascido em 15 de fevereiro de 1937, ficou indeciso “moleque” sobre qual instrumento queria aprender ao estudar música aos 6 anos de idade. As opções escolhidas foram: clarineta, flauta, fagote e, por fim, o piano. Aluno pré-escolar de Johnson Flanagan (irmão do pianista Tommy), foi matriculado na Cass Technical High School onde dividiu espaço e merendas com os colegas de banda escolar Paul Chambers, Ron Carter (bac) e Hugh Lawson (p). À tarde, após as aulas, "infiltrava-se" na casa de Barry Harris participando de improvisações ao lado do saxofonista Charles McPherson. Também aproveitava as poucas horas livres do dia pra ouvir regularmente discos de swing da mãe. Em 1954 recebe uma bolsa da Universidade de Wayne para clarineta, abandonando-a, logo, para seguir carreira como pianista profissional. Durante essa fase de “trainee” trabalha com Yussef Latef (sax), Melba Liston (tromb) e a cantora Ernestine Anderson. Sendo convocado, mais tarde, para prestação do serviço militar, no regimento conhece o baixista Cecil McBee. Quando dispensados da obrigatoriedade militar, estabelecem parceria que trabalha em conjunto tanto nos clubes de jazz de Detroit como nas gravações de alguns “hits” de Soul e R&B da célebre gravadora Motown. Com boa parte do dinheiro recebido nessas atividades investe em aulas de piano clássico com Boris Maximovich, percebendo, durante o decorrer do curso, sua maior empatia com o jazz e as influências de seus co-cidadãos Tommy Flanagan e Hank Jones. Apenas em 1965, Lightsey faz suas primeiras, propriamente ditas, gravações de jazz, para o selo Prestige, tendo Chet Baker como líder. Como na mesma época e datas estava compromissado com Roy Brooks(bat) na cidade de Atlantic City, enfrenta três horas diárias de viagem “enfurnado” num ônibus na madrugada – pelo período de uma semana, para desembarcar em Nova Iorque antes da presença da luz solar. Na calada da madrugada, ainda, seguia direto aos estúdios para dar conta do combinado com Chet. O resultado final dessa experiência esta materializado em quatro álbuns de Baker (Groovin, Comin, Cool Burnin, Boopin). Mais tarde, já vivendo em Nova Iorque, no final dos anos 60, grava com Sonny Sttit e Benny Green (tromb). Contratado por Dexter Gordon pra substituir George Cables no grupo do saxofonista, obtém destaque como sideman, inclusive acompanhando o próprio Dexter durante sua passagem pelo primeiro Festival São Paulo/Montreux em 1978. Relação profissional alongada depois por cinco anos. Somente aos 45 anos de idade tem chance de gravar o primeiro disco solo, Lightsey 1, pela Sunnyside. Quando sua agenda esta repleta de trabalhos ao lado de Freddie Hubbard, Woody Shaw(tr) e Harold Land (sax) e nos mais diversos compromissos em estúdio sofre acontecimento que reorienta sua vida. Num caso de natureza imprecisa, é detido pela vigilância da companhia metropolitana de Nova Iorque acusado da tentativa de furto da bolsa de uma passageira no vagão do metrô em 4 de novembro de 1986. Por essa atitude suspeita permanece encarcerado por 27 horas. Esse acontecimento justifica, de certa forma, a maneira imprevisível que sua carreira toma a partir desse conturbado fato. Deixa de comparecer a duas audiências judiciais previamente marcadas - atribuindo inexistência de antecedentes criminais como argumento da inocência. No entanto, depois, refugia-se em Paris - cidade onde reside até hoje - sob a alegação de que o cenário de jazz nova-iorquino tornara-se hostil a ele. Em 2004, dez anos após o exílio voluntário, Lightsey retorna à cidade de Nova Iorque para uma curta temporada no clube Bradley´s. Mais uma vez, volta, em 2006, desta vez em razão dos serviços fúnebres de seu amigo, o soberbo pianista John Hicks. Preferimos enfatizar - porém - a opinião dos colegas pianistas Harold Danko, Don Friedman e a do próprio John Hicks, em vida, quando indagados, afirmavam - sem piscar os olhos e gaguejar a fala - que Kirk Lightsey é o grande pianista da sua geração. Para juízo dessa afirmação pelos visitantes deixo a faixa "Four in One" (de Thelonius Monk) com Kirk Lightsey ao piano, Tibor Elekes no contrabaixo acústico e Famoudou Don Moye na bateria - retirada do cd "Goodbye Mr. Evans" lançado em 2004 pelo selo Evidence.

13 comentários:

John Lester disse...

Excelente resenha Mestre Edù. Lembrei do amigo Harold Mabern. Grande abraço, JL.

edú disse...

Prezado Lester,
uma das definições recentes q li a respeito de Lightsey foi : um dos grandes pianistas q vc dificilmente ouvirá falar.De nossa parte e seu inestimável suporte, tentamos dar mais “eco” na reversão desse desconhecimento.Por comentário de Mestre José Domingos Raffaelli no blog do Èrico,soube q outro músico de jazz sofre dificuldades legais. O trompetista Donald Byrd sofre ação do fisco americano pela ausência de recolhimento de impostos nos ultimos cinco anos.Em sua defesa, segundo Mestre Raf, Byrd alega q a utilização indiscriminada de downloads sobre sua obra e a conseqüente mirrada vendagem de seus discos o fazem inadimplente para saldar seus débitos.

Érico Cordeiro disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Érico Cordeiro disse...

Duas coisas se destacam nas resenhas escritas por Mr. Edú:
o conhecimento enciclopédico e a fluidez do texto. Lêem-se seus escritos de um fôlego só e pode-se perceber a angústia e o desespero do pianista, ao ser submetido a uma situação kafkiana.
E se Danko e Hicks, companheiros de geração,afirmam a excelência do toque de Mr. Lightsey, essa opinião se confirma com a execução assombrosamente bela de "Four In One". E muito boa a lembrança de Harold Mabern - ouço-o neste exato momento, no excepcional disco "All The Gin Is Gone", do maravilhoso Jimmy Forrest
A listinha agora ganha ares de lista telefônica!
Abraços a todos.

John Lester disse...

John Lester, nascido e criado no Morro do Alemão, fraterna comunidade afrocarioca, desde cedo aprendeu a lidar com situações kafkianas, desde o Escândalo do Cuscuz, famoso caso em que Lester foi acusado de preparar cuscuz sem adicionar coco ralado. Desde então, o artista tem sido monitorado pelos principais órgãos de inteligência do mundo civilizado.

Talvez daí sua paixão e simpatia pelo jazz, arte que conta com o maior número de suspeitos, indiciados e condenados em suas fileiras. Art Pepper que o diga.

Grande abraço, JL.

Marília disse...

Amo muito tudo isso. Bju!

figbatera disse...

Beleza de resenha, edú!
Mais um "desconhecido" músico que os mestres do Jazzseen trazem à tona.

Kevin disse...

A Manhattan Criminal Court judge refused a defense request yesterday to dismiss a jostling charge brought against Kirk Lightsey, the jazz pianist.

The judge, Mary E. Bednar, adjourned the case until Dec. 16.

Mr. Lightsey's lawyer, Hudson Reid, had asked for the misdemeanor charge to be dismissed on the basis of Mr. Lightsey's ''good character.'' The 49-year-old musician has no criminal record.

Assistant District Attorney Lanny Breuer told Judge Bednar that he had received the case yesterday morning and had not met with the two transit police officers who arrested Mr. Lightsey Nov. 7.

Mr. Lightsey is accused of placing his hand on a woman's purse, intending to steal from it, while boarding a subway train at the Union Square station in Manhattan. Mr. Lightsey, who was held for 27 hours after the arrest, missing two concert appearances, has denied the charge.

Andre Tandeta disse...

Parabens,Edú.
O Jazzseen realmente se torna o blog de jazz mais interessante dos que existem no Brasil,sem diminuir os outros,claro,pois é com muito esforço ,dedicação e amor ao jazz que todos são feitos. Infelizmente alguns perderam a vivacidade que por aqui é o que mais vemos,felizmente.
Dito isso vamos a resenha:
Edú é um especialista em pianistas e em trios. Sua escolha dessa vez é totalmente coerente com a linha do Jazzseen de mostrar os excelentes musicos que não são tão conhecidos.
Lightsey esteve no Brasil no começo da decada de 80 tocando com com Dexter Gordon. Pelas minhas memorias,apesar do HD detonado e ja fora da garantia, ele é impressionante . A gravação aqui postada confirma a altissima categoria dele. Vocabulario de bebop maravilhoso ,fluente e super swingado. Tipico dos pianistas de Detroit aqui citados,todos Mestres. Vou dar uma pesquisada e correr atras pois gostei muito mesmo dessa amostra.
como curiosidade:
Famoudou Don Moye é o baterista e percussionista do historico grupo Art Essemble Of Chicago. tive a oportunidade de ve-los no antigo Free Jazz Festival em 2000 e confesso que o queixo caiu. É claro que era outro contexto mas o importante é que é um super musico. Poucos bateristas eu ouvi ao vivo que tiravam um som tão bonito do instrumento quanto ele.
Edú e Mr. Lester;
essa semana entrante seguem os CDs do Victor Biglione devidamente autografados por ele ,pelo Sergio e por mim.
Abraços

John Lester disse...

Prezado Mr. Tandeta, obrigado pela visita e aguardo o cd muito especial.

Grande abraço, JL.

edú disse...

Agradeço a presença de tão bem informados visitantes e amigos.Kevin pormenorizou informações q eu desconhecia anteriormente e achei ,por acaso, na evolução da pesquisa infelizmente fora dos limites das páginas dedicadas ao jazz .Tandeta acertou em cheio a respeito do baterista Famoudou Don Moye.Segundo o encarte do álbum q usei, Moye não tem tanta receptividade com a estrutura em trio – utilizada pelo cd.Mas abriu exceção em consideração a Lightsey.Ambos participaram de um grupo, nos anos 80 e 90, de enfoque mais “free” chamado “The Leaders” q combinava atuação performática teatral e execução instrumental ao lado do trompetista Lester Bowie,os saxofonista Arthur Blythe , Chico Freeman e o baixista Cecil Mc Bee.

John Lester disse...

Gostaria que Mr. Bravante nos convidasse a revisitar o free, aqui tantas vezes bem apresentado pelo amigo catalão.

Grande abraço, JL.

Salsa disse...

Sonzão. A rapaziada não dá mole - mergulham fundo para catar pérolas.