08/07/2009

Buridan's ass

Não, não é isso. Foi no Cactário da Madalena que John Lester colocou-me diante da mais profunda dúvida: jazz ou música clássica? Fiquei absolutamente estático, sem condições de responder, assim como o asno de Buridan que, diante de dois maços de feno absolutamente idênticos, colocados à mesma distância, morreu de fome por não conseguir decidir qual deles comer. Estávamos sentados num dos bancos da abandonada praça Euclides da Cunha, em Recife, observando o lindo jardim de cactos projetado por Burle Marx em homenagem ao grande escritor, que o paisagista tanto admirava. Curiosamente, eram exatamente as plantas típicas da flora brasileira que chamavam mais a atenção dos transeuntes, que as consideravam extremamente exóticas e debatiam animadamente sobre de qual país distante teriam vindo. Enquanto tentava responder à pergunta de Lester, se jazz ou clássica, o amigo lembrava as sábias palavras de nosso arquiteto das plantas: “Ritmo não é repetição, é uma questão de relação de uma forma com a outra, um espaço com o outro, uma textura, uma superfície, uma cor com outra. As plantas devem ser relacionadas. É possível, inclusive, relacioná-las botanicamente num jardim. Este será uma entidade em constante transformação, porém, se contiver dentro de si mesmo as razões de ser como é, se todas as partes se relacionarem, então haverá sempre harmonia”. Percebi imediatamente que a citação tinha algo a ver com a solução de minha dúvida e, após caminharmos sob a falsa sombra das palmas, eliminei a charada: entre o jazz e a música clássica, fico com os dois! Ato contínuo, Lester retira de sua velha mochila de couro asinino um exemplar do álbum P Tchaikovsky In Jazz, do pianista russo Sergey Zhilins, dizendo: toma, é seu! Emocionado, ouvi Lester contar que Sergey nasceu em 23 de outubro de 1966, em Moscou, estudando no Conservatório de Moscou. Embora tudo indicasse que o virtuoso aluno seguiria uma carreira segura como pianista clássico, a paixão pelo jazz falou mais alto.Em 1982 ingressa no Musical Improvisation College e, um ano depois, organiza a Phonograph Jazz Band, instituição capaz de responder às mais variadas demandas, desde o Dixieland até o bebop, passando pelo swing ou pelo cool jazz. Na década de 1990 Sergey inicia suas turnês, começando por Israel. Em 1994 chega a tocar com o presidente Bill Clinton que declarou ter sido um prazer participar de uma jam session com o maior pianista de jazz da Rússia. Desde então vem se apresentando no ocidente com freqüência, sendo bastante aplaudido nos EUA, Itália, Suécia, França e Alemanha. Além das atividades de instrumentista e arranjador, Sergey tem atuado como diretor musical, apresentador de programas de rádio e organizador de projetos diversos que, além do jazz, promovem o blues e o rock. Para os amigos fica a faixa Декабрь (dezembro) , retirada do álbum em comento, gravado em 2005. Para aqueles que ainda não se decidiram, recomendo a leitura do excelente Choice Without Preference: A Study of the History and of the Logic of the Problem of Buridan’s Ass, de Nicholas Rescher. E sobre os jardins de Burle Marx, nada como o memorável Roberto Burle Marx 100 anos: a permanência do instável, lançado pela Rocco.

17 comentários:

Paula Nadler disse...

Tobias, adorei o quadro e a música. Beijos!

Tobias Serralho disse...

Querida Paula, obrigado pela visita.

edú disse...

Se os russos fizeram a melhor literatura do século XX, não se surpreendam se fizerem o melhor jazz do século XXI.

Érico Cordeiro disse...

Caro Tobias,
Obrigado pela visita no JAZZ + BOSSA. Repito aqui o que disse lá: não nos deixe tanto tempo sem o seu texto fluido, inteligente e cheio de informações.
Belíssimo pianista (e o baixista é simplesmente maravilhoso) - a listinha acaba de aumentar mais um pouquinho.
Pianista russo de ótima cepa, da mesma estirpe do Zhilins é o Eugene Maslov, de quem possuo apenas um cd, o ótimo The Fuse Is Lit - creio que o Edú está corretíssimo.
Um fraternal abraço!!!

Salsa disse...

Eu descolei um disco de um pianista russo (o nome me escapa) muito interessante. Não postei ainda devido ao fato de as notas estarem escritas naquele estranho alfabeto russo (cirílico?).
A promessa é boa. O jazz que veio do frio, parafraseando o filme de Bond.

Tobias Serralho disse...

Augustos navegantes, notem como Érico destacou bem os serviços do contrabaixista. Concordo com ele.

Saudações, TS.

Carioca da Vila. disse...

Glorioso ano de 1966...!

Como sempre, Mr.Lester e seus colaboradores nos proporcionam excelentes textos e informações, Tobias serralho não foge à regra...
Muito bom começar o dia com o Jazzseen.
O contrabaixista é realmente muito bom, sendo, ao lado do piano,dos meus instrumentos preferidos.

John Lester disse...

Vetusto Mr. Serralho, grato por mais um seu diminuto fragmento de memória. Bons tempos hein?

Grande abraço, JL.

Andre Tandeta disse...

Muito bom o pianista.
Dois comentarios,talvez irrelevantes:
1)o baixista é bom sim e toca baixo eletrico
2)o baterista é igualmente bom mas toca nesse estilo "muderninho" de baterista de jazz com som de bateria de rock, tipo Dave Weckl.
Ressalto o valor do pianista russo com seu estilo exuberente e extrovertido.
Abraço

John Lester disse...

Prezado Tandeta, já estávamos sentindo sua falta. E o Barril?

Grande abraço, JL.

Andre Tandeta disse...

Mr Lester,
apesar de bastante ocupado encontro uma brecha para ca estar.
Barril:
esse mes de julho fizemos uma troca com o grupo que toca as sextas e estaremos tocando nos dias 11(sabado),17,24 e 31(sextas).
Se vier ao Rio me ligue ou mande um email para que eu possa preparar uma recepção à altura.
Abraço

Celijon Ramos disse...

Jazz e música clássica já deram panos pra mangas. Que o diga o grande filósofo Adorno. É bom saber desse bom pianista Russo que ouvirei com atenção. Cá com meus botões, acho que na música aberta de Mahler tem muito de possibilidade para desenvolvimentos jazísticos.

Tobias Serralho disse...

Augusto Celijon, obrigado pela visita e pelas estimulantes palavras. Observei seu blog e confesso que pocos locais virtuais concentram tanto bom gosto. Qunato a Mahjer, sinto dizer que sempre dormi durante as tentativas de ouvir-lhe integralmente uma sinfonia. Tentarei câmera.

Saudações, TS.

Jade disse...

Tic,tic.

Celijon Ramos disse...

Eu é que agradeço o incentivo e a oportunidade de conhecê-lo e, assim, aumentar meus conhecimentos, além de fazer novos amigos.

Um abraço!

Marília disse...

Adorei cada pincelada na tela e cada nota percutida ao piano! Obrigada TS!

Frederico Bravante disse...

Acho que os russos deveriam continuar apenas escrevendo. Deixem o jazz com Oscar Peterson.