04/08/2009

De coração aberto, Monge!

Pois que no Clube das Terças, há uma semana, conversávamos sobre pianistas de jazz - e, claro, a figura enevoada de Thelonious Monk, o monge louco do piano, pairou suave até estacionar numa das cadeiras do Centro da Praia. Por ali ficou. Falamos sobre predileções. Meu querido amigo Reinaldo Santos Neves boquiabriu-se quando afirmei que minha composição favorita de Monk é Something in Blue, uma faixa um tanto esquecida contida numa espatacular coletânea intitulada The Complete Black Lion and Vogue Recordings of Thelonious Monk. O disco - triplo - foi um presente de meu outro grande amigo, John Lester, comandante-em-chefe do Jazzseen. Grande conhecedor que também embasbacou-se: imaginou que eu estaria entre aqueles que veneram Blue Monk, Misterioso e ‘Round Midnight. Enganou-se. A coletânea traz dois Monks: um de 1954, sentado em banquinhos da gravadora francesa Vogue, em solo só, só dedos; outro, em 1971, ao lado de uma inspirada bateria de Art Blakey, e de um contrabaixo estimulante de Al McKibbon. Apesar dos sidemen de primeiríssima, fico com as gravações solitárias - e é justamente uma delas que se chama Something in Blue, a escolhida. (E por falar em escolhida, é no ano de 1954 que Monk, em Paris, mantém contato com - e é escolhido por ela - Pannonica de Koenigswarter, ou simplesmente Pannonica, baronesa e mecenas musical que, em breve, merecerá uma postagem só dela). Há os que amam a música de Monk porque vêem (e ouvem) nela a impetuosidade percussiva aliada a dissonâncias inovadoras que transformaram a harmonia do jazz que, para muitos, nunca mais foi o mesmo após o trio Parker-Gillespie-Monk. Não comungo dessa erudição. Ou, por outra: não vou por esse caminho espinhoso. Prefiro ouvir Thelonious Monk com o coração aberto - ou seja: ouvir aquele que massageia as vértebras de um Steinway & Sons e produz um dos sons mais líricos e límpidos do jazz. E ponto e fim. O disco em questão traz 35 faixas, entre gravações definitivas e alternate takes. Something in Blue está lá, 6 minutos e 37 segundos, quinta faixa do segundo cedê. E, apesar do título ambíguo, enche de alegria qualquer coração.

26 comentários:

John Lester disse...

Piano solo não é para qualquer um não. Monk que o diga.

Não estive nessa reunião e, portanto, não tive oportunidade de reclamar da grande barulheira que Blakey faz nessas gravações. Ainda bem que Monk sabia impor suas teclas sobre as baquetas, mesmo as mais audazes.

Grande abraço, JL.

JoFlavio disse...

Mr. Grijó
Acompanho a carreira do Monk desde o início da década de 60. Não só como pianista, mas principalmente como compositor. Monk chegou a ser considerado um "pianista menor", talvez pela técnica pobre, que até o impossibilitava de tocar em "up tempo" - se comparado, por exemplo, a um Oscar Peterson, Herbie Hancock, Chick Corea, etc. Era nítido o esforço dele em tocar. Sim, como consolo, foi criativo harmonicamente. O grande legado de Monk está nos temas que compôs, de certo modo revolucionários para a época. Como pianista, em minha opinião, não fez escola.

John Lester disse...

Bem, não há dúvida sobre ser Bud Powell o 'verdadeiro' pianista do bebop, assim como o saxofonista e o trompetista do bebop são, respectivamente, Charlie Parker e Dizzy Gillespie. E, vale notar, foi Monk quem levou Bud ao Minton's Playhouse, manjedoura do estilo que revolucionou o jazz nos anos 1940. Sabemos bem que Monk, talves pelas razões expostas por JoFlavio, abandonou o movimento e partiu em direção inusitada, construindo um 'estilo' personalíssimo que dificilmente poderia ser anexado ao bebop padrão.

Com ou sem limitações técnicas, capaz ou não de executar velozmente os acordes complexos do bebop, o fato é que Monk construiu sua reputação por conta própria, martelando estranhamente as teclas de seu instrumento e seduzindo toda uma geração de ouvintes e músicos.

Se fez escola? Bem, sei apenas que, salvo Coltrane, Monk é um dos mestres que mais têm recebido tributos de gerações posteriores. Suas composições estão aí, ainda hoje, nas mãos dos jovens músicos e nos ouvidos de quem aprecia o bom jazz.

Seria Monk um Miles Davis, limitado e usurpador? Creio que não: para mim, Monk foi um gênio, enquanto Miles foi um aproveitador de talento alheio.

Grande abraço, JL.

JoFlavio disse...

Caro JL
Scott Yanow comenta sobre Monk:"The 1945-1954 period was very difficult for Thelonious Monk. Because he left a lot of space in his rhythmic solos and had an unusual technique, many people thought that he was an inferior pianist. His compositions were so advanced that the lazier bebop players (although not Dizzy Gillespie and Charlie Parker) assumed that he was crazy." E reforço que apenas como compositor ele fez a diferença em sua época. Isso não se discute. Seus temas continuam explorados pelos novos talentos do jazz. Abraços.

PS. Quem mora em Vitória do Jazzseen? Tenho novidades.

John Lester disse...

Prezado JoFlavio, Monk é o tipo de artista que merece uma Resenha, com r maiúsculo. Vamos providenciar!

Integrantes do Jazzseen que moram na Grande Vitória somos apenas eu e Grijó.

Mas por aqui há o Salsa, desertor que nos trocou pelo salário milionário pago no Jazzigo ( http://jazzigo.blogspot.com/ ) e os sócios do Clube das Terças, todos interessados em novidades.

Grande abraço, JL.

Andre Tandeta disse...

Mr. Lester e Colega de instrumento JoFlavio,
interessante discussão e muito bons os argumentos apresentados por ambos.
Monk é certamente um capitulo a parte na historia do jazz,como compositor e como pianista. Eu acrescentaria que mesmo sendo reverenciado ate hoje por musicos de jazz de todo o mundo e de varias gerações ,Monk não fez escola nem como pianista nem como compositor. Alias é preciso dizer que justamente isso é que o torna unico e atemporal. Genios são assim.
Todos os musicos de jazz importantes de certa maneira tiveram seguidores,ou seja criaram escola (Parker e Gillespie,citadosporMr.Lester ,por ex.).Monk tem interpretes. Recomendo o CD do pianista Fred Hersch tocando composições de Monk.
Um adendo sobre o bebop: no bebop as inovações foram mais melodicas que harmonicas. No caso da harmonia o que mais mudou foi o ritmo harmonico,mais acelerado, procurando colocar os encadementos II-V-I ("two-five",no jargão) onde antes haveria um só acorde. Os acordes utilizados eram um pouco mais complexos com utilização de tensões e alterações especialmente nos acordes dominantes(nonas,menores e aumentadas,decimas primeiras aumentadas e decimas terceiras)em função justamente dos cromatismos caracteristicos das linhas melodicas do bebop.Espero que tenha ficado claro, a intenção não era ser pedante , apenas acrescentar .
Abraço

John Lester disse...

Prezado Mr. Tandeta, muito obrigado pelos esclarecimentos técnicos.

Cheguei a sentir saudades das aulas de topologia aí no Horto.

E logo eu, que sempre pensei que o improviso no bebop se caracterizasse pela adição, alteração e criação de progressões de acordes a partir de um acorde dado (normalmente o acorde original da canção-tema), sendo que alguns professores de jazz, como Mark Gridley, chamam isso de 'substitution' ou 'reharmonization'.

Na verdade, sempre pensei que a melodia original importava muito pouco nesse processo, considerando que, ao longo da improvisação, temos o afastamento cada vez maior da progressão de acordes original.

Lembra do flatted fifth com que Gillespie termina sua versão de Shaw Nuff, em 1945?

Grande abraço, JL.

edú disse...

Peço licença para citar as palavras de Zuza Homem de Mello após assistir todos os dias das seis semanas de Thelonius Monk com John Coltrane no Five Spot Cafe em 1957 em NY. "Sua mão esquerda derivava francamenente do estilo stride piano, o mesmo de Duke Ellington e Fats Waller, nada de acordes blocados e fechados como um cacho.Duas ou três notas bastavam.Com a mão direita fazia frequentes arpejos com apenas três dedos, desprezando o anular e o mindinho, numa anti-técnica pianística em favor da expressividade percussiva".

Andre Tandeta disse...

Mr Lester,
tentando clarear um pouco,ate pra mim mesmo:
o bebop é um estilo de jazz que se caracteriza pela inserção de notas cromaticas entre as notas da escala diatonica.Quando falei em linhas melodicas do bebop estava me referindo aos improvisos e não as melodias originais,o Sr tem razão,para o improvisador a melodia da composição soma muito pouco , no bebop o que importa para o improvisador é a harmonia. Esse é o ponto central de toda a evolução que veio com o advento do bebop .A harmonia usada para tocar um determinado tema é a mesma durante toda a execução desse tema,dure ele quanto durar. Não ha um afastamento da harmonia o que ha é a criação de melodias, improvisadas no calor do momento, usando-se essas tecnicas de inserir notas cromaticas entre os graus da escala diatonica,como diz o Victor Biglione "dar volta nas notas". Essa é a ideia basica do bebop. Por isso falei que as inovações do bebop eram mais melodicas que harmonicas.
Essa é uma explicação muito simplificada,no"osso" ,digamos assim mas creio que da uma ideia do que é o bebop. Ha muitas outras coisas envolvidas mas são consequecia justamente desse uso de notas cromaticas entre os graus da escala diatonica.
Abraço

Andre Tandeta disse...

Lendo o que escrevi acima achei melhor fazer uma acrescimo.
Apesar de o bebop mudar o foco do solista da melodia da composição para sua harmonia isso não fez com que houvesse uma grande mudança na concepção harmonica.
Os solistas passaram a se basear unica e exclusivamente na harmonia dos temas que estavam tocando para criar suas melodias improvisadas. Harmonia essa que passou a ter o chamado ritmo harmonico mais intenso pela substituição de acordes por encadementos II-V("two five")o que aumentava muito as possibilidades criativas. Mas não significa uma grande mudança em termos de concepção harmonica pois essas substituições não mudavam radicalmente a harmonia das composições,fosem standards ou composições originais.
Espero estar acrescentando com essas explicações.
Por coincidencia,Mr. Lester,eu cursei 2 semestres de matematica na Puc,aqui do Rio.Larguei porque ja tocava profissionalmente e o chamado da musica falou mais alto.
Mas não ha duvida que são duas coisas que tem muito a ver,musica e matematica.
Abraço

edú disse...

O saxofonista Anthony Braxton tem formação em matemática,além da musical, e defende essa mesma teoria.

John Lester disse...

Mais uma vez, obrigado Mr. Tandeta. Quem sabe, um dia, compreenderei bem essa estória de progressão de acordes, harmonia e semifusas. Como você sabe, fui expulso do curso de Música da UFES.

E obrigado também a Mestre Edù, por suas intervenções sobre Monk. É aquela coisa: avaliar a técnica de Monk tendo por base o virtuosismo técnico de um Art Tatum seria o mesmo que avaliar a pintura de um Van Gogh tendo por base o domínio de luz e sombra de um Caravagio. Não funciona.

E, no entanto, não troco um solo de Monk e um girassol de Van Gogh por toda a obra de Tatum e Caravagio.

Jazz é isso, ou não?

JoFlavio disse...

Caro JL.

Mantenho faz tempo uma amizade estreita com o pianista, arranjador e compositor
Marcos Resende, hoje sócio-proprietário de um dos espaços mais elegantes e charmosos do Rio de Janeiro, “Cais Do Oriente”. Marcos aliás foi o responsável pelo show que produzi, via CJUB, no Mistura Fina, quando prestei homenagem ao compositor norte-americano Richard Rodgers. Pois bem. E ele me ligou semana passada, todo animado, pois vai se apresentar em Vitória (ES) nos dias 18 e 19 próximos. Inicialmente em show solo de piano. Em seguida, com um quinteto, na minha opinião, acima de qualquer suspeita: Paulinho Trumpete (trumpete, claro), Vidor Santiago (sax), Sergio Barrozo (baixo) e Paulinho Braga (bateria), além de uma participação especial da cantora francesa Manu Le Prince. Essa apresentação seria no espaço chamado Spirito Jazz, salvo engano. Estou me organizando para estar presente.
Abraços.

Andre Tandeta disse...

Mr. Lester,
o curso de Musica da UFES deve ser um lugar muito pouco interessante.
Quem sabe em algum momento o Sr não retoma seus estudos de musica de maneira informal? O Sr. não toca clarinete ? Acho que o Sr. e todos os amigos que ja ouvem jazz ha muitos anos não teriam dificuldades em aprender ,um pouco pelo menos, dos principios teoricos e tecnicos da musica. Acho que iriam gostar.
Abraço

edú disse...

Marcos Resende talvez aproveite a passagem pelo ES e escolha alguns temas de seu cd dedicado ao eminente capixaba RC.Prefiro um lpzão de vinil q resiste indômito do selo Ariola em parceria com o saxes de Nivaldo Ornelas.O brilhante grupo do Paulinho Trumpete deve navegar em Vitória na onda do disco recente dedicado aos temas do Durval Ferreira.As referencias desse trabalho são ótimas.Esta na listinha....Mano velho, Lester tem convivência harmoniosa com o sax alto.

John Lester disse...

Prezado JoFlavio, seria um prazer recebê-lo aqui em Vitória. Caso venha realmente, entre em contato comigo: johnlestervix@hotmail.com

Não é todo dia que Vitória recebe músicos desse calibre. Creio que farei minha primeira visita ao Spirito Jazz, casa que, até onde sei, tem apresentado bandas de calipso e similares, o que tem me mantido afastado de lá.

E, Mestre Edù, não sabia que Rogério Coimbra havia sido homenageado por Marcos Resende. Tenho o privilégio de ser amigo de Rogério faz 15 anos.

E, Mr. Tandeta, na verdade, fui jubilado por faltas da eminente instituição, cujo campus florido apresentava espécimes responsáveis por minha ausência em sala de aula. Restou-me um velho sax Yamaha, alto, e a vontade, grande, de tocar como Parker.

Grande abraço a todos, JL.

edú disse...

O sr.Coimbra homenageou,sim, Sarah Vaughan na ocasião em q foi um dos produtores da passagem da diva do jazz por Vitória em 1978.O homenageado por Marcos Resende em cd foi aquele outro RC nascido em Cachoeiro de Itapemirim, mora, bicho?

John Lester disse...

Prezado Mestre Edù, quando estive preso em Guantanamo, por crimes hediondos cometidos contra a economia norte-americana, conheci o fornecedor de canabis sativa de Mrs. Vaughan. Rogério Coimbra e Max Roach, sim ele esteve por aqui também, dizem que era 'daboa'.

Eu, que sempre bebi vinho, não saberia dizer.

Grande abraço, JL.

JoFlavio disse...

Caro Edù

A homenagem do Marcos ao RC deve-se a um outro detalhe. Acontece que ele é também nascido em Cachoeiro de Itapemirim e na época quis prestar homenagem a um ilustre conterrâneo da música. Sobrou o RC. Mas o CD importante do Marcos foi gravado em Copenhagen, ao vivo, num festival de jazz de lá,ao lado do ótimo contrabaixista Mads Vinding e do baterista Nils Vinding. O nome do disco: About Jobim And Other Masters. Se bem que acho muito dificil achá-lo no mercado brasileiro.Outro CD sensacional do Marcos é Nonchalance, com um time de músicos brasileiros da pesada. Raridade por aqui idem, além de um terceiro, Late Passenger, uma experiência fusion.
Abraços.
Abraços.

Carioca da Vila disse...

Não esquecer que Mr.Lester é matemático tb...

A forma com que Monk coloca os dedos no teclado é, para mim, impressionante!
Como toda garota da família,tive aulas de piano ( mas a falta de talento não deixou que fosse muito longe...)e a posição das mãos,obrigatória, toda redondinha, vejo agora, não tem a menor importância, o que vale é o talento, o gênio de um Thelonious!

edú disse...

Prezado professor José Flávio,

a hierarquia dos celebres músicos do ES ranqueia Carlos Imperial,Roberto Menescal,Nara Leão,RC e Salsa.Espero, sinceramente, pela bela amostra do lp q possuo no qual Marcos ombreia grande trabalho ao lado de Nivaldo Ornelas, o pianista limite próximas homenagens apenas às figuras de Menescal e o fundador do Jazzseen - Salsa.O sr. Coimbra poderia esclarecer se foi em Vitória q Sarah aprendeu a tomar a intragável mistura de conhaque com coca cola(seu drink de cabeceira).Abraço.

HYJ disse...

"O negocio é dar dois,
o negocio é dar dois,
e esse papo furado podemos deixar pra depois(que o negocio é dar dois)"
Samba do antigo bloco "Charme da Simpatia",de Santa Teresa,30 anos atras ,mais ou menos.
Amplexos fumegantes

John Lester disse...

Percebo a chegada de novo visitante, oriundo das sinuosas ladeiras de Manuel Bandeira.

Seja bem-vindo amigo.

JL.

JoFlavio disse...

"Preclaro" Edù
Incrível como você tem (aparentemente) as mesmas opiniões de meu grande amigo aqui de Londrina, Miguel. Assim sendo, permito-me compará-lo como tal, um grande amigo. Abraços.

edú disse...

Prezado professor José Flavio,

não cabulo suas aulas no Cjub.Sempre um frequente e agradável aprendizado, de nada hercúleo.Bom final de semana.

melissa disse...

Mas quanta deselegância com Mr. Grijó!!!!!

Uma resenha com "R" maiúsculo? Esta, pelo jeito, é uma resenha com letras minúsculas...muito bem!