14/03/2010

Parlendas

O sentido de ritmo aflorou cedo em John Lester. Ainda criança, saltava animadamente de um lado para o outro ouvindo as parlendas que Vovó Tícia entoava toda manhã, enquanto passava o café. Ele adorava esta: “Pinto pelado/Caiu do telhado/Perdeu uma perna/Ficou aleijado”. Vovô Acácio, lá da biblioteca, respondia com suas impagáveis travas-línguas, do tipo: “No morro chato, tem uma moça chata, com um tacho chato, sobre a cabeça chata. Moça chata, esse tacho chato na sua cabeça chata é seu?” Ou “Farofa feita com muita farinha fofa, faz uma fofoca feia”, ou ainda "Tem uma tatu-peba, com sete tatu-pebinhas. Quem destatupebá ela, bom destatupebador será”. Nós ríamos a valer e a felicidade de Lester era flagrada em suas tronejantes gargalhadas. Domingo, depois do café, era sempre a mesma coisa: Vovô Acácio corria sorrateiro para a biblioteca, antes que Vovó Tícia o recrutasse para alguma terrível tarefa doméstica, como podar os flamboyants, espantar os pombos ou colher jenipapos para a jinjibirra que Vovó Tícia preparava religiosamente para o desjejum dominical do padre Jesuíno Brilhante. Escondidos na saleta, ouvíamos Vovô Acácio contar que a parlenda está para Dostoiévski assim como Ray Conniff está para o jazz: veja só esse álbum de sua avó, Just Kiddin’ Around, lançado pela Columbia em 1963, um verdadeiro Paulo Coelho do jazz! Sua avó adora e, no entando, nem créditos apresenta. Sabemos apenas que conta com a participação do trompetista Billy Butterfield, esse sim um excelente instrumentista. E Vovô prosseguia: Não que Ray Conniff não tenha sido um bom trombonista. Nascido no dia 6 de novembro de 1916, em Attleboro, Massachusetts, desde cedo mantém contato com a música, graças ao pai trombonista e à mãe pianista. Quando estudante, liderou a banda do colégio. Mais tarde, segue para Boston, onde trabalhou com Dan Murphy. Em meados da década de 1930, no auge do Swing, parte para New York, onde trabalharia como arranjador e trombonista nas orquestras de Bunny Berigan, Bob Crosby, Artie Shaw e Glen Gray. Em 1941, quando os EUA resolvem investir na Segunda Guerra, Ray é recrutado, sendo Hollywood o local mais perigoso em que serve, atuando como arranjador da Armed Forces Radio. Após a guerra, Ray passa um breve período com Harry James, mas, com o advento do Bebop, perde o interesse pelo jazz e resolve estudar teoria e regência até que, em 1954, é contratado pela Columbia, onde produz uma série de arranjos de grande sucesso para cantores populares. Como prêmio, em 1956 recebe da gravadora autorização para produzir ‘S Wonderful, álbum instrumental muito bem recebido pelo grande público. A fórmula de sucesso desenvolvida por Ray persevera até meados da década seguinte, quando o surgimento do Rock & Roll reduz drasticamente as vendas de seus álbuns, salvo raras exceções, como foi o caso de Somewhere My Love, álbum que contém Lara’s Theme, famoso tema do filme Doctor Zhivago. Com seus arranjos encantadores, coros sutis e instrumentação suave, Ray estabeleceu os rumos daquele estilo que viria a ser conhecido como Muzaky e, mais recentemente, como Easy Listening, não podendo ser enquadrado nem mesmo nas molduras do Crossover ou do Smoth Jazz. Mas Vovó Tícia não queria conversa: colocou seu velho lp no toca-discos e selecionou a faixa You’ll Never Know, enquanto Vovô Acácio resmungava que o álbum era tão vagabundo que nem fornecia informações sobre os músicos. De repente, estávamos todos sentados na varanda, esperando que as nuvens passassem lentamente sobre nós.
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"Cadê o toucinho que estava aqui?
- O rato comeu.
Cadê o rato?
- O gato comeu.
Cadê o gato?
- Fugiu pro mato.
Cadê o mato?
O fogo queimou.
- Cadê o fogo?
- A água apagou.
Cadê a água?
- O boi bebeu.
- Cadê o boi?
- Está moendo trigo.
Cadê o trigo?
- O padre comeu.
Cadê o padre?
- Está rezando missa.
Cadê a missa?
- A missa acabou."

14 comentários:

Érico Cordeiro disse...

E não é que o rato roeu o remédio ruim do rei da Rússia, enquanto o Rei de Roma rumava a Madri?
Belo texto - me fez lembrar a infância! É, até que o Ray tem lá os seus encantos!!!!
Valeu!

John Lester disse...

Prezada Paula, obrigado por mais uma bela resenha ficcional, com algumas boas pitadas de realidade.

Grande abraço, JL.

APÓSTOLO disse...

PAULA:

Bela resenha, bela escolha de faixa e, como comenta nosso prezado ÉRICO, RC tem lá seus encantos, ainda mais para quem teve a oportunidade de dançar ao som de seus LP's.

pituco disse...

miss paula,

postagem piramidal...e creio que em toda casa havia pelo menos um disco do ray conniff...rs

abraçsonoros

thiago disse...

nunca vi um tatu-peba

Paula Nadler disse...

Queridos amigos, obrigada pelos gentis comentários. E, Lester, obrigada por autorizar o vídeo do sapo não lava o pé. Um beijo.

Roberto Scardua disse...

Apesar de não curtir Ray Conniff, a resenha vale pelas parlendas. Um abraço Paula!

Abílio disse...

Muito bom!!!

olmiro muller disse...

Ray Connif foi esperto ao aliar-se com Billy Butterfield. O disco é agradável e contém uma boa versão de Alexander's Ragtime Band (Irving Berlin).
Parabéns, Paula, pela postagem.

MaJor disse...

Maravilha, quantos bailinhos ao som de Ray Conniff, bons e belos tempos. Só quem viveu a década de 50,sabe da delícia que era.
Este LP é excelente, grande lembrança.
Mario Jorge

Andre Tandeta disse...

Senhora(ou senhorita)Paula,
excelente texto,parabens.
Acrescentaria que Muzak se tornou um estilo por causa da companhia chamada Muzak que oferecia serviço de musica ambiente(escritorios,elevadores,hoteis...). A companhia começou usando uma ideia de mandar sua programação pelos cabos da eletricidade e assim não era como uma emissora de radio.
Na sempre pouco confiavel wikipedia podemos ver informações sobre essa historia:http://en.wikipedia.org/wiki/Muzak_Holdings.
E ha tambem o site da propria Muzak:
http://www.muzak.com/muzak.html
Agora fui la e esta tocando uma seleção de country meio pop adocicado,insuportavel totalmente.
Abraço

Carioca da Vila disse...

Êêê saudade...!
De parlendas, de vovô e de vovó, de Ray Conniff...

figbatera disse...

Pois é, Ray Coniff não tocava jazz; mas como já disseram outros aqui, quem com mais de 50 não irá se lembrar de seus discos?
O que eu já rodei nos salões de dança ao som dos seus discos...
Uma delícia!

HotBeatJazz disse...

Ô¬Ô

A parlenda foi ótima, agora o RC foi o responsável primeiro por eu odiar os domingos. Todo santo domingo eu tinha q aturar meu velho pai ouvindo TA TA RARA, TA TA TA TA TA TAAAARA, como era insuportável aquilo pra um jovem ligado nos Led Zeppelins e Pink Floyds...afeeeee
valeu pela volta a infância!

Ô¬Ô