03/07/2011

Jazz criollo - Cafés e lojas de CD



Em nossa última viagem a Buenos Aires, em fevereiro de 2011, pudemos constatar que nem só de livrarias e bifes de chorizo vive a capital argentina. Em cada boa esquina você encontra agradáveis cafés, alguns deles centenários, como é o caso do lendário e pouco comentado Café de Los Angelitos, situado na Av. Rivadávia, 2.100. Inaugurado em 1890 pelo italiano Bautisto Fazio com o nome de Bar Rivadavia, o local com piso de terra e instalações precárias virou ponto de encontro da malandragem da época, reunindo uma série de payadores, espécie de repentistas, poetas improvisadores que, acompanhados ao violão, desafiavam-se uns aos outros, entre eles Gabino Ezeiza, Higuito Cazon e Jose Betinotti.



Devido à proximidade com o edifício do Congresso da Nação, o Café contava também com a frequência de muitos políticos, sempre dispostos a produzir aclamadas e infrutíferas discussões, como era o caso de figuras como Hipólito Irigoyen, José Ingenieros e Alfredo Palacios. Em 1920, ao ser adquirido pelo espanhol Ángel Salgueiro, o bar recebe seu nome atual que, segundo a lenda, faz referência à índole "angelical" de seus frequentadores, sempre vigiados de perto pela polícia. Torna-se também cada vez mais um ponto de encontro de artistas e intelectuais, como Carlos Gardel. Embora tenha fechado suas portas durante quinze anos (1992-2007), o Café de Los Angelitos voltou a funcionar, apresentando alguns dos melhores espetáculos de tango da cidade, agora com atenciosas funcionárias e instalações confortáveis para bem receber os turistas.



Já o Café Tortoni (primeira foto acima) é um clássico bastante conhecido e frequentado pelos turistas, onde é oferecido um show de tango mais estereotipado. Contudo, os bons músicos, suas instalações históricas e sua própria história valem a visita. Apesar de seu sucesso e importância, o site do café pouco informa sobre sua origem. Melhores informações podem ser obtidas no site Paralelo 35. Embora tenha sido inaugurado em 1858 pelo francês Jean Touan, é sob o comando de outro francês, Celestino Curutchet, que o Tortoni adquire seu nobre endereço atual e sua importância cultural. Diz a lenda que foram os olhos vivos de Curutchet, um homem pequeno de corpo e grande de espírito, que mantinha impecável a barbicha pontiaguda sob o casquete árabe de seda preta, que fez o sucesso do local. Talvez...

Situado na Avenida de Mayo, a meio caminho entre o Congresso e a Casa Rosada, o café era frequentado por pintores, escritores e músicos que, segundo o próprio Curutchet, se não podiam gastar muito, forneciam grande fama ao local, atraindo o público mais abastado. A forte imagem do café, portanto, foi construída ao longo de mais de cinquenta anos de dedicação de Curutchet, que esteve no comando do local até sua morte em 1925, aos noventa e sete anos de idade.



Já quanto às lojas de discos, é surpreendente o número das que ainda sobrevivem em Buenos Aires, principalmente nos bairros Recoleta e Palermo. Não faço a menor ideia de como elas competem com a internet, talvez mediante compras abusivas como as que realizei em diversas delas, do que resultaram duas boas centenas de álbuns, a maioria deles sobre músicos de jazz argentinos. Ou então sobrevivam apenas por cobrarem preços justos: o CD custa em média R$10,00. Bem, seja lá como for, para não ser cansativo, recomendarei ao amigo leitor apenas três delas: a Minton's, a Miles (Palermo) e a Notorious, esta última um misto de loja de CD, bar e casa de shows, onde se pode desembrulhar tranquilamente os álbuns adquiridos tomando um acolhedor café em seu diminuto e agradável jardim.

John Lester no jardim da Notorious, ouvindo jazz e visivelmente preocupado com a crise na Grécia.
Ele não sabia ainda, mas em poucas horas seria confrontado com um lauto chorizo e boas taças de um Catena Alta malbec 2002.


Foi lá, na Notorious, que conheci o saxofonista Piotr Baron, nascido em Wroclaw, Polônia, em 1961. Aos 16 anos já estava tocando jazz profissionalmente. Em 1984, recebe o prêmio de melhor solista no Jazz Aldia, festival de jazz em San Sebastian, Espanha. Além de trabalhar com grandes músicos da Europa, como Urszula Dudziak, Michał Urbaniak, Tomasz Stanko e Jasper Van't Hof, Piotr tem atuado também ao lado de grandes nomes do jazz norte-americano, tais como Art Farmer, Billy Harper, David Murray, Kevin Mahogany, Victor Lewis, Roy McCurdy, John Hicks, Marvin "Smitty" Smith, Kei Akagi, Joe LaBarbera, Billy Hart, David Friesen e Wadada Leo Smith, entre outros. Não bastasse, Piotr atua também como professor na Polônia e nos EUA.



Além de exímio saxofonista tenor e soprano, Piotr utiliza também com muita competência os saxofones alto e barítono, além do clarone. Nitidamente influenciado pelo Hard Bop, sua linguagem é impregnada pela música clássica e popular, o que o torna um intérprete versátil. A modernidade de seu fraseado sabe dosar com equilíbrio a técnica com a beleza, fazendo com que seus seis álbuns como líder possam ser apreciados não apenas pelos cultores do Neo-Bop, mas também por qualquer ouvinte que goste de boa música. Para os amigos deixo as faixas Tingel Tango e St. Louis Blues, retiradas do álbum Tango, gravado em 1996 para a Polonia Records. Com Piotr estão Jacek Niedziela (b) e Adam Czerwinski (d).


21 comentários:

pituco disse...

master lester,

dicas bacanudas...e blues'n tango tocado por um polonês é no mínimo sui generis...obrigadão

há um amigo virtual...tremendo músico mineiro, célio balona, que apresentou-se nessa loja de cds portenha...notorius...segue link yt

http://www.youtube.com/watch?v=z4mij3u9CYY&feature=related

o célio, inclusive, tem um arranjaço pra 'insensatez' (a.c.jobim e v.de moraes) em tango...com coreografia e tudo o mais...segue link...

http://www.youtube.com/watch?v=yFp43nLyfJ8&feature=related

abraçsonoros
ps.curti fotos...destaque para a do jardim e da vendedora de cigarros

John Lester disse...

Mestre Pituco, ouvi dizer que o cigarro faz mal à saúde...

Obrigado pelas dicas sobre o Célio. Vamos conferir.

Grande abraço, JL.

Érico Cordeiro disse...

Master Lester,
E não é que o jardim da Notorious me lembrou o aprazível jardim da Casa Bonita, onde à sombra dos olmos (eram olmos ou salgueiros? sempre confundo) o nosso amigo Frederico Bravante, turbinado por 217 taças de malbec, nos brindou com um emocionante recital de poesias de Llorca e Calderón de la Barca.
La vida es sueño, my amigo - já dizia Borges :-)
Abrazos e saludos!

APÓSTOLO disse...

Prezado JOHN LESTER:

Como bom e sábio cicerone nos conduz pela bela capital, ao som de um excelente saxofonista.
Que inveja de sua extrema tristeza com a crise grega e desse Catena 2002 ! ! !
Grato pela resenha e pela música.

APÓSTOLO disse...

Quanto ao "1º Festivel de Saxofones do Rio de Janeiro", com certeza será um sucesso e com muita qualidade; se tem IDRISS, WIDOR SANTIAGO e ORNELLAS, é nota 10.

Internauta Véia disse...

Bom, bom, bom...muito bom!

Pôxa vida...e eu longe de Buenos Aires e do Rio...que droga!

John Lester disse...

Prezado Mestre Apóstolo, só falta agora o amigo dizer que André Tandeta também participará do evento. Seria pedir demais?

É isso mesmo Mr. Cordeiro, pena que o jardim da Casa Bonita será derrubado, dando lugar à galeria do artista plástico Nardelli, nosso amigo de longa data. Tentaremos salvar os bambus e duas jabuticabeiras, se assim nos autorizar a prancheta do arquiteto.

E Mrs. Véia, o Rio é logo ali, não é?

Grande abraço, JL.

Internauta Véia disse...

Éééééé...

หคтнყ disse...

Poxa que Legal.
Quem me dera se eu pudesse visitar um desses lugares *--*

Muito legal seu blog, com o melhor conteúdo musical.
Parabéns, ti sigo

Beju
http://nathydorgas.blogspot.com/

Adilson - Rio de Janeiro - Brazil disse...

Perfeito...belissimo texto ..pbens....

APÓSTOLO disse...

Prezado JOHN LESTER:

Enviei "email" para o IDRISS perguntando-lhe sobre a "cozinha". Em resposta ele escreveu que desconhecia o Festival (???!!!...).
Informei-o que a divulgação podia ser acompanhada em seu blog e no CJUB.
Coisas desse nosso Brasil, nem sempre tão nosso.

John Lester disse...

Bem, considerando que Idriss foi ou será convidado por Daniel Garcia, esperamos que ao menos este último saiba do festival rs.

Grande abraço, JL.

APÓSTOLO disse...

Prezado JOHN LESTER:

É o que esperamos, já que tenho a possibilidade de abrir "brecha" em compromissos aquí na "selva de pedra" e ir até minha terra natal (se tal acontecer, com certeza irei assistir ao som mágico do IDRISS, do WIDOR SANTIAGO, abraçar mestre LULA, MAJOR e outros mais).
Se não puder ir, ouvirei CD's e assistirei VHS's e DVD's com o IDRISS, acompanhado de um bom vinho (o que já é um senhor programa).

John Lester disse...

Prezado Apóstolo, caso você vá, tente avisar-me com antecedência porque, neste caso, também irei. Afinal, como deixar você sozinho em tão má e perigosa companhia?

Aguardo.

Internauta Véia disse...

Eu também vou!

Nayara Borato disse...

Olá, desculpe invadir seu espaço assim sem avisar. Meu nome é Nayara e cheguei até vc através do Blog Cantinho da Júún. Bom, tanta ousadia minha é para convidar vc pra seguir um blog do meu amigo Fabrício, que eu acho super interessante, a Narroterapia. Sabe como é, né? Quem escreve precisa de outro alguém do outro lado. Além disso, sinceramente gostei do seu comentário e do comentário de outras pessoas. A Narroterapia está se aprimorando, e com os comentários sinceros podemos nos nortear melhor. Divulgar não é tb nenhuma heresia, haja vista que no meio literário isso faz diferença na distribuição de um livro. Muitos autores divulgam seu trabalho até na televisão. Escrever é possível, divulgar é preciso! (rs) Dei uma linda no seu texto, vou continuar passando por aqui...rs





Narroterapia:

Uma terapia pra quem gosta de escrever. Assim é a narroterapia. São narrativas de fatos e sentimentos. Palavras sem nome, tímidas, nunca saíram de dentro, sempre morreram na garganta. Palavras com almas de puta que pelo menos enrubescem como as prostitutas de Doistoéviski, certamente um alívio para o pensamento, o mais arisco dos animais.



Espero que vc aceite meu convite e siga meu blog, será um prazer ver seu rosto ali.

http://narroterapia.blogspot.com/

Bruna B. Felizardo disse...

Bem interessante esses lugares...
Eu adoro café e ficar em um lugar que tem história seria ainda melhor..
bom final de semana, beijos

John Lester disse...

Prezadas Nayara e Bruna, obrigado pelas carinhosas visitas.

Grande abraço, JL.

APÓSTOLO disse...

Prezado JOHN LESTER:

Infelizmente não será nesta ocasião que terei o prazer de cumprimentá-lo pessoalmente.
A saude da "patroa" está a merecer cuidados e, como diria o velho deitado, "o homem põe e DEUS dispõe".
Espero que você possa desfrutar da arte desses "monstros" e, caso consiga conversar com o IDRISS, dê-lhe meu abraço pessoal, já que os abraços virtuais sempre trocamos. O abraço pode ser extensivo ao JAMAL, filho dele e título do 2º LP que gravou (uma obra de arte).
Boa viagem e boa reportagem no retorno.

John Lester disse...

Prezado Apóstolo, é quase certo que eu não vá. Fica para a próxima!

Grande abraço, JL.

APÓSTOLO disse...

Prezado JOHN LESTER:

No portal do "CJUB" já constam 02 números com o IDRISS.
É conferir.