30/05/2006

O tal do blues

Lonnie: Compre sem medo

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Todo livro sobre jazz fala sobre blues. A maioria dos escritores, não sendo geralmente músicos, limita-se a tentar nos enrolar tecendo comentários sobre doloridas lágrimas africanas, o sofrimento, a ira e a melancolia da alma núbia escravizada. Citam depoimentos atônitos daqueles que ouviram gritos indiscerníveis que sobrevoavam campos esquecidos de algodão. Também nunca faltam referências à humilhação e ao ódio sofrido pelo povo colorido: alguns negros, em busca de libertação, suicidavam-se. Outros cantavam orações em igrejas ou clamavam por alívio ao voodoo. Outros simplesmente cantavam o blues. Alguns escribas, quando também músicos, tentam nos explicar (ou talvez confundir) dizendo que o blues é uma forma musical, composta quase sempre de 12 compassos, onde é freqüente o uso das chamadas blue notes, notas musicais instáveis que não se enquadram no temperamento usual dos 12 semitons legados por Bach. Para o desorientado leigo basta dizer que o bluesman, ao invés de utilizar as velhas e conhecidas notas DÓ RÉ MI FÁ SOL LÁ SI, passa a utilizar as notas DÓ, RÉ, MI BEMOL, MI, FÁ, SOL BEMOL, SOL, LÁ, SI BEMOL, SI. O terceiro grau blue (mi bemol) tem função exclusivamente melódica, dando aquele tom deprimente e melancólico a certas passagens do blues. O sétimo grau blue (si bemol) cumpre uma função melódica e harmônica, como que estabilizando o fraseado, além de ser bem menos sofrida que o terceiro grau. O quinto grau blue (sol bemol) é mais moderno e decorre da tendência dos músicos de jazz ao abaixamento da quinta (bemolizando a nota). Como nos esclarece brilhantemente Christian Bellest:

Enquanto o terceiro grau blue associa-se melodicamente à tônica e o sétimo grau blue à dominante sem intermediário, o quinto grau blue parece requerer, para sua resolução, um trânsito pela nota de passagem do sexto grau, a subdominante. Nota forte da escala, esse quarto grau tende, por sua vez, a resolver na fundamental (dó) através da terça maior ou, com mais frequência, menor.
Entendeu agora ?


A figura abaixo deixa claro que sempre que o quinto grau blue é utilizado como nota de ligação entre a subdominate e a terça fundamental aumentada, toda a estrutura mixolídica tende a interromper a sequência melódica determinada pela quinta diminuta, resolvendo-se ora pela aproximação da tônica de terceiro grau ou, em certos casos, afastando-se do modo dórico, opta pela atração da quarta diminuta acrescida de meio tom em relação à sexta aumentada:
Ou seja, nenhuma pessoa normal entende exatamente o que é o blues. Por isso, nada melhor para o leigo que apenas ouví-lo. Fazer como o não iniciado que, mesmo sem entender os cálculos matemáticos que o levam à Lua, limita-se a entrar na nave e verificar que, de fato, a Terra é azul.
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10 comentários:

Salsa disse...

rs,rs,rs, rs :-)
Esse papo do mestre em matemática topológica foi realmente esclarecedor. Nunca mais ouvirei blues da forma com tenho ouvido. Tocar, então... nem se fala. Vou ensaiar um fraseado blues hoje à tarde.

Salsa disse...

PS - Esse texto poderia fazer parte do seu livro.

Caio disse...

Não conhecia o blog. Os textos e dicas são excelentes. Parabéns.

Alessandra disse...

Enquanto lia, pensava: poxa, eu só quero "ouvir" o blues ! Mas eis que nosso genial Lester conclui: nada melhor para o leigo que apenas ouvi-lo. É isso aí!
Legal o texto!

Vinícius disse...

Parabéns! queria elogiar a iniciativa e o Blog e não achei um lugar apropriado, então escrevi aqui mesmo. Fiquei sabendo da existencia do Blog pelo ClubedeJazz.

É ótimo saber que existe mais uma fonte de informação sobre Jazz em português, e mais pessoas interessadas em ouvir e falar sobre esta música.

Salsa disse...

Tamos aí, Vinícius. Tentamos passar algumas impressões e informações sobre jazz (essa última fica mais pro nosso enciclopedista John Lester), mas mantendo uma certa irreverência, com o intuito de ficar mais próximo do espírito jazzístico. Seja bem-vindo. Quanto mais, melhor.

John Lester disse...

Coloque o cinto Vinícius.

JL

John Lester disse...

Prezada Alessandra, agradeço seu entusiasmo mas confesso que não há nada genial aqui no blog. Contudo, conheço escritores de verdade como Reinaldo Santos Neves e Pedro Nunes que podem oferecer muito mais prazer que estas despretensiosas linhas que eu e o amigo Salsa traçamos sobre jazz.

Saudações, JL.

Cretino , de Creta. disse...

Lester, isso é que é Blues ?
Fundi !!!! Só tomando uma Boazinha, de Salinas, a 8 conto a garrafa.É 4 conto no primeiro acorde da subdominate, e 4 conto no acorde diminuto. Aí fico todo blues.

John Lester disse...

Cuidado que tem caxassa que ao inves de deixar todo blues deixa parcialemnte dolorido ...