21/07/2006

Estranhas brisas

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Tenho sentido um certo desejo pelo moderno entre os amigos navegantes. Mr. Salsa já tem trazido suas interessantes leituras sobre o novo, embora de forma ainda bastante comedida e quase sempre associada ao rock. Eu também tenho lá meus momentos de aventura, procurando aqui e ali rastros daquilo que poderíamos denominar de jazz moderno. Afinal, há música mais moderna que a de um Mingus, de um Coltrane ou de um Hermeto? Será que temos, aqui e agora, o afastamento histórico necessário para dizer que tipo de música feita hoje é e qual não é jazz? Talvez somente o tempo nos possa responder certas perguntas, separando aquilo que é apenas joio daquilo que é de fato trigo. Em minhas precárias orelhas, percebo que o grande desafio moderno do jazz é o tratamento do ritmo: já sabemos que melódica e harmonicamente o jazz não tem fronteiras – o cerne da coisa parece estar na batida, no balanço, na escova rabiscando o prato e no dedão do pé sapecando o bass drum. Que diabo de batida é essa que faz de uma coisa jazz e da outra samba? Desde o two beats marcial de New Orleans, passando pelo dançante four beats do swing e pela superposição de tempos do intelectual bebop, até a desfiguração aparente do tempo no free jazz, algo sobrevive naquelas baquetas, naqueles dedos deslizando no contrabaixo, algo que nos indica com maior ou menor segurança que estamos nos terrenos do jazz. Depois do critério, digamos, objetivo do ritmo, parto para um critério bastante subjetivo: a beleza. O jazz moderno precisa ser terrivelmente chato e horrendo? Não podemos ter, ao mesmo tempo, aventuras e experimentos complexos e produzir música bonita? O jazz, ou a música como um todo, deve valer-se de aberrações extremamente enfadonhas e agressivas? Creio que não. Tenho encontrado músicos de jazz moderno com uma enorme capacidade de experimentação cuja criatividade não impede o nosso prazer de ouvir o novo.

Pode ser no Japão, na Noruega, pode ser um australiano, um javanês, a batida é aquela ou quase aquela, com recordações do ragtime aqui, insinuações do blues ali, algum stride acolá. E a coisa evolui. No Jazzseen Salad (acima, à direita) deixo algumas gravações de Bojan Z e do The Bad Plus. Espero que gostem. A batida está lá. Ou quase lá.

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9 comentários:

Salsa disse...

Percebe-se, logo de cara, em Set it up, traços de Monk. Agrada-me, sobretudo, a capacidade de manter aquele balanço dançante (em determinado momento pareceu-me um baião: lá pelo quarto minuto). Agradou-me. Depois eu ouvirei as outras faixas.

Latino disse...

Repararam como os vikings abandonaram a cabeleira e o capacete com chifre?

claudia disse...

gostei das novidades.

valeu!!!

Internauta véia disse...

Muito bom! Gostaria de ouvir mais Aki Takase no molho dessa "salada".

Vinícius disse...

ouvi o bad plus e achei ruinsinho.

Vinícius disse...

o bojan z... não sei oq dizer.

John Lester disse...

Prezado Vinicius, tente ouvir o pianista com atenção. Apesar do peso do grupo, tem coisa interessante acontecendo ali no Bad Plus.

Mas, no fim das contas, gosto não se discute.

Um abraço, JL.

Salsa disse...

Ontem eu conversava com João Luis sobre os novos. Aquele lance rítmico, salientado por Lester, nos parece estar ligado à escola funk (que tem grande peso na batida contemporânea). A interpretação de Aki Takase segue essa linha. O problema, para mim, é quando todo o disco se fecha em torno desse lance.

Garibaldi magalhães disse...

Se esse João Luiz for o Mazzi, grande figura!