16/07/2006

Jazz No Seen - Eric Kloss

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Assim como há quem goste de malucos, há quem goste de cegos, essas estranhas criaturas que vêem o mundo de forma muito particular. O jazz, eu não saberia dizer o porquê, está repleto de músicos malucos e cegos. O pianista mais poderoso do jazz, Art Tatum, era cego. O incomparável pianista branco Lennie Tristano, era cego. Roland Kirk, o descontrolado malabarista do sopro, que tocava três saxofones de uma só vez, era cego. Há uma infinidade de outros grandes músicos cegos no jazz, mas hoje voltamos nossos olhos, e principalmente nossos ouvidos, para o saxofonista Eric Kloss que, em minha visão auditiva, é um dos melhores saxofonistas brancos da fase denominada hard-bop. Sim, infelizmente o jazz sempre conviveu com essa insana mania de utilizar quatro prateleiras esquisitas para acondicionar seus músicos: numa coloca os músicos negros, noutra os brancos, na terceira, os músicos que fazem sucesso e, na quarta, os músicos marginais. Quase sempre, se o camarada é branco e faz sucesso, ele é apedrejado por todos (Benny Goodman, por exemplo). Quando é negro e faz sucesso, é apedrejado por alguns (Louis Armstrong, por exemplo). Quando é branco e marginal, recebe algum afeto (Bix Beiderbeck, por exemplo). Quando é negro e marginal, torna-se um gênio aclamado do jazz (Lester Young). Na verdade, são todos grandes músicos e não deveriam ser catalogados de maneira tão estanque. Proponho, então, armazená-los em novas prateleiras. O Jazzseen cria, aqui e agora, a prateleira dos músicos cegos, um espaço onde depositaremos estranhas criaturas que, impossibilitadas de ler partituras e cifras, retiram sua música do ar. Para mim, um saxofonista frustrado, parece ainda mais incrível a existência de seres que, sem o auxílio dos olhos, fazem uma música incrivelmente complexa e bonita. Afinal, que estranho dom é esse, meu Deus?

Não resta dúvida: gosto de músicos cegos. Eles parecem confirmar aquela velha teoria de que o jazz foi feito de ouvido, criado por músicos pobres e que não sabiam ler música e que tocavam instrumentos velhos e defeituosos. De improviso, tentavam repetir os sons que agarravam no ar e, adaptando-os, criaram essa coisa única chamada jazz. Por essas e por outras, somente me restam duas opções: ir ao Jazz No Seen ali em cima, à direita, e ouvir Eric Kloss ou ir terça-feira, às 20:00, no Balacobaco, ouvir Mr. Salsa. Fica logo ali na Praia do Canto. Espero por você.

12 comentários:

Salsa disse...

A sapiência popular: "Furaro zóio do açu preto (assum preto?) pra ele assim cantar meió".

augusto carlos disse...

Esse jazzseen...

Obrigado por existir!

Salsa disse...

Quando eu tiver oitenta eu espero poder tocar como ele tocou, aos dezessete, o tema Softly as a morning sunrise.

Catarina disse...

Vou ouvir o Salsa

andressa disse...

John, você sabe se o André vai estar lá no Balacobaco nessa próxima terça, dia 18???

rs

Vinícius disse...

os meus eu guardo em ordem alfabética, fica umas combinações esquisitas, mas já tentei separar por estilo e não vira, eu ia ter que ter umas 50 prateleiras e divisões.

jazz é uma das unicas atividades em que se discrimina o branco:~talvez os corredores(atletismo)tb... não sei. estou pensando aqui se tem algum grande inovador branco no jazz... tem?

acho um pouco injusto dizer que o cool jazz é uma derivação da musica do lester y. acho q o west coast, que não tem um dono, mas vários, é um som original tb.

laranjeira disse...

Eu me guio pela curiosidade e pelo meu ouvido. O que eu gosto eu tento guardar em ordem alfabética, mas a desordem prevalece.

Vinícius disse...

desordem alfabética?

laranjeira disse...

isso.

paula disse...

Nada como acordar e ouvir o jazzseen...

BET disse...

Eu vou!

Te encontro lá...

Beijo

John Lester disse...

Entrei em contato com o André, do Clube das Terças, e fiquei sabendo que ele está de plantão hoje, dia 18/07, não podendo comparecer ao Balacobaco. Disse que fica para a próxima terça.

JL.