06/07/2006

O porco, o suicida, o trompetista e o silêncio

Com o cão raivoso e sarnento no calcanhar. Assim, ontem saí para o passeio contumaz ao Bar do Henriq, ali na Praia do Canto. É sempre assim quando eu recebo meus proventos. Ensandecido, a lembrança que me vinha à cabeça era sobre o livro Suicídio: modos de usar, que alcançou algum sucesso no início dos anos oitenta do século passado. A eficiência do gesto dependerá, porém, do rigor da decisão do suicida em potencial (um colega inconseqüente reclamava no engarrafamento: quer coisa mais chata do que aqueles caras que titubeiam à beira do vão central da ponte?). Mas a dor, caro navegante, mesmo fingida, é uma dor real. Espalhafatosa ou silenciosa, a dor dói. O suicídio, gesto extremo, aproveita a deixa para se insinuar como a panacéia para todos os males. Nesse ponto do devaneio eis que chega o bom e velho Coimbra, membro vitalício do Clube das Terças, e, ao observar à mesa os restos mortais de um pé-de-porco-no-jeijão, vai logo dizendo: quer se matar, camarada? Eu respondo: se é pra morrer que seja de barriga cheia e pecando contra a ordem médica - cachacinha, cervejinha e pezinho de porco, beleza pura. Obviamente, não pretendo encarar uma overdose de suíno e álcool. Opto pelo trajeto paulatino. Explicitados os devaneios, o sábio conselheiro sapeca a máxima secular: Não dá pra levar o mundo a sério. Falamos sobre jams e sobre as sacanagens dos anos sessenta e setenta (a parte final dos setenta até que eu curti um pouco) como representação da contraposição às ordens médicas. Só tinha maluco. Mas, agora, quando escrevo essas linhas, permaneço em silêncio. Melancólico, mantenho-me border line. A trilha sonora escolhida ao acaso é o trompete de Chet Baker no disco Silence (ele toca e canta My funny valentine numa mandada um pouco mais up). A banda faz um bom trabalho. Charlie Haden (o band leader), Enrico Pieranunzi e Billy Higgins comportam-se bem. Depois eu deixo uma faixa no meu Gramophone.

7 comentários:

john lester disse...

Grande disco: tinha esquecido dele, mas vale uma nova audição. Grande texto também: algumas pessoas - as bondosas e puras de coração - levam mais tempo para verificar que a vida não vale quase nada. É chato mesmo verificar que somos apenas parasitas famintos a consumir a natureza sem razão e sem motivo. O mal do homem é se condiderar mais importante que tudo ao seu redor. Por sorte alguns loucos não estão nem aí para a vida, como Chet, que nos deu uma música para suportar a vida.

Salsa disse...

A faixa já está lá no Gramophone by Salsa

Carolina disse...

Não se mate, criança. Eu nem te conheci ainda...

Anônimo disse...

E se Deus quiser não vai.

Jazz véi disse...

Ei, Salsa,reparou na hora da postagem? 17:17 ! Isso quer dizer alguma coisa boa, desanima não!
Sei que está difícil, mas...valeu vc. lembrar do Chet Baker, ainda não tinha aparecido por aqui, olha só que bom!!! Estou exatamente lendo uma biografia dêle, ânimo!!!

Salsa disse...

Que é isso, cambada? Eu só comi um pé de porco...

acir vidal disse...

Legal o blog.
Mas eu preciso aprender inglês para endender melhor o que rola por aqui.