31/10/2006

Tim Tim Herbie!

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O fato de eu ter achado o show de Herbie Hancock em Vitória pavoroso (na verdade um dos piores shows de jazz a que já assisti) não significa que eu não admire ou que eu não goste de seu trabalho. Ao contrário, gosto muito de certas fases desse grande músico. E fiquei muito triste em verificar que o velho mestre optou quase exclusivamente pelo sintetizador em seu show no dia 28/10/06 simplesmente porque o som do piano acústico disponível no Teatro da UFES era nitidamente deplorável. O pianista de Roy Hargrove, que se apresentou na véspera, já denunciara a catastrófica situação do som do instrumento. Ele me fez lembrar daqueles coloridos pianos de brinquedo que todos nós já digitamos curiosos e fascinados um dia. Mas o que eu senti em relação a Herbie não foi somente um problema de escolha de arma. Para mim, o problema maior foi a escolha da munição: em seu eterno zigzag estilístico, passando pelo hard bop, pela fusion, pelo pop, pela música clássica européia, pelo post bop e pelo rap, Herbie chegou à maturidade com uma espécie de mosaico musical irreconhecível dentro do cérebro, um mosaico colorido demais, detalhado demais, influenciado demais, rico demais, complexo demais. Resultado: ninguém sabe que tipo de música o mestre tocou no TIM Festival. Jazz? Se jazz, de que estilo? Onde foi parar o swing? Onde está o blues? Onde está aquela coisa que faz do jazz, jazz ou que faz do chorinho, chorinho? É como você comer uma moqueca capixaba sem cheiro, sem cor, sem panela de barro. Acredito que nem o amante do jazz, nem o amante do rock e nem o amante do rap tenha gostado do show. Conforme eu já disse em resenha anterior, depois desse ir e vir, Hancock me lembrou, durante o show, uma espécie de Yanni misturado com Stockhausen. Nós, ouvintes atônitos, ficamos diante de Herbie como aquela criança assustada que fica diante de um pai desequilibrado que hora acaricia, conversa e ama, hora bate, castiga e tortura. Claro que nos sentimos perdidos e confusos. Entendo que a política do improviso deve estabelecer padrões mínimos de discurso, sem que com isso se perca a criatividade, o bom humor ou a alegria. Na década de 1960 Herbie traçou algumas linhas interessantes de discurso musical, atuando com originalidade sem perder a noção de salubridade artística. Mas talvez, ao que tudo indica, essa já não seja mais a dele. A seguir deixo à disposição dos argonautas alguns bons momentos do jovem Herbie, um camarada que já foi muito bom pai, mas que se transformou num vovô muito malvado. A faixa clássica, Cantaloupe Island, foi retirada do dvd One Night With Blue Note, gravada em 1985 com Freddie Hubbard (t), Joe Henderson (ts), Herbie (p), Ron Carter (b) e Tony Williams (d). Como sempre diz minha irmã: menos é mais.


3 comentários:

Salsa disse...

Que diferença, hein? Infelizmente, o som dos saxofones, hoje em dia, tendem para a repetição do estilo Brecker (que não é ruim - mas todo mundo toca igual, pô). repare na bateria, no baixo, no piano... putz!

carlos augusto disse...

Pois é... Não troco 200 Tim por essa noite no Blue Note. Fantástico!

João Luiz disse...

Eu já sabia e te avisei Lester. Herbie Hancock como músico de jazz já era há muito tempo.
J L Mazzi