20/12/2006

O fotógrafo da primeira dama

Ultimamente tenho me dedicado a ler escritos de amigos próximos. Isso se deve ao fato de, durante o período que me dediquei exclusivamente às letras, ter descoberto uma série de bons escritores entre aqueles "copoanheiros" com quem eu costumava bebericar umas e outras nos botecos vitorianos. O livro mais recente que passou pelas minhas lentes foi O fotógrafo da primeira dama, de Bernardo de Oliveira, editado em função de um concurso literário promovido pela Secretaria de Cultura do Estado do Espírito Santo. Trata-se de um romance sobre a memória, ou melhor, da memória como ruínas. Esse mote, caro ao pensador alemão Walter Benjamin (que Bernardo leu à exaustão), é tratado de um modo que, creio eu, agradaria àquele pensador.
A trama se desenrola em torno de um fotógrafo que se vê envolvido em uma rede obscura que, sempre de modo sutil, deixa entrever a prática de corrupção e destruição da memória arquitetônica da cidade em nome da especulação imobiliária. O protagonista da estória se digladia entre fragmentos de sua própria memória (ele retorna à cidade após duas ou três décadas) e uma cidade a qual ele já não reconhece nem é por ela reconhecido. Estrangeiro em suas ruas deformadas, o fotógrafo nos mostra o retrato cruel da realidade das cidades brasileiras que, submetidas a uma política de interesses de uma elite criminosa e corruptora, são transformadas em monstrengos de gosto não identificável. O clima levemente paranóico da narrativa instala uma aura noir que mantém o suspense sobre o destino do protagonista até o final do texto. Leitura agradável do começo ao fim.Indico sem titubeios.
O romance poderá ser adquirido através do e-mail bbco@ebrnet.com.br (disse-me o autor que o preço será R$ 5,00 - isso mesmo,cinco merréis - mais as despesas do correio).
Como Bernardo é um admirador de keith Jarret, deixarei duas faixas no Gramophone by Salsa para os navegantes ouvirem enquanto não recebem o livro em suas residências.

9 comentários:

John Lester disse...

A idéia de preservação do patrimônio histórico levada ao limite gera uma contradição: um dia não haverá mais espaço para construir - logo, teremos que viver nas belas ruínas que a memória gigante vai querer preservar. Mas quem irá escolher a ruína que deverá ser preservada e qual deverá ser demolida? Um arquiteto? Esse povo que elegeu o Lula? Um especialista em História? Um artista? Um folião? Não acreditem que essa escolha será democrática, imparcial ou sem interesses escusos. É claro que rolará uma grana aqui, um benefício acolá. A humanidade é assim: uma contradição em si. Por mim, deveríamos para de conceber, parar de desmatar e parar de construir. Já há esgoto demais na Terra.

John Lester disse...

Ah! Só para reflexão: o governo francês já não aguenta mais manter o Louvre. Essas coisas velhas dão um trabalho miserável para conservar. Em alguns ambientes o mofo é tão forte que impede as visitações. O custo de manutenção e restauração é altíssimo. Devem os franceses pagar esse custo para manter a memória? Eu mesmo tenho alguns livros velhos aqui em casa. Apesar de só me darem trabalho, alergia e rinite, não consigo me livrar deles...

Salsa disse...

Prezado Lester,
O livro aponta justamente a impossibilidade de a memória se restringir aos bens materiais. Aliás, ele dá pistas de que a memória sempre estará envolta pela ficção: estórias contadas e recontadas que escapam às pretensões objetivantes de uma ciência historiográfica (o nosso Ahmad vive esbarrando nesse problema). O nosso caso, no entanto, é bastante radical: nós tendemos a destruir e jogar cal no chão. Somos mestres em apagar vestígios de nossas estórias: os nossos "vencedores" conseguem eliminar eficientemente quaisquer pistas dos crimes cometidos (crimes, mesmo: a memória, se ela existisse, poderia levar muita gente para o xilindró). O aspecto econômico por você apontado não deixa de ser um bom argumento (se eles estivessem preocupados com isso - parece ser mais fácil esterilizar o solo) para os nossos governantes implementarem políticas de renovação (de repente, os caras são adeptos do futurismo - início do século XX - que preconizava passar o rôdo em todos os museus ou qualquer coisa que lembrasse o passado).

John Lester disse...

Sempre me lembro quando aquele imbecil que foi governador do Rio, Moreira Franco, mandou demolir o Palácio Monroe após a autorização do então presidente Ernesto Geisel...

É de dar dó.

Mais detalhes sórdidos podem ser obtidos em:
http://www.almacarioca.com.br/monroe.htm

É isso.

velhote maconheiro de copacabana disse...

A pá de cal são os caixotes que são erguidos no local das demolições. Feios de dar dó. A maioria da população nem imagina que onde estão essas coisas grotescas houve, um dia, construções nas quais podíamos descansar nossos olhos.

Danilo disse...

Aqui em Vitória, a tendência é extrair o máximo possível de cada bairro. O centro tornou-se inabitável, então a especulação migrou paulatinamente para as margens da ilha. Vitória é uma região belíssima cercada por cáca de arquitetos incompetentes e pouco criativos. Lamentável.

panzé disse...

O Homem está destruindo a Terra e ainda se acha o único animal racional... Fala sério!

Anônimo disse...

Um ano e alguns dias depois.JL,a razão da demolição do antigo Senado na epóca em q sua cidade era capital federal foi q o autor do projeto era um militar colega do pai de Geisel q julgava ter prejudicado a sua carreira .Edú

Mara Coradello disse...

Salsa: queria o e-mail do Bernardo para comprar esse livro, tentei esse que você citou no texto e nada feito, o e-mail voltou. Poderia conseguir pra mim? Abraços.