16/01/2007

Dia 01/01/07 - De Joplin A Tristano

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Depois do excelente show de Chris Botti, o dia amanheceu num frio de 5°C com céu limpo e muito azul. Após um café rápido no Grand Central Terminal, onde há aquele relógio que aparece em todo filme americano, parti direto para o número 252 W. da 47th St., ou seja, para endereço da pensão onde morou Scott Joplin e sua esposa Lottie. Joplin morou ali entre 1911 e 1915, onde também costumavam se hospedar vários músicos da banda de Duke Ellington. Essa não foi uma época boa para Joplin, uma vez que seus ragtimes já não vendiam tão bem quanto antes. Além disso, nenhum editor se interessava em publicar sua ópera Treemonisha, a primeira composta por um negro. Resolveu publicá-la por conta própria, embora nunca tenha conseguido encená-la em vida. Deprimido, Joplin começou a decair como compositor e pianista. Em 1917 Joplin é internado num hospício e, três dias depois, estava morto o mais importante compositor de ragtime. Totalmente esquecido, apenas em 1974 seu epitáfio recebeu a seguinte inscrição: SCOTT JOPLIN, AMERICAN COMPOSER. Foi ali, diante do prédio onde agora funciona um desses insuportáveis restaurantes japoneses, que percebi que não é apenas no Brasil que os artistas são tratados como lixo. Em torno do prédio maltratado não havia qualquer indicação, qualquer sinal de que ali viveu um dos mais importantes músicos do século XX.
Um pouco triste, parti para a Sam Ash, a maior loja de instrumentos musicais do EUA, logo ali no 160W da 48th St. Fiquei durante boas horas apreciando um sax alto Keilwerth SX 90 R shadow, e minha alegria voltou. Depois de verificar se havia neve no Central Park e almoçar, fui para o hotel dormir um pouco antes do show de Sal Mosca, às 23h no Birdland. Com seus 80 anos de estrada, Sal pode ser considerado um dos mais brilhantes discípulos de Lennie Tristano. Seus colaboradores mais marcantes foram Lee Konitz, Peter Ind e Warne Marsh. O show não poderia ter sido melhor: Sal continua com aquela generosa mania de deixar seus músicos tocarem livremente, sem limitações de qualquer natureza. Em algumas passagens, o silêncio do mestre parecia enriquecer profundamente as econômicas notas que produzia ao piano. Nos improvisos, podíamos ouvir as reminescências rebeldes de Tristano, emolduradas pela experiência de 65 anos de música. O aconchego da casa, a boa comida e o atendimento acolhedor fizeram aquele dia 1º inesquecível.
Impossível não lembrar do amigo Reinaldo Santos Neves, nosso presidente do Clube das Terças, quando verifiquei que não havia bateria: apenas piano, contrabaixo, saxes alto e tenor e um trompetista convidado para duas jams. O clima era um misto da west coast cantada em versos pelo amigo Rogério Coimbra e do bebop nativo de New York. Inesquecível! Assim como fez seu mestre Lennie Tristano, Sal gravou muito pouco. Daí a dificuldade de encontrarmos seus álbuns. Claro que há nessa dificuldade aquele charme que muito atrai os colecionadores de jazz: os álbuns mais difíceis de conseguir têm um sabor todo especial. Por isso deixo para os amigos navegantes a faixa Sal’s Line, do raro lp Sal Mosca And Peter Ind At The Den, gravado em 1959. Esse e outros lp’s inacreditáveis podem ser encontrados na tímida loja Jazz Record Center, na sala 804 do 236W. da 26th St. Na próxima resenha falaremos mais sobre ela e sobre Fred Cohen, seu atencioso proprietário. Até!


7 comentários:

Salsa disse...

Putz, esqueci de encomendar minhas palhetas!!!!

augusto carlos disse...

Que beleza! Se inveja matasse...

Grande abraço Lester!

Vinícius disse...

caro john lester, vc colocou uma fitinha vermelha em torno do pulso ou alguma coisa assim? é bom...

to começando a ficar com raiva de vc... rsrsrsrsrsrsrsrsrsrrs

Vinícius disse...

por falar nisso, a pergunta que não quer calar: pegaste alguém no EUA?

John Lester disse...

Prezado Vinicius, minha comitiva era integrada pelo Casseta & Planeta: ninguém pegou ninguém!

Reinaldo Santos Neves disse...

Uma delícia o pianinho tristaniano de Sal Mosca.

Uma delícia, também, o sexteto de Neal Miner, provando que ainda se faz jazz como antigamente e, mais importante, que esse tipo de jazz melódico ainda tem lugar no mundo de hoje.

Nota dez pra Tom Melito, que já conhecia de gravações da Concord: um daqueles bateristas que não têm a pretensão de aparecer em prejuízo do som dos solistas. Drummers of the World, less is more! Nesse ponto a música erudita sabe o que faz.

Mas, cadê esse vídeo de Miner? Procurei agora pra curtir de novo e não encontro em lugar nenhum.

John Lester disse...

Ínclito Reinaldo, o vídeo está por aqui, em algum lugar do blog. É uma caixinha, tipo de fósforo. Contudo, creio que você deveria ouvir o álbum completo. Terça que vem, no Clube.

Até!