20/03/2007

A grua, o moderno e o contemporâneo

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Embora o número de acidentes fatais seja elevado, não posso negar que adoro subir em minha grua e observar com a distância necessária certos conceitos que, quando vislumbrados de perto, perdem totalmente seu foco. As recentes resenhas Jazzseen e os respectivos comentários das últimas semanas fizeram com que eu subisse em minha velha grua para verificar com maior clareza as idéias de moderno e contemporâneo, noções corriqueiramente confundidas, mas obviamente distintas. Como negar que Louis Armstrong, Gil Melle, John Coltrane ou Warne Marsh foram, cada qual a seu modo, modernos? Mas nada disso faz deles músicos contemporâneos, mesmo porque já estão todos mortos. Quando ofereço aos amigos argonautas músicos contemporâneos, como tenho feito incansavelmente – basta ouvir Frank Avitabile, Ryan Kisor, James Carter, Giammarco Maurizio, Lucien Dubuis, Peter Cincotti, Scott Colley, Annie Whitehead, Rosário Giuliani, Deborah Henson-Conant e tantos outros, não é com a intenção de apresentar o moderno, mas antes de verificar o contemporâneo.



É isso: se você quer saber o que está rolando no jazz contemporâneo, precisa ouvir álbuns gravados depois de 2000. Não é?
Para quem se vira com o italiano, segue sua biografia: Nato a Pavia nel ’52, ma residente a Roma fin dall’infanzia, Giammarco, folgorato giovanissimo dall’ascolto di Duke Ellington, comincia a suonare il sax ten. a 14 anni. Frequenta più tardi il corso di jazz tenuto da Gaslini a S.Cecilia (Roma-'72), il Creative Music Studio di Karl Berger a Woodstock (USA-‘75), studia armonia col compositore Gino Marinuzzi e sassofono a New York col leggendario didatta Joe Allard. Dal '76 dirige gruppi con cui propone la sua musica, il più importante dei quali, Lingomania (forse la band più famosa degli anni ’80) s’impone nei referendum di Musica Jazz dell'84, '85, '87 e di Guitar Club dell'88 e '89 come miglior gruppo italiano. Importanti anche l’Heart Quartet (attivo dal'93 al '97), La Day After Band (‘90-‘91) e vari Trii. Come sideman ha spaziato in contesti assai diversi: dalle forme più radicali dell'improvvisazione al mainstream; dal jazz-rock (Blue Morning, New Perigeo), al folk progressivo (Canzoniere Del Lazio, Carnascialia). In campo jazzistico collabora con Chet Baker (tour nell’80 e 81), Lester Bowie (in Italia e a New York nel 78 e 79), Gaslini, Vittorini, Pieranunzi, Rava, Giovanni Tommaso, Bruno Tommaso, Paolo Fresu e Miroslav Vitous. Ma ha anche suonato e registrato con Dave Liebman, Aldo Romano, Joe Bowie, Marc Dresser, Joe Diorio, Franco Ambrosetti, George Gruntz, Billy Cobham, Peter Erskine, Marc Johnson, Harvie Swartz, Marvin Smith, Kenny Wheeler, Phil Woods, Toots Thielemans, Dean Johnson, Ron Vincent, Peter Washington, Joe La Barbera, Riccardo Del Fra, Mike Melillo, Art Lande, Jon Faddis, Conte Candoli, Bobby Durham, Daniel Humair, Kim Plainfield, Lincoln Goines, Sagoma Everett, Danny Gottlieb, David Fiuczynski, Tom Harrell e moltissimi altri musicisti italiani e stranieri.


Claro que, na maioria das vezes, há uma ponte entre o contemporâneo e o que já foi moderno um dia: Louis Armstrong influenciou praticamente todos os trompetistas depois dele. Thelonious Monk influenciou gerações e gerações de pianistas depois dele. Charlie Parker e John Coltrane impregnaram o som, a técnica e as idéias musicais de praticamente todos os saxofonistas nascidos depois deles. Mas, cronologicamente falando, isso não faz com que Monk se torne um músico contemporâneo, salvo tenha ressuscitado em algum bordel de Paris. Ok: podemos ficar ouvindo Monk, Parker e Coltrane para o resto da vida e, certamente, não sofreremos muito com isso. Mas entendo que podemos ter muito prazer em ouvir jovens músicos dando continuidade à obra desses mestres inesquecíveis. Esses jovens estão aí, nas ruas, nos bares e nos estúdios fazendo música para nós. Acho importante ouvir e prestar homenagem a esses músicos contemporâneos. Não há nenhuma busca pelo moderno aqui, embora possamos esbarrar com ele. Há apenas a tentativa de compreendermos o que a contemporaneidade tem a nos oferecer. Por isso vou descer da grua mais uma vez e colocar na Radiola Jazzseen a faixa Blue Tramonto, composta e interpretada pelo saxofonista Maurizio Giammarco.

16 comentários:

olney disse...

Muito bem, apoiado!!!

Rogério Coimbra disse...

É sim Lester. Mas o quê chamar de jazz? O que se faz hoje? Calcado ou não " naquele" jazz? Ou o contemporâneo fusion, instrumental world music,acid jazz, por aí vai... Tem contemporâneo que se fazia há 40 anos atrás.Como ficamos ? Lester, que jazz? Afinal, qual jazz, Lester ? Que bodega de jazz contemporâneo a que você está se referindo, Lester?

Rogério Coimbra disse...

Lester, matei a charada: jazz contemporâneo é feito pelos contemporâneos, de preferência por aqueles abaixo de sua ( nossa ?)faixa etária,por exemplo. Acertei ?

John Lester disse...

Não sendo eu uma caixa de Pandora, posso apenas exemplificar: para mim o que Maurizio Giammarco faz é jazz, e jazz contemporâneo. O cara tem mais ou menos a sua idade Rogério. E, para mim, é um garoto.

Mas você sabe: se precisamos perguntar o que é jazz, nunca saberemos o que é jazz.

Roberto Scardua disse...

Lester, sabe o que é curioso no jazz? O que a música clássica levou 500 anos para produzir, o jazz fez em 100. Por isso tanta confusão entre o moderno e o contemporâneo quando se fala em jazz. Se der na telha podemos considerar todo músico de jazz contemporâneo. Afinal, não existe um Bach no jazz, um cara com trocentos anos de idade. São todos meninos nascidos por volta de 1900.

Bem, de qualquer forma acho bacana você estabelecer que jazz contemporâneo é aquele gravado depois de 2000. Mantém a gente atualizado.

Grande abraço, Roberto.

Rogério Coimba disse...

Bem colocado,Scardua; assim sendo, , tudo pode ser contemporâneo, basta como sua cuca interprete as coisas...Chega! Vou ouvir qualquer coisa, contemporânea:Eric Dolphy.

Salsa disse...

Bem, "modernização" era apenas um modo de dizer. Aquele que o meu pai costumava repetir quando alguèm chegava com novidades ou apenas queria se mostrar diferente. Mas, como o papo resvala para a academia, tem alguns pensadores, com quem eu concordo, que dizem que nem chegamos a ser modernos. O ideário que constituia o sonho moderno (aquele que surge a partir da renascença e alcança a revolução industrial e o escambau)não se realizou. O moderno, vulgarmente falando, tem aquela conotação da exigência do novo - tem que inovar sempre (isso até se tornou uma tradição - querer o novo). Não me preocupo com a contemporaneidade -como já disse, ainda estou me divertindo com Machado de Assis (que tem aquela clássica competência de se manter atual).

John Lester disse...

Bem, eu me preocupo sim com a conteporaneidade. Se nós, amantes do jazz, não estimularmos, divulgarmos e comemorarmos os poucos músicos que ainda têm coragem de fazer jazz, estaremos condenados a ouvir Tiririca e Djavan para todo o sempre.

Viva essa turma de heróis que, como Mr. Salsa, faz jazz hoje em dia.

Salsa disse...

Ok - o que importa é que continuamos a tocar. Até domingo, no almoço jazzístico.

Rogério Coimbra disse...

Viva Mr. Salsa, descobridor de garotos tocadores(êpa), hoje famosos, e um dos maiores agitadores da "música ao vivo" em Vitória, criador das noites na curva da Jurema e outras curvas e retas...Salsa não só tempera, ele é jazz, é agito, Salsa é alegria. Confiram sua entrevista em www.taru.art.br.Salsa é coevo !

olney disse...

Lá vem o JL, de novo, misturar Djavan e Tiririca...que implicância, né não?
Não vou concordar nunca com isso; diga o que vc acha tb de Ivan Lins, João Bosco, etc.

João Luiz disse...

Acima no cabeçario do site diz: "Jazz, vinho e livros finos com letras grandes". E, tem gente perdendo tempo com Djavan, Tiririca, Ivan Lins, João Bosco. Para com isso!

Cretino, de Creta disse...

Daqui a pouco vamos ter Ivon Curi nessa radiola...

olney disse...

É, mas foi o Lester ("dono" do site, que começou)

John Lester disse...

Ok, peço desculpas ao Olney. Realmente é uma sacanagem reunir Djavan e Tiririca na mesma embalagem. Tiririca merece melhor companhia.

Internauta Véia disse...

Jazzseen é contemporâneo!
Viva o Jazzseen!!!