06/03/2007

A preguiçosa moda modal de Miles

Senhoras e Senhores navegantes que ainda não se deram ao trabalho de acessar o sítio http://www.estacaocapixaba.com.br/ para lerem o relato feito por Reinaldo Santos Neves (está na seção literatura), sobre uma das reuniões mais polêmicas do Clube das Terças, vocês têm, hoje, mais um fragmento das opiniões de Garibaldi sobre o amado e odiado Miles Davis. Curtam, pois, mais uma passagem da narrativa:


"— Eu tenho uma coletânea chamada Jazz 'Round Midnight, — diz João Luiz. — Lá tem "Freddy Freeloader", uma das faixas de Kind of Blue. É o que me basta. Não vejo nada de mais nesse disco, pra mim é o tipo do disco que você dá três estrelas, três e meia no máximo.
— Pois é, — concorda Garibaldi. — Tem milhares de discos no jazz tão bons como esse, e outros tantos muito melhores.
— Não, alguma coisa de especial esse disco tem de ter, — diz Fernando.
— Um dos argumentos dos milesólatras, — diz Garibaldi, — pra considerar esse disco uma obra-prima é que é nele que se consubstancia o jazz modal.
— Já ouvi falar, — diz Fernando, — mas não sei o que é.
— Me deixa consultar minhas notas, — diz Garibaldi, — que eu já te explico.
Garibaldi abre mais uma vez a pasta amarela e, depois de revirar um punhado de papéis lá dentro, retira uma folha coberta de anotações e:
— A música européia da Idade Média e da Renascença se baseava em escalas chamadas modos: modo lídio, modo frígio, modo dórico, etc, no que tinha alguma afinidade com as músicas orientais. Só que veio Bach e deu início à grande expansão da música européia, que botou as músicas orientais no chinelo. Aí, como tudo que é velho fica novo de novo, no final do século XIX Debussy reincorporou as escalas modais na música erudita. No jazz modal o que se usa como base de improvisação são esses modos, deixando-se de lado aquilo que os músicos chamam de "changes", ou seja, a seqüência de acordes do tema, as modulações harmônicas. Pessoal que defende o jazz modal alega que, abandonando os esquemas harmônicos restritivos do jazz convencional, os músicos passaram a ter maior flexibilidade pra improvisação. Mas no Grove Dictionary of Jazz, que nosso amigo André me emprestou, eu li que o estilo modal atraiu muitos músicos porque é muito mais fácil improvisar nesse estilo do que com base em progressões de acordes. Pra fazer um solo no estilo modal você não precisa mais observar as constantes mudanças harmônicas do tema, você pode ficar batendo na tecla de um único modo durante quinhentos compassos que está tudo bem.
— Continuo sem saber o que é jazz modal, — diz Fernando.
Só quem é músico sabe o que é, e olhe lá, — diz Garibaldi. — Outro dia eu li uma entrevista com Dizzy Gillespie numa das minhas velhas edições da Down Beat. Lá pelas tantas o que é que veio à baila? Miles Davis e o jazz modal. Aí Gillespie contou que de vez em quando calhava dos dois estarem tocando um perto do outro, de formas que um sempre acabava ouvindo o outro tocar. Aí ele contou que, numa dessas vezes, Miles chegou pra ele e perguntou: E aí, gostou do que eu toquei? E Gillespie virou-se pra ele e disse: Que que é isso que você tocou? Explica pra mim. E aí Gillespie disse pro entrevistador que entendeu que o pessoal modal tinha uma melodia básica e ficava trabalhando em torno dela o tempo todo. Aí o entrevistador disse pra Gillespie: Não é tanto uma melodia, é mais um modo, não é? Aí Gillespie disse: Sei lá. Seja o que for.
— Moral da história, Garibaldi? — pergunta o narrador.
— Moral da história, — diz Garibaldi, — é que a História não tem moral. Kind of Blue é o melhor disco de jazz da história? Isso é totalmente imoral. Meu Deus do céu, esse disco é um disco kind of chato pra caralho! Não tem nem muita variedade, os temas se parecem uns com os outros, é tudo muito monófono e monótono. Ah, dizem os milesólatras, esse disco é o epítome da espontaneidade improvisacional. Digo eu: Pra cima de mim? Querem espontaneidade nas improvisações, vão ouvir o concerto inaugural do JATP, com Illinois Jacquet, Les Paul e um puta pianista chamado Nat King Cole, que depois degenerou em cantor popular. Ah, dizem os milesólatras, mas esse disco é um paradigma. Pergunto eu: Que paradigma? Ah, respondem eles, o jazz modal. Respondo eu: E daí? Pelo jeito como eles falam essas palavras sagradas, jazz modal, parece até que não tem nada mais sublime no jazz do que o jazz modal: que o jazz modal foi mais importante, mais influente e mais duradouro do que o swing e do que o bebop. Agora me diz: quem é que tocou jazz modal? Dá pra contar nos dedos de uma só mão: Miles Davis, John Coltrane, Herbie Hancock, Wayne Shorter. Ou seja, a panelinha de Miles Davis. Quem mais? Ah, eu ia me esquecendo de um grande músico modal: Ravi Shankar. Mas é claro. Por que é que um ser de outro planeta musical como Ravi Shankar se encaixou tão facilmente no jazz dessa época? Porque a música hindu, com aquelas ragas chatas que dóem, é modal. Queria ver esse faquir se dar bem no jazz dez, quinze anos antes, em pleno apogeu do bop. Olha, eu não entendo nada de música, mas me parece que a música modal é um retrocesso, porque tem a ver com músicas primitivas, como a música européia medieval, como a música oriental, que só conhece a escala pentatônica. O que faz lembrar um músico brasileiro aí, exímio pianista, que se meteu no meio do mato com uns índios tupinambá da vida, dizendo que queria aprender música. Vai pra puta que o pariu. Que o cara faça pesquisa musical entre esses povos primitivos pra aproveitar uma coisa aqui, outra coisa ali, tudo bem. Mas aprender? Aprender o quê? Você vai aprender a ler com analfabetos, por exemplo? Mesma coisa Coltrane, que se encantou com as porras das ragas e passou a tocar igual hindu: só faltava o turbante. Mas não admira, porque o objetivo da música dele nessa fase nem era mais musical, era místico. Coltrane ficava duas horas tocando raga-jazz pra agradecer a Deus por estar livre das drogas. Livre porra nenhuma. Tinha trocado uma droga por outra, e ainda sou mais a heroína do que a música modal."
PS - deixarei a faixa Freddy Freeloader no Gramophone Jazzseen.

9 comentários:

Vinícius disse...

garibaldi, falou mal do trane, papai noel não vai deixar nada na sua lareira no fim do ano...

OLNEY disse...

eu fui lá ler o relato do Reinaldo e devo dizer que, apesar de "pegar pesado", até que concordo com a maior parte do que o Garibaldi diz...

John Lester disse...

Bem, eu já avisei aos amigos argonautas: tomem cuidado com indivíduos que sabem escrever bem. Eles podem facilmente convencê-lo de que você não é você mesmo. Ou coisa pior.

Fique atento e faça como eu: ouça aquilo que lhe dá prazer.

JL

OLNEY disse...

Tb concordo com o Lester e só ouço o que me dá prazer... porisso mesmo é que dou razão (parcial) ao Garibaldi.

Reinaldo Santos Neves disse...

Fiquei feliz com todos os comentários, discordantes ou não, que li até agora sobre a "Aboborificação". Afinal, o que está ali são apenas idéias pessoais e, concordando com o nosso Lester, o que importa mesmo, no fim, é dar aos nossos ouvidos o que eles querem e gostam de ouvir. Eu mesmo continuo a ouvir com prazer o velho Art Tatum, embora isso deixe intrigados tanto Lester como Mazzi. Mas fazer o quê? Meus ouvidos não páram de gostar.

Anônimo disse...

Quando ouvi Bitches Brew pela primeira vez disse pra mim:'parei com Miles'. O que não aconteceu ouvindo o 'Ommmmmm' em Love Supreme do Coltrane.
Vi que estava radicalizando. Mas, fazer o quê? Modal? A nova onda? Ornette Coleman? Pharoah Sanders? um pessoal de toca colorida? Como ainda tinha muita coisa pra ouvir, fui deixando de lado os modos dóricos, jônicos, frígios... Coisa que me levava aos estudantes da Berklee. 'So What' me deixou meio parvo. Eu entendo perfeitamente o motivo do jazz modal. Mas não agradou aos meus ouvidos habituados ao bop, swing, Bandas. Improvisos em cima de acordes. Agora dizer que o Miles tocava mal... assoviava... com pouca técnica nos solos rápidos... é chamar de burros todos os que gostam dele. Acho(!) perigoso falar assim. A apresentação dele com o Quincy Jones em Montreux (1991?) eu acho muito legal.
Questão de opinião.
Pena que tenha ouvido menos do que gostaria. E que deveria.
E que a memória cada dia me pregue mais peças.
gpicanco (usando o anonimo)

Salsa disse...

A minha aproximação da obra de Miles deu-se com o cd "My Funny Valentine: Miles Davis in Concert" - Gostei muito e tentei comprar outros (só adquiri bitches brew recentemente - e não tenho o hábito de ouvi-lo). Nesse processo, eu comprei, ainda em vinil, os lps da série Cookin', workin', relaxin' e por aí a fora, que são os discos que mais me agradaram e ainda me agradam desse polêmico músico. Apesar da minha formação musical via rock'n'roll, confesso não gostar da sua fase mais radicalmente fusion (aí eu prefiro jimi, Led).

Tsdmf disse...

Com algumas poucas coisas concordo. Com a maioria discordo. O jaz modal não é uma prisão, ao contrario, é uma oforma de salvação da mesma coisa o tempo todo. Algo diferente que fuja dos padrões um pouco. Nao é repetitivo quando as escalas modais são usadas de maneira criativa. O blues é só pentatonica, e nem por isso é considerado ruim ou probre, pois musico bom tem que ser criativo, ter ótimo feeling e saber provocar boas sensações. Porém o jazz modal, como muitas coisas, foi se tornando um clone de se mesmo, e aí a saída para o monotono acabou se tornando monoto. Mas na verdade, todos em suma, trabalham como modos, alguns só com um modo grego (escala maior ou só a menor) outros exploram mais variações. A grande virtude pra mim do modal é sua capacidade de improvisação e introspecção possivel e Miles foi realmente um ícone com o ótimo Kind of Blue!

Tsdmf disse...

O grande lance é na verdade o seguinte: muitos dizem gostar de jazz modal para parecerem inteligentes, cultos ou o que seja. Isso gera repulsa por parte de alguns. Normal. Mas não precisa ser expert em nada pora gostar de música, basta estar com ouvidos abertos. O jaz modal foi com certeza algo importante, pois viabilizou uma série de outros estilos, como free jazz, e demais experiencias. Viver na mesma o tempo todo não é para o Homem. Queremos sempre algo inovador, seja nas artes, na tecnologia, nas relações sociais. É Inato,por isso não há porque condenar alguém por tentar ser diferente. Somos livres para gostar ou não, mas avacalhar o trabalho de um cara que é reconheido mundialmente, parece-me a tentativa de ser mais polémico que até mesmo o proprio miles, assim aquilo que alguns mais condenam em miles é na verdade aquilo que mais possuem