01/03/2007

Trombone e tenor

Algumas doses de R&B tiram o jazz do prumo? O jazz perde o seu centro gravitacional e se esborracha na sarjeta? Eu, cá com meus botões, acho que o R&B imprime uma alegria que o jazz reduziu gradativamente em sua história. O jazz pós dixie e swing foi abandonando sua verve dançante (como observou o Velhinho no post sobre Carla Bley) e se enveredou por vias cerebrinas de fazer gato se matar de tédio. Salvo os anos cinqüenta, que pelo menos preservaram a performance apaixonada e libertária dos jazzistas, depois disso parece que o coração mudou para a cabeça - eles continuam libertários, mas dentro de um tecnicismo opressor. Paradoxal, não?


Peguei uma faixa de um disco (TNT - Trombone'n'Tenor) do trombonista e tocador de concha Steve Turre (considerado o bambambam do trombone contemporâneo), só para vocês sentirem que, mesmo quando a rapaziada pega leve, o balanço não se perde. Nesse disco, Turre se cerca por três tenoristas (James Carter, Dewey Redman e David Sanchez) para interpretar uma seleção de temas que fizeram sucesso nos vários períodos da história do jazz. Destaco o tema Hallelujah, I Love Her So, que fez sucesso na voz de Ray Charles, justamente pela pegada Gospel/R&B. Sintam como James Carter (foto) solta a franga em seu solo. Estará ali no Gramophone by salsa.

5 comentários:

g picanco disse...

É um prazer passar por aqui.
Pegando o mote da 'perda da verve dançante'.
Um pitaquinho:
Esse lance de intelectualizar foi coisa do pessoal do Down Beat. Os seus 'analistas' adoravam se sentir assim. Por mais gente fina que fossem, como o Leonard Feather.
E o negócio de subir pro cérebro também é coisa mais além dos jardins e de outras plantações.
O Francis, do 'Round Midnight' é o meu personagem favorito no mundo jazz.
Como o R&B, pena que o swing também tenha sucumbido, tirando o lado dançante do jazz.
Que os próprios Duke, Count e Stan Kenton adoravam ver.
Bandas tocando em teatros é um negócio meio estranho de imaginar. Vi no Municipal a Big Band que a USIS enviava para dar concertos pelo mundo. Foi muito bom. Mas fechava os olhos e me imaginava em um grande salão de baile.
Aprendi a ouvir música com o meu irmão no tempo da guerra. Ele doze anos mais velho do que eu. Colocavam um 78 na victrola e logo estavam dançando ao som de Glenn Miller ou Count Basie.
Ninguém era intelectual. Garotada.
Mas não dá pra dançar Oscar Peterson ou Monk. Sei disso. Ou será que dá, mas ninguém quer pagar o mico? Tem de ser só ouvido?
Vocês deixariam alguém dançar enquanto tocam?

Salsa disse...

Já aconteceu de eu estar tocando (era uma bossa) e uma senhora começar a dançar com um rapaz (devia ser o genro). Muitos acharam estranho e ficou um clima meio tenso no boteco. Lembro-me também de um colega (tocávamps mpb) que se sentia insultado quando isso acontecia. Parecia que a única coisa que podia mexer era a orelha.
Quanto a monk e peterson, pelo menos a gente percebe a força da paixão alucinada de um e a paixão na ponta dos dedos do outro. Considero-os fantásticos.
O que eu acho chato, mesmo, é o lance do público não poder se mexer. Tem alguns discos antigos gravados ao vivo que, no segundo plano, o que mais se ouve é gente rindo, copos quebrando e, se fecharmos os olhos (como você fez no teatro), corremos o risco de ficar bêbedos. Maravilha!

John Lester disse...

Jazz é movimento. E, o melhor, movimento improvisado. Prova disso é que os dois maiores gênios do jazz eram semi-analfabetos: Louis Armstrong e Charlie Parker.

Gênio que é gênio não precisa explicar suas criações artísticas em volumosos tratados retóricos.

Eles simplesmente chegam. E criam.

olney disse...

Tá tudo muito bom, mas não encontrei a tal música no seu "gramophone"...(o Lester é que é o responsável?)

g picanco disse...

Tem uma coleção de albuns do Art Tatum - Solo Masterpieces - em que é ouvido o som em bg. E nem por isso as interpretações são menos formidáveis.
Conviver com isso é coisa de quem precisa. Leite das crianças. A cabeça fica longe... muitas vezes criando. Quem tem a sorte de curtir esses momentos não esquece.