11/08/2007

Eminência

As discussões acaloradas acerca de nossa última Enquete By Jazzseen – que versa sobre o maior pianista do jazz – me lembraram de Mário de Andrade na Semana de Arte Moderna: quando os participantes do movimento foram criticados por sua inexperiência e dependência de doutrinas estrangeiras, Mário argumentou: “Não sabemos o que queremos. Mas sabemos o que não queremos.” Nelson Rodrigues também tinha lá suas tiradas. Certa feita respondeu a um sorridente repórter: “Os ignorantes sorriem muito mais do que os sábios.” Reunindo as duas assertivas, podemos concluir que os sábios nunca sabem exatamente o que querem. Quanto mais você ouve o jazz, estuda o jazz, se apaixona pelo jazz, menos certezas você tem sobre o jazz. Creio que vem daí toda a celeuma gerada por uma inocente enquete. E quem pode ficar sorrindo ao elaborar uma lista dos melhores pianistas do jazz com apenas quinze nomes? Essa terrível tarefa provocou uma série de imperdoáveis injustiças. Uma delas foi a cometida contra Andrew Hill, um dos mestres do post bop. Apesar de exímio pianista e excelente compositor, além de um fiel seguidor da herança legada pelo bebop, Andrew não foi incluído entre os quinze mais. De tão sábio, Andrew não fez sucesso, não montou um Weather Report para aproveitar a onda fusion que enveredou pelo barulhento e lucrativo jazz-rock de Miles Davis.

Incapaz de se articular com o desarticulado free jazz, Andrew ficou, por assim dizer, órfão. Sua herança? O complexo bebop, com sua rica, e ainda predominantemente negra, forma de expressão artística. Foram poucos os músicos superiores que aceitaram seu quinhão: além de Andrew Hill, podemos citar apenas alguns poucos abnegados que, mesmo podendo lucrar fácil com o pop, optaram por dar continuidade a esse intrincado legado musical deixado por Charlie Parker e John Coltrane. Eric Dolphy é o primeiro e um dos poucos que me vêm à mente. E assim foi: sem ganhar dinheiro com o jazz-rock e tocando bem demais para fazer free jazz, Andrew passou a dar continuidade ao bebop, revisitando cada uma de suas inovações melódicas e harmônicas, reformulando o papel do silêncio e do tempo na condução rítmica, remodelando propostas para as formas e os modos musicais até então vigentes no jazz, tudo isso sem nunca esquecer a tradição, o valor do blues, a espontaneidade exigida pelo improviso, os ensinamentos dos mais velhos. Falecido em 2007, só nos resta prestigiar o mestre indicando o seu último álbum, Time Lines, gravado em 2005 e lançado em 2006, com Charles Tolliver (t), Greg Tardy (cl, bcl, ts), John Hebert (b) e Eric McPherson (d). Clicando AQUI você obtém o álbum na íntegra.



12 comentários:

Rogério Coimbra disse...

A vida passa, para todos.Tive dois discos do Hill, o Point Of Departure e o Judgment.Confesso que não me animei mais a acompanhar sua carreira. Era o Andrew Hill o mesmo que veio ao Free Jazz. Ele foi coerente consigo mesmo, não encheu o saco de ninguém, a não ser de quem quizesse. Arrisco a dizer: dada a sua emaranhada música ele ainda vai ter seu lugar na história do jazz, algo que não desfrutou em vida. So long, Mr. Hill...

Salsa disse...

Prezado Lester, cheguei a pensar no Sr. Colina, mas o que vale mesmo é lembrar e fazer o tributo. Creio que já falei dele por aqui, mas na época em que não podíamos postar as músicas (sei lá se). Tenho a discografia e é inegável a sua criatividade com as teclas do piano.
Aliás, de passagem, o seu texto está ficando melhor a cada dia que passa.
Parabéns pro Hill e pra você.

João Luiz disse...

Procure ouvir também "SHADES", uma gravação instigante de mr.Hill. Concordo com o que voce explana em seu comentário Lester, mas com uma ressalva: mais importantes do que Andrew Hill, para participarem de sua lista de melhor pianista ,são Horace Silver, Sonny Clark, Ahmad Jamal, Mary Lou Williams, .....

JoFlavio disse...

Não é questão de ter ou não competência para entrar na lista. Mas apenas gosto pessoal. Sempre ouvi muito Jimmy Rowles, Phineas Newborn, Errol Garner, Roger Kellaway, Eubie Blake, Red Garland e, principalmente, Nat King Cole, uma das grandes escolas do piano no jazz.

cantinflas disse...

Pianista de jazz é Bud Powell.

O resto, é o resto.

manuela disse...

gostei muito do som, e da capa.

Rogério Coimbra disse...

Gostei muito das intervenções de João Luiz e Joflávio.É gosto pessoal mesmo. Qual a melhor mulher ? A minha, a sua ou a do vizinho (êpa!) ?Primeiro que Nat King Cole foi escola para muito marmanjo do jazz mas eles preferem lembrá-lo cantando Blue Gardenia.Roger Kellaway, sim, Elmo Hope. Garland, Clark, Jamal, Mary Lou. E o Denny Zeitlen, onde fica ? Phineas Newborn, Cedar Walton, Flanagan, Hank Jones. Surpresa mesmo foi o reconhecimento da genialidade de Bill Evans( atribuo aos leitores além mar), parelha com Bud Powell, que o inflenciou por sinal, como o King Cole e Monk.
Ah, como é delicioso all that jazz.

sergio disse...

Caro Lester, nesse "AQUI" que vc indica para clicar e obter Time Lines de Andrew Hill, baixei um album "All Too Soon" que não sei de quem seja. Pesquisando no allmusic descobri um único álbum com este título de Ben Webster, mas o repertório do mesmo não corresponde ao deste All To Soon que baixei. Eis o repertório do meu: 1- Caravan; 2- Sophisticated Lady; 3- All Too Soon; 4- I'm Beginning Too See The Light; 5- Mood Indigo; 6- Solitude; 7- Take The A Train; 8- Main Stem; 9- In A Sentimental Mood; 10- Just a Sittin' And Rockin'; 11- Rocks in My Bed.
Se cometi algum engano, me perdoe, baixei este álbum já há uns dias. Mas antes de dar este alarme, fiz uma pesquisinha pra saber se a confusão era minha ou de vcs. Estas são todas as informações q consegui. O problema é que agora estou com um All To Soon, cujo autor, ignoro. Se puderem me ajudar, please.

John Lester disse...

Prezado Sérgio, parece que de fato houve algum contratempo. Tente mais uma vez, creio que agora você terá sucesso.

Grande abraço, JL.

sergio disse...

Ah! Que ótimo, mas, por acaso vc não sabe que disco é o anterior do contratempo? Na verdade ainda nem ouvi, mas, vai que é ótimo. Ficar sem saber quem é o autor é muito chato. Se souberes, já vai aqui o agradacimento.

John Lester disse...

Prezado Sérgio, segue o requerido:

Quadrant Toasts - All Too Soon

Quarteto formado por Milt Jackson, vibra, Ray Brown, baixo, Mickey Roker, bateria e Joe Pass, guitarra. Disco gravado em 80 com musicas de Ellington.

Set List:
1.Caravan
2.Sophisticated Lady
3.All Too Soon
4.I'm Beginning To See The Ligth
5.Mood Indigo
6.Solitude
7.Take the A Train
8.Main Stem
9.In a Sentimental Mood
10.Just a Sittin' and Rockin'
11.Rocks in My Bed

JL

sergio disse...

Grande Lester!... Disco ouvido, aprovado e agora convenientemente catalogado. Valeu! És um gentleman.