19/08/2007

O tal do blues

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Lonnie Johnson - Compre sem medo

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Todo livro sobre jazz fala sobre blues. A maioria dos escritores, não sendo geralmente músicos, limita-se a tentar nos enrolar tecendo comentários sobre doloridas lágrimas africanas, o sofrimento, a ira e a melancolia da alma núbia escravizada. Citam depoimentos atônitos daqueles que ouviram gritos indiscerníveis que sobrevoavam campos esquecidos de algodão. Também nunca faltam referências à humilhação e ao ódio sofrido pelo povo colorido: alguns negros, em busca de libertação, suicidavam-se. Outros cantavam orações em igrejas ou clamavam por alívio ao voodoo. Outros simplesmente cantavam o blues. Alguns escribas, quando também músicos, tentam nos explicar (ou talvez confundir) dizendo que o blues é uma forma musical, composta quase sempre de 12 compassos, onde é freqüente o uso das chamadas blue notes, notas musicais instáveis que não se enquadram no temperamento usual dos 12 semitons legados por Bach. Para o desorientado leigo basta dizer que o bluesman, ao invés de utilizar as velhas e conhecidas notas DÓ RÉ MI FÁ SOL LÁ SI, passa a utilizar as notas DÓ, RÉ, MI BEMOL, MI, FÁ, SOL BEMOL, SOL, LÁ, SI BEMOL, SI. O terceiro grau blue (mi bemol) tem função exclusivamente melódica, dando aquele tom deprimente e melancólico a certas passagens do blues. O sétimo grau blue (si bemol) cumpre uma função melódica e harmônica, como que estabilizando o fraseado, além de ser bem menos sofrida que o terceiro grau. O quinto grau blue (sol bemol) é mais moderno e decorre da tendência dos músicos de jazz ao abaixamento da quinta (bemolizando a nota). Como nos esclarece brilhantemente Christian Bellest:

Enquanto o terceiro grau blue associa-se melodicamente à tônica e o sétimo grau blue à dominante sem intermediário, o quinto grau blue parece requerer, para sua resolução, um trânsito pela nota de passagem do sexto grau, a subdominante. Nota forte da escala, esse quarto grau tende, por sua vez, a resolver na fundamental (dó) através da terça maior ou, com mais frequência, menor.
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Entendeu agora ?
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A figura abaixo deixa claro que sempre que o quinto grau blue é utilizado como nota de ligação entre a subdominate e a terça fundamental aumentada, toda a estrutura mixolídica tende a interromper a sequência melódica determinada pela quinta diminuta, resolvendo-se ora pela aproximação da tônica de terceiro grau ou, em certos casos, afastando-se do modo dórico, opta pela atração da quarta diminuta acrescida de meio tom em relação à sexta aumentada:



Ou seja, nenhuma pessoa normal entende exatamente o que é o blues. Por isso, nada melhor para o leigo que apenas ouví-lo. Fazer como o não iniciado que, mesmo sem entender os cálculos matemáticos que o levam à Lua, limita-se a entrar na nave e verificar que, de fato, a Terra é azul.

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Uma coletânea bastante interessante de Lonnie, cobrindo o período de 1925 a 1932, é Playing With The Strings, onde encontramos vinte e quatro faixas com grandes acompanhantes, entre eles Louis Armstrong, Duke Ellington, Eddie Lang, Clarence Willians, Kid Ory e muitos outros. PW bluestown.


14 comentários:

Galileu disse...

Embarquemos nessa nave, que a viagem será boa.

PREDADOR.- disse...

Um texto muito professoral sr. Lester. Muita xaropada sobre história e fundamentos músicais do blues , que todo mundo já sabe. Se o propósito era falar de Lonnie Johnson e suas músicas ficou devendo. Dó, ré, mi bemol, abaixamento da quinta. Ninguém aguenta isso. Vá escutar "Carolina moon" com Thelonious Monk e não seja tão prolixo.

mathias disse...

Note, amigo predador, que o Jazzseen é como Guerra e Paz: chatíssimo, mas de leitura obrigatória.

Passar bem.

olney disse...

Vixe! Eu entendi tudinho...

John Lester disse...

Prezado Olney, que bom que retornou ao lar. Talvez sua presença afaste o abominável Predador.

Abraços, JL.

Anônimo disse...

ah, agora sim... não entendi!

vinicius

Daniel Nakamura disse...

Achei confusa essa definição teórica sobre a "blue note", John. Essa "blue note" a que vc se refere, que tem um som triste, melancólico, etc..., é a 4ª aumentada em relação ao tom da música (tanto menor quanto maior). Estou me referindo aqui ao blues tradicional e à "nota triste" que vc mencionou.

Veja bem, no jazz, o blues nem sempre é uma música triste, melancólica, feita por quem acabou de tomar chibatadas. Vide "Au Privave", ou "Blue Monk" (já que citaram o Thelonious aí em cima), que são blues até bem humorados... A concepção do jazzista é um pouco diferente do bluesman.

Eu acho sempre complicado estudar a teoria do blues, já que foi criado por pessoas que não tinham a menor instrução musical acadêmica.
E a coisa mais importante não são as notas que vc toca, mas como vc as toca. Vc pode soar bluesy tocando 3 notas, ou até mesmo uma só.
Os bluesman tocavam muito menos notas do que as que vc citou.

Daniel Nakamura disse...

Acho que vc quis deixar claro, o quanto um texto teórico pode complicar o que na verdade é extremamente simples, certo !

John Lester disse...

Prezado Daniel, pelo visto você é um dos poucos músicos com conhecimento de teoria musical que leram esta resenha. Na verdade, o quarto parágrafo da resenha é uma grande brincadeira - trata-se de um absurdo teórico que inventei, pensando que algum visitante acharia engraçado (além do que a partitura não tem nada a ver com o texto rs).

Bem, se poucos riram com a resenha, é certo que muitos choraram.

Grande abraço, JL.

Salsa disse...

Ufa, que alívio! Eu sabia que não sabia nada de teoria musical, mas aquilo me jogou na sétima esfera do inferno da ingnorança.

Internauta véia disse...

O pessoal não entendeu a brincadeira? Como não enyendo de teoria musical, no começo pensei que era realmente uma coisa muito complicada, depois entendi o que Mr. Lester queria dizer, e disse: apenas ouvir, sem maiores preocupações!( ou complicações!)

Daniel Nakamura disse...

Cara, você me deixou preocupado.rsrs. Tem muita gente que procura material de estudo de jazz, na internet, e na sua resenha você não deixa claro que é uma brincadeira.
O leigo não vai entender nada, um músico vai achar um absurdo, e um músico principiante pode achar que é sério e se confundir deveras com a confusão teórica que vc armou.
Fico mais tranqüilo em saber que vc não estava falando sério, como parecia.

Abraço !

Anônimo disse...

qual a senha do disco postado?

Anônimo disse...

Meu Nome é Tiago e Sou um Apaixonado por Blues, concordo com o Daniel, você não deixou CLARO em sua resenha que era uma Brincadeira.! Eu achei esse Site procurando por "Teoria do Blues", para estudar um pouco. Lí sua resenha e percebi que não entendo NADA de teoria musical, e só fui descobrir que era "BRINCADEIRA" lendo os comentários.!
Fica aqui o alerta de que a internet é uma MARAVILHOSA, porém perigosa, ferramenta de estudo.!
Abraços....!!