19/09/2007

Tudo é jazz IV - A confraria

Quando acordei, na sexta-feira, fui fazer o que Joshua me ensinou: brincar com o que temos. Eu tenho um Buscher 1927 com o La levemente desafinado (coisa simples, que seu Ferreira resolverá com facilidade) e um parco conhecimento de escalas. A meu favor está a descarada vontade de brincar. Telefonei para a recepção e perguntei se todos já tinham acordado (esperava não incomodar os hóspedes do mesmo modo que Wallace Roney me incomodou na véspera - confira o comentário no mpbjazz). Sinal verde e lá se foram duas horas de sopro. Parei porque estava na hora do papo/workshop com o pianista Aaron Goldberg.
O jovem pianista, dominando o português, defendeu sua tese: para tocar jazz, a primeira exigência é jogar fora a partitura e ouvir até a música e o estilo do seu jazzista escolhido correr em suas veias. Imitar é um passo necessário que, com o tempo, poderá dar espaço para sua própria dicção. A segunda tese, que Joshua havia me ensinado na prática na noite anterior, é poder brincar. Um jogo entre amigos. Questionado sobre a sua formação erudita, ele reconheceu que os exercícios também o ajudaram em sua formação. Pensei nas milhares de partituras que possuo, e concluí que eu nunca vou tocar jazz... Mas vou tentar me divertir. Para encerrar, ele chamou um baixista (que não identifiquei) e mostraram como se brinca no parquinho do jazz.
À noite, Aaron foi o primeiro a se apresentar, acompanhado por Omer, mais um membro da confraria de Tel Aviv que dominou a praça, e pelo baterista Eric Harland. Ele começou jogando para a platéia uma boa interpretação de Luiza, complementada por um excelente solo. Contudo, se antes (no post sobre Senise) eu disse que nós estamos mais para a "influência do jazz", posso dizer que as tentativas dos gringos de segurarem a mandada bossa-nova sempre resvala pro dois-pra-lá-dois-pra-cá: Inútil paisagem ficou com sabor de bolero com mambo. O que não invalida a habilidade e sensibilidade do trio. A ressalva fica para o ar cansado que Omer demonstrou enquanto tocava (parece que ele guardou todo o gás para a elogiada apresentação do seu quinteto).

Na seqüência, veio a loira e trompetista Ingrid Jensen, que mostrou domínio do instrumento mas incomodou Lester e Wilson Garzon (clube de Jazz) ao utilizar alguns recursos eletrônicos nos seus temas. A banda da loira foi a mais híbrida de todas. Parece que o único membro efetivo era Jon Wikan (êpa!), seu marido e baterista-que-gosta-de-tocar-aquele-caixote-que-está-na-moda. O grupo incluia o pianista Aaron (vi três apresentações suas no mesmo dia e uma na véspera - gosta de tocar, o rapaz) e o baixista Zeca Assumpção, que caiu de pára-quedas no lance e se esforçou para não comprometer. O momento totalmente dispensável foi a interpretação de Evidence, de Monk, com solo de caixote. Creio que se o quarteto fosse um duo (Ingrid e Aaron) o resultado seria muito melhor. Pena, pois o solo de flueghel que ela fez para mim na porta da velha igreja foi magistral, e ficou como uma promessa de bons momentos à noite.

13 comentários:

John Lester disse...

Prezado Mr. Salsa, não seja ciumento. O marido da moça toca tambor como ninguém. Monk teria adorado a versão de Evidence no atabaque. Só faltou o Carlinhos Brown!

Anônimo disse...

A Bahia agradece.

Salsa disse...

Dei uma passada no cjub e me lembrei (fui lembrado) de um lance: realmente, quem tocou bateria com Aaron foi Willie Jones.
Eu escrevi me guiando pelo programa.

Anônimo disse...

È Salsa, vc me fez pagar esse micô.No convivío dos últímos anos de sua vida, mantive uma considerada amizade com Moacyr Peixoto,um dos maiores pianistas de jazz de todos os tempos no país.Algumas situações me surpreendiam.Uma delas:ele praticava absolutamente todos os dias.Cerca de duas horas, isso antecipando ou não eventos q participaria ou do trabalho regular, num clube de grã-finos aqui em Sampa, fazendo música de fundo.Outra coisa,a sua vitalidade, nunca ví nenhum pianista de jazz tocar costumeiramente quase 4 horas com intervalos reduzidos.Fazendo com q os outros integrantes de seu trio implorassem , no limite da exaustão fisica e mental, o encerramento do "set".Ele tinha música em "jorros" em seu sangue e precisava liberar essa energia divinal.Mas uma lamentação acompanhava essa "graça" ,o conhecimento insípido da teoria musical.Era tudo no ouvido e na intuição.Se Moacyr, um músico dos maiores, lamentava essa lacuna,por sentir q essa deficiência prejudicou sua perspectiva de conseguir melhores oportunidades de trabalho, com a disciplina e conhecimento teórico o colocaria numa posição próxima de insuperável.O segredo da vida esta no equilibrío,em tudo e em todas as atividades q nos proporcionam prazer.Edú

John Lester disse...

Prezado Edú, uma das coisas que mais me atraem no Jazz é exatamente essa possibilidade de se fazer arte sem muita teoria. Basta lembrarmos de grandes nomes do jazz que nunca leram partituras muito bem, ou nunca estudaram música seriamente, ou eram autodidatas que somente depois de famosos estudaram um pouco de música: Louis Armstrong, Chet Baker, Django Reinhardt, Red Rodney, Shelly Manne, Charlie Parker, Billie Holiday e tantos outros dotados de gênio e que construíram sua arte fundamentados na intuição. O 'jazz universitário' tem esquecido muito essa característica fundamental do jazz (vide o show de Ingrid Jensen no Tudo é Jazz).

Obs: Gostaríamos de saber o que você teria de Moacyr Peixoto com Casé e outros excelentes trabalhos do pianista. Aguardamos!

Anônimo disse...

Lester, tem uma estória do pianista Makoto Ozone q ate hj me deixa intrigado.Ele é reconhecido como maior talento do instrumento q já passou pela Bekerley até os dias de hoje.Dizem q no evento final do período letivo de 1981, data de sua formatura, onde cada estudante faz uma performance, ele tocou "La Fiesta".Quem estava no auditório, trazido pelo Gary Burton, professor e depois, mais tarde ,reitor: o próprio Chick Corea, autor do tema.Acabado o evento, o Chick foi cumprimentar Makoto e disse "não textualmente".Fenomenal , vc criou uma música infinitamente superior a minha.Até hj, fiquei em dúvida se ele interpretou como ironia ou a simples constatação de um deslumbre.Qualquer recurso academico ou não ,ajudará a aperfeiçoar a música.A inspiração se servirá de ferramentas melhores pra emergir.Respondendo a sua indagação do Moacyr Peixoto eu tenho os alternate takes de gravaçoes dele pelo Estúdio Eldorado.A gravação com a big band do Erlon Chaves.O disco com o Major Holley chamado "The Good Neighboors of Jazz"."Um Piano Dentro da Noite" da Eldorado.O "Coffe Jazz", com o Casé o Luis Chaves e o Rubinho, um dos clássicos da discografia de jazz brasileira.E o projeto MFS, o penúltimo disco formal do Moacyr, o ultimo foi uma gravação bancada por um restaurante metido a besta q até fechou.Esse projeto foi financiado por um advogado,Marcos F da Silva, q montou um completo estúdio de gravação no porão de sua casa.E bem produzido, ja realizado em forma de cd,só com temas de samba,em forma de trio, com direitos recolhidos e tudo.Claro com o tempero singular q o Moacyr tinha.O curioso e q vc conseguia encontrar esse disco na lojinha da Blue Note em NY.Numa prateleira em destaque.O Cesár C. Mariano, discípulo confesso do Moacyr, pegou o dele lá.Edú

Mario disse...

Ces ainda vão ouvir muito falar de Ingrid Jensen. Ela tem feito sucesso com seu flugel e trompete por onde passa. Os comentários dos críticos de jazz pelo mundo só tem elogios a ela. Gilberto do CJUB me falou muito bem, era a minha maior curiosidade. Pra voces que viram ao vivo eu invejo.

Abraços,

Manim

Salsa disse...

No próximo festival eu pretendo reservar um bom tempo para curtir o som da praça. Quando eu comprei o "pacote" pensei que os shows seriam em horários diferentes. As ruas me atraem - há um clima de risco e liberdade que coaduna perfeitamente com o jazz. quem sabe a organização não libera alguns medalhões para animar a festa das ruas?

John Lester disse...

Prezado Manin, por aqui nós já ouvimos falar de Ingrid desde o excelente Vernal Fields, de 1995. Ou até mesmo quando ela atua como sideman (veja nossa resenha sobre a Virginia Mayhew, de 2006).

Abraço, JL.

Anônimo disse...

Sideman ? q isso, não joga água fria no Salsa.Edú

Salsa disse...

É vero - sidewoman ficaria melhor

John Lester disse...

Concentremo-nos na beleza que nos cerca, não em nossos próprios egos ofuscantes.

A vida fuirá mais fluida.

Anônimo disse...

Lester, peço permissão pra utilizar essa sua última frase em momento q julgar oportuno, uma solene quem sabe, evidentemente com o devido crédito.Edú