07/11/2007

All Night Long (1962): jazz e Shakespeare

No Clube das Terças (sim, com maiúsculas) não se fala somente sobre jazz, como muitos querem fazer pensar. O jazz sublinha as conversas, é verdade, mas nem só de música vive o homem - ou os homens. No caso do clube, o número de participantes não chega a completar os dedos de duas mãos, mas são assíduos como recém-maridos: comparecem com alegria e disposição. Bem, não é isso o que eu queria dizer. Há alguns meses chegou a minhas mãos - via Chico, um dos assíduos terceiros - o filme All Night Long, de Basil Dearden. Sim, claro: o filme tem muito a ver com o jazz, mas relaciona-se também a Shakespeare, o bardo que, se vivesse nos dias de hoje, faria misérias ao piano. Macbeth é um solo de Earl Hines; Hamlet é um fraseado de McCoy Tyner nos bons tempos ao lado de Coltrane, Elvin Jones e Jimmy Garrison. Bem, voltemos ao filme. O drama Othello é transposto para um apartamento londrino no qual uma festança - cujo anfitrião é Richard Attenborough, na pele do fã de jazz Rod Hamilton - se desenrola. Uma festança à base de jazz, na qual Charles Mingus, Dave Brubeck e o inglês Johnny Dankworth dão o ar da graça ao lado de personagens que fazem as vezes de Iago, Othello e Desdemona, interpretados, respectivamente, por Patrick McGoohan (Johnny Cousin), Paul Harris (Aurelius Rex) e Marti Stevens (Delia). McGoohan está perfeito como o invejoso e ardiloso personagem que de tudo faz para que o bonzinho e digno Aurelius Rex desconfie da mulher. Usa cigarreiras e gravações em fitas de rolo para criar a infâmia. Veja o filme e você concordará comigo: além da ótima música que corre solta, os trejeitos malevolentes de Johnny Cousin/Iago são o que há de melhor no história.
Diferentemente do drama original, a película tem final feliz. Mas feliz, de verdade, ficou a rapaziada do Clube das Terças, que pôde testemunhar Dave Brubeck e Charles Mingus tocando juntos, mesmo que por pouco tempo. Outros músicos se divertem na história: Tubby Hayes (sax tenor), Keith Christie (trombone), Allan Ganley (bateria), Bert Courtley (trumpete), Ken Napper (baixo), Colin Purbrook (piano) e Johnny Scott (sax alto). Esse povo todo - mais Mingus, Brubeck e Dankworth, já citados - estão na trilha, cheia de improvisações: A propósito: favor não confundir esse disco com o All Night Long, de Don Byrd e Kenny Burrell, disco da Prestige gravado em 1956, no qual Hank Mobley põe o estúdio abaixo.Basil Dearden, o diretor, gostava mais de jazz do que de Shakespeare, embora soubesse que seu mais ilustre conterrâneo havia criado tramas que poderiam ser ajustadas em qualquer cenário moderno. Daí a sua atualidade. E se você acha que o velho dramaurgo inglês vale mais que o jazz, vai gostar do filme do mesmo jeito.

10 comentários:

thiago disse...

deve ser nocivo, vou ver

John Lester disse...

Obrigado pela contribuição Mr. Grijó.

Treviso disse...

One se consegue esse disco? Busquei na net e consegui bulhufas...alguém sabe?
O filme eu não vi mas o Grijó conseguiu atiçar a curiosidade. Shakespeare e jazz combinam mesmo, de fato, ainda mais se omparar com um pianista astuto que ele seria.
Fui.

alberto disse...

Esse dvd andou vendendo por aqui nas lojas de Vitória, com preço bem razoável, na faixa de 18 reais. Boa sorte!

Anônimo disse...

No site da "dvd world" e encontrado a R$12,90.Nunca comprei nesta loja,só pesquisei a titulo de curiosidade.Edú

augusto carlos disse...

Filme bom e barato, recomendo aos amantes do jazz.

Anônimo disse...

tenho certeza q ficam sentados contando vantagem das mulheres que pegaram quando eram solteiros...

anonimo!

Caucasiano disse...

O disco homônimo que Donald Byrd e Kenny Burrell fizeram é, no mínimo, por asim dizer, extraordinário. E a presença esfusiante de Hank Mobley que o resenhista citou é, com certeza, o que há de melhor na gravação. Em estúdio Hank Mobley era imbatível, fazia sair do sax uma sonoridade incomparável, tinha fôlego e sabia como harmonizar as notas agudas em combinação com as mais graves. Não reconheço nenhum outro sax tenor que soubesse como fazer essa mágica.
A postagem fez justiça com uma única frase: "Hank Mobley põe o estúdio abaixo".
É isso. Parabéns pelo achado.

Prussiano disse...

Concordo com Caucasiano e acrescento: Hank Mobley era embatível em todas as áreas, em estúdio, ao vivo, só e mal acompanhado. E tem gente que vive endeusando John Coltrane, Sonny Rollins.......

vanessa disse...

Hank mobley é maravilhoso, extraordinário, com um som penetrante.
Mas gosto dele tocando com Miles Davis no Carnegie Hall.
doidera!