30/12/2007

Só por hoje

Dos modelos de tratamento terapêutico para viciados, o preconizado pelos Alcoólicos Anônimos é, sem dúvida, o mais famoso. Apareceu em 1935, por iniciativa do alcoólatra Bill Wilson e do médico Robert Smith. Juntos, iniciaram um processo de recuperação baseado na ajuda mútua. Essa união resultou na criação da Alcoholics Foundation (1938) e na publicação do livro Alcoholics Anonymous (1939), um guia para a sobriedade, baseado na prática dos famosos Doze Passos. A essência dos Alcoólicos Anônimos é o modelo espiritual: o alcoolismo é entendido como uma condição na qual o indivíduo é incapaz de livrar-se do vício por conta própria. É preciso pedir ajuda. A esperança de mudança consiste em entregar a vida a uma força superior e, a partir daí, segui-la rumo à recuperação. Wilson e Smith acreditavam em alguns preceitos fundamentais à recuperação, entre eles o conhecidíssimo “só por hoje”, reconhecendo que a luta contra a dependência é feita dia a dia, por toda a vida. Outros preceitos são dividir experiências, forças e esperanças, manter-se ativo e acreditar que um aperto de mão, um sorriso e um abraço são sempre possíveis. A popularidade do método de tratamento proposto pelos Alcoólicos Anônimos fez com que este chegasse, muitos anos depois, às clínicas de tratamento. Essa versão institucional do AA ficou conhecida como Modelo de Minnesota. Geralmente, o tratamento começa em regime fechado e isolado, podendo durar vários meses. Nessa fase, há um programa intensivo de terapia de grupo, palestras, leituras e reuniões de AA. O tratamento internado é sucedido por reuniões em salas de Alcoólicos ou Narcóticos Anônimos. A equipe é composta por antigos usuários, que completaram os Doze Passos com sucesso e passaram a colaborar com a recuperação de outros. Esse modelo influenciou e até hoje influencia boa parte das comunidades terapêuticas em todo o mundo, especialmente nos Estados Unidos e no Brasil. Mas foi na década de ’50, a partir das observações clínicas de Maxwell Jones, que surgiram as comunidades terapêuticas organizadas. Psiquiatra do exército inglês, Jones começou a desenvolver esse modelo para soldados com traumas decorrentes da II Guerra Mundial. Com esse propósito, organizou um serviço de internação baseado em abordagens educativas, encenações dramáticas e discussões, dentro de um ambiente pautado pelas normas de convivência em grupo. Mais tarde o modelo foi ampliado para outras patologias crônicas. Jones considerava que os viciados deviam reconhecer que eram fracassados dentro da sociedade. A maioria deles era desempregada e provinha de lares desestruturados. Sendo assim, recorriam às drogas na tentativa de se defenderem da sociedade hostil em que viviam. O combate ao vício, dessa forma, exigia a construção de padrões de relacionamento nunca adquiridos durante a vida, possível apenas dentro de um ambiente grupal seguro e terapêutico. Ainda durante os anos ‘50, as comunidades terapêuticas ganharam grande notoriedade como uma alternativa para o tratamento psiquiátrico em manicômios. Até então, as opções para os viciados eram, basicamente, a prisão ou o hospício. Basta lembrarmos os casos de Billie Holiday, Chet Baker, Thelonious Monk e Art Pepper, para citar apenas alguns músicos de jazz que perambularam em cadeias e manicômios. As comunidades terapêuticas exclusivamente desenhadas para o tratamento da dependência de álcool e drogas começaram a surgir durante os anos sessenta. Dois modelos de tratamento influenciaram ativamente essas primeiras comunidades: o Modelo de Minnesota, citado anteriormente, e o Modelo Synanon. O Modelo Synanon de recuperação para dependentes químicos foi uma das grandes controvérsias terapêuticas dentro da história dos tratamentos destinados à dependência química. Ele fora criado em 1958, pelo americano Charles E. Chuck Dederich. Os referenciais teóricos deste novo método iam de Platão a Freud, passando por Buda e São Tomás de Aquino. De formação leiga, Dederich não propunha apenas um modelo comunitário, mas sim um novo lar, uma nova e definitiva sociedade para todos os dependentes de substâncias psicoativas e suas famílias, caso decidissem acompanhá-lo voluntariamente. Tais dependentes eram em sua maioria indivíduos com antecedentes criminais, alguns com várias temporadas em presídios e com longo histórico de insucesso na tentativa de abandonar o consumo de drogas pelos métodos tradicionais. O método Synanon era também baseado na ajuda mútua do AA, por meio da troca de experiências acerca da abstinência e da recuperação. Mas havia diferenças fundamentais entre a ajuda mútua do AA e do Synanon: enquanto os AA partiam da entrega e da confiança em uma força superior, o Synanon acreditava na autoconfiança como preceito essencial. Era preciso reconhecer que a inveja é ignorância e a imitação, suicídio. A partir desse momento é preciso se aceitar, por bem ou por mal. Para Dederich, o desenvolvimento humano passava pelas fases de aquisição (infância), compartilhamento (adolescência) e doação (idade adulta). O dependente, quase sempre, recebeu muito, não compartilhou o suficiente e se doa pouco. Tal comportamento desviado, só poderia ser corrigido a partir de novas formas de convívio e métodos terapêuticos.O aconselhamento via confronto, um dos pilares do modelo Synanon, ficou conhecido como terapia do ataque. Dederich acreditava que o ataque verbal era a melhor forma para demolir as muralhas erguidas pelo dependente ao longo de sua vida, impedindo qualquer contato real e positivo com o seu meio ambiente. A humilhação e a atribuição de culpa eram recursos usualmente utilizados, em meio a um ambiente grupal marcado pela vociferação e intimidação. Eu mesmo, John Lester, um dos últimos internos do Synanon, utilizo até hoje essa técnica com meus leitores, em meus textos sobre jazz, e com meus ouvintes, em meus solos de sax alto. Outro fundamento do método Synanon era o trabalho, tanto para a recuperação e reintegração, como para determinar a posição dos viciados dentro da comunidade instituída. Assim, aos recém-chegados cabiam as atividades braçais mais grosseiras e subservientes, tais como a limpeza do lixo e dos banheiros, enquanto os que progrediam iam recebendo incumbências mais complexas e administrativas. Cabia também aos mais novos, a arrecadação de donativos, por exemplo, por meio da venda de canetas e outros pequenos objetos.Apesar da ampla oposição dos profissionais ligados aos modelos tradicionais de tratamento, o Synanon gozou de grande prestígio dentro da sociedade norte-americana. Doações milionárias, matérias em jornais e revistas (inclusive na Down Beat), filme de Hollywood (Synanon, 1965, muito ruim por sinal), álbuns de jazz (até onde sei, foram três), apoio de artistas e intelectuais, palestras em igrejas, escolas e universidades, trouxeram grande notoriedade ao modelo e a seu idealizador. A partir dos anos setenta, no entanto, Dederich decidiu transformar o Synanon em religião, centralizada, segundo se diz, na obediência total a sua figura. Vasectomias e troca de casais entre alguns seguidores (por ordem do líder espiritual), além de acusações de maus-tratos e atentados (há notícia, inclusive, de algumas terapias onde o viciado era confrontado com cobras venenosas), foram aos poucos jogando no ostracismo o lado positivo do Synanon. O modelo, no entanto, não desapareceu por completo com a morte de Dederich (1991) e parte de seus preceitos ainda é utilizado como método de prevenção nas escolas e como recurso terapêutico. Seja lá como for, posso dizer que, logo no início dos trabalhos do Synanon, diversos músicos de jazz estiveram por lá e, por incrível que pareça, gravaram excelentes álbuns. O que tenho em mãos, Sounds of Synanon, foi gravado em 1962 pelos seguintes internos: Joe Pass (g), Arnold Ross (p), Dave Allen (t), Greg Dykes (horn), Ronald Clark (b), Bill Crawford (d) e Candy Latson (cg). Trata-se da estréia de Joe Pass em vinyl, após anos perdidos com as drogas, algumas passagens pela prisão e idas e vindas em pequenos conjuntos sem expressão. O fato é que, depois de sua longa passagem pelo Synanon, Joe consegue se estabelecer como um dos melhores guitarristas de jazz de todos os tempos, gravando abundantemente e construindo uma carreira que, não fosse a ajuda de Dederich, não sabemos como teria sido ou, sequer, se teria existido. Para os amigos fica a faixa Self Image onde, mesmo com uma velha guitarra de rock emprestada (Joe não possuía sua própria guitarra na época), já se podia ouvir a genialidade do mestre.

Sounds of Synanon ...

14 comentários:

dope disse...

Lembro que Lester salvou muitos do vício com a simples ameaça de fazê-los ouvir longos solos de seu saxofone. Grande Lester!

Salsa disse...

Pois esse papo teve efeito contrário para mim. Vou ligar a radiola e beber uma garrafa de vinho. Cacilda, haja!

Anônimo disse...

Ufa!!!!!

thiago disse...

só por hoje é mole, sinistro vai ser amanhã!!!

PREDADOR.- disse...

Alcoolico e extensivo texto sr "Edu Lester". Estafante!

augusto carlos disse...

so mesmo no jazzseen pra gente ler coisas assim, valeu lester!

F. Grijó disse...

Meu amigo, que em 2008 o Jazzseen continue na ponta-de-lança do jazz.
Grande abraço a vc e aos freqüentadores do blog.

Ótimo 2008!

http://mesmasletras.blogspot.com/

alexandre disse...

valeu maluco, feliz 2008!!!

Chef Buonaboca disse...

Senhores,
Acabei de abrir o Céu da boca. Blog especializado em botecos e comidas adiposas (e gostosas). Convido-vos para apreciarem uma buchada de bode, postada a pouco. Gostaria de sugestões de bares para serem visitados e valiados pela nossa equipe de abalizados gourmets.

Mª. augusta disse...

Achei legal o nome do blog (Céu da boca ), mas buchada de bode? Sugestão num blog de JAZZ? Ou será que estou enganada,e uma coisa não tem nada a ver com a outra? Sei não...ainda mais ouvindo, como estou agora, um CD de tiragem reduzidíssima, diria até exclusiva, de puro Monk...decididamente, não combina com buchada de bode!

Mª. augusta disse...

Quanto à resenha, é bom lembrar o que grupos como esses fizeram , e ainda fazem, apoiando quem precisa e quer este apoio. No caso dos músicos citados, a faixa Self Image mostra que vale a pena o esforço...

Chef Buonaboca disse...

Maria,
Jazzófilos também vão a botecos. Eu costumo ir (também giosto de jazz), e encontro um monte de amigos. Aliás, aqui em Vitória, a maioria dos recintos que nos permite ouvir um pouco de jazz está incluída na categoria "botecos". Pedi sugestão de bares para que eu possa visitar e experimentar os acepipes servidos e repassar meus comentários no Céu da boca. Gosto de viver perigosamente e, unindo o agradável ao útil, fiz o blog com a intenção de, como um farol, alertar os incautos navegantes que se arriscam na seara "botequeira".
Esquece o bode e faça uma visita.
PS: Você está certa: Monk não combina com aquela buchada.

Mª. augusta disse...

Nada contra botecos, pelo contrário, o que "descombinou" foi a dita cuja b d b , ui!

John Lester disse...

Adoro comer buchada de bode (mal passada) enquanto ouço Monk tocando Trinkle, Tinkle, com solos de Coltrane.

A precariedade do prato é um delicioso paralelo aos solos de Coltrane, realizados nas mais precárias condições harmônicas impostas por Monk.

E se tudo isso acontecer num boteco sujo e barulhento, com bêbados puxando assunto, é o céu!

Grande abraço a todos e sucesso ao Céu da Boca.