22/01/2008

Jazz painting

Em resenha recente, na qual riscamos breve esboço sobre o amigo Martin Joseph, pianista inglês radicado no Chile, tivemos oportunidade de citar uma experiência bastante interessante: o intercâmbio entre jazz e pintura. Esse namoro complicado, cheio de paixão e ódio, tem início na década de 1910, época em que tanto os músicos norte-americanos de jazz quanto os pintores da vanguarda européia pareciam ter encontrado no ritmo e no improviso espontâneo novas perspectivas para suas respectivas artes. Isso não significa supor que haja exclusividade nesse namoro entre jazz e pintura: a milenar música clássica chinesa, vale lembrar, sempre foi indissociável da pintura. Bem assim muitas das experiências da música clássica européia encontraram na ‘imagem’ sua inspiração ou, ao contrário, sua representação. Quem poderia esquecer, por exemplo, do genial e insano sonho de Richard Wagner, o de construir sua utópica gesamtkunstwerk (obra de arte total)? Partindo do conceito havido na tragédia grega, onde texto e música eram conceitos indissociáveis, Wagner pretendeu reunir cinco elementos que formariam, segundo ele, a obra de arte total: o tema dramático, o texto, a orquestra, a voz e a imagem (que, em Wagner, deve ser entendida como um complexo formado pelos painéis, figurinos, iluminação, sombra e movimento). Embora tenha obtido êxito em quase todos os elementos, Wagner nunca conseguiu, em vida, elaborar a ‘imagem’ perfeita de sua gesamtkunstwerk. Restam-nos as pinturas que Arthur Rackham, Aubrey Beardsley e Ul de Rico, entre muitos outros, produziram a partir das obras de Wagner.


No caso do jazz, é preciso entender seu namoro com a música como um produto específico (fortemente destacado pelo papel do improviso) contido no interior de um momento onde a abstração tomava conta da pintura e a cultura era tomada de assalto por reclames de liberdade em todos os níveis. Se agora a pintura queria mergulhar na perigosa liberdade oferecida pela abstração, nada melhor que aproximar-se da arte considerada abstrata por definição e natureza: a música. Foi assim que Pablo Picasso pintou cenários para Erik Satie e Paul Klee pintou seu fabuloso Trio Abstrato (segunda foto). Tirando as casas de ópio, nada poderia ser mais adequado ao espírito artístico do início do século XX que a reunião da abstração com o improviso. Daí, para os pintores chegarem ao jazz, bastaram uma audição e um olhar. Em 1913, após ouvir o blues em New York, Picabia pinta seu Chanson Nègre. No mesmo ano, Sonia Delaunay (mãe de Charles, que fundaria a Jazz-Hot em 1935) pinta Le Ball Bullier, inspirada no foxtrot.

Em 1915, além de enviar partituras de ragtime para Cocteau, Albert Gleizes pinta uma série de quadros inspirados nas noites que passou com Marcel Duchamp nos primeiros clubes de jazz do Harlem, em New York. Em 1918, também em New York, Fernand Lèger expõe Les Disques, obra que causa forte impressão em alguns músicos de jazz, que a tomam como inspiração para improvisos. No mesmo ano, Marcel Janco pinta Jazz 333. Foi também em 1918 que o pintor norte-americano Gerald Murphy se instalou na Cote d’Azur, levando consigo aquela que seria a primeira boa coleção de álbuns de jazz da Europa. No ano seguinte, Man Ray produz Jazz, uma de suas primeiras obras em aerógrafo. Pablo Picasso, que desde sua fase azul (ver, por exemplo, O velho guitarrista, de 1903) já confessava em seus trabalhos sua paixão pela música, faz clara referência aos músicos de jazz em suas duas telas Three Musicians, ambas de 1921. Em 1923, Fernand Léger produz os cenários e os figurinos para o balé La Création du Monde, de Darius Milhaud, composto sob influência direta do jazz.

Em 1925 Yves Tanguy faz sua primeira exposição, no Salon de L’Araignée, apresentando uma série de silhuetas de músicos de jazz. Enquanto isso, na geométrica e alemã Bauhaus, Kandinsky pintava uma série intitulada Swinging, ao passo que, na França, Henri Laurens faz o retrato de Josephine Baker, grande sensação da Paris dos anos ’20. Em 1926 Frantisek Kupka pinta suas primeiras telas sobre jazz, entre elas Le Jazz Band Machiniste. Mais tarde, na década seguinte, Kupka voltaria ao jazz, com sua série Jazz Hot. Em 1927, Paul Colin realiza os cartazes da Revue Nègre, onde Josephine reinaria absoluta. No ano seguinte, o jazz atinge o expressionismo alemão, como provam as telas de Beckman e Otto Dix (primeira foto). Enquanto isso, no Novo Mundo, Stuart Davis, um notívago habitante do Greenwich Village dos anos ‘30, faz do jazz sua principal fonte de inspiração, como demonstra sua série intitulada Pads, onde os improvisos do jazz são traduzidos através da combinação de infinitos planos coloridos. Nas horas vagas, será ele o responsável por apresentar Mondrian aos clubes de jazz de New York, onde o mestre dos retângulos morreria em 1944.


São dessa época, e sob essa influência, as últimas obras primas de Mondrian, como a bem conhecida Broadway Boggie Woogie. Nos anos ’40, músicos e pintores resolvem tentar uma colaboração em tempo real: enquanto os músicos improvisavam, os pintores pintavam. Os primeiros registros oficiais desse intercâmbio parecem ser os de Jean Berthier ao lado do contrabaixista Henri Texier, em 1966. Célebre, ainda nesse contexto, é o encontro de Georges Mathieu com o baterista Kenny Clarke. Na década seguinte, com o surgimento do long play, as capas dos discos passariam a servir de excelente base sobre a qual muita arte seria produzida – basta lembrar a pintura de Chirico (última foto abaixo) para o álbum Misterioso, de Thelonious Monk. Monk, aliás, seria retratado por vários mestres, entre eles Victor Bauner, em 1948. Outros artistas se destacaram nessa arte das capas, tornando a música quase visível e mastigável, como David Stone-Martin e Raymond Moretti para a Verve, Andy Warhol na Blue Note, Edmond Khon na Pacific Jazz, sem falar no símbolo do selo Pablo, cujo autor é Picasso. É também na década de ’40 que observamos o surgimento do grupo Cobra, formado por jovens artistas dispostos a compor livremente seus quadros, através de cores fortes e traços improvisados. Entre seus integrantes, vários mantiveram fortes e explícitos laços com o jazz, como Corneille (Bebop Orchestra), Karel Appel (retratos de Count Basie, Miles Davis e Charles Mingus) e Jacques Doucet (Homenagem a Armstrong). São também dignas de nota as pinturas de Jean Dubuffet (quarta foto) acerca das jazz bands desse período. Na mesma década, do outro lado do oceano, a maioria dos artistas mergulhados na abstração e na action painting mantém contato, ainda que não sistemático ou permanente, com o jazz.


Entre eles, é preciso destacar Franz Kline (terceira foto) que, desde seu Jazz Hot de 1940, até seu King Oliver de 1958, é confessadamente o pintor norte-americano mais seriamente influenciado e dedicado ao jazz, ao lado de Romare Bearden e Sam Francis. Durante essa década e a seguinte, o caso de amor entre a pintura e o jazz é profuso, atingindo situações extremas na década de 1960, como é o caso da exposição L’Age du Jazz, ocorrida entre 29 de abril e 24 de maio de 1967 no Musée Galliera, onde foram reunidos os trabalhos de cem artistas sobre o tema. Outro aspecto pouco lembrado, mas igualmente interessante, é o fato de que vários músicos de jazz dedicaram-se à pintura, como Django Reinhardt e seus nus neo-naifs, ou Charlie Parker e seus retratos de família, ou Miles Davis e suas monstruosas figuras femininas. No contexto do free jazz, onde Pollock reinou quase absoluto, diversos personagens do jazz experimentaram o pincel, como Ornette Coleman, Don Cherry e Paul Bley. E o namoro continua, desde a homenagem que Magritte prestou a Louis Armstrong em 1976, até nossos dias, com o movimento da nova figuração e do graffiti, nascidos em New York e muito bem representados por artistas como Jean-Michel Basquiat, Alechinsky ou Keith Haring (quinta foto). Como não há tempo nem espaço suficiente para continuarmos nossa estória de amor, deixamos a faixa We See, com Monk. Apesar de ser música, quase podemos mordê-la. Até a próxima!

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14 comentários:

thiago disse...

monstruoso...

augusto carlos disse...

Não diria monstruosa, mas impressionante a resenha. Espero por outras.

alberto disse...

Lester, não esquece de levar o álbum do virgil gonsalves amanha, ok?

Marília disse...

Adorei o seu blog!

neto-rj disse...

no album do monk nao sei o que e melhor, se a capa ou a musica

olney (de ktá) disse...

Parabéns, Lester; mais um post sensacional! Adorei!

olney

avaliador de blogs disse...

Informação: 6,75 - Sentimento: 3,47 - Média: 5,11

CigarraJazz disse...

A música e as outras artes sempre se relacionaram muito bem. E esta história do jazz versus pintura está muito bem contada. Mais uma vez, os meus parabéns.
Um abraço.

amílcar disse...

resenha espantosa...

Rogerio Coimbra disse...

Isso é do tempo do vinil, que não volta mais. Se nem o CD conseguiu resgatar essa associação, pelo mínimo espaço, imagine agora na era dos MP3...Capa inesquecível tb é o do Time Out, de Fujita, um designer,certo?E as capas da Blue Note, doReid Miles? Já não se faz jazz como antigamente, já dizia Garibaldi e o Predador.

Anônimo disse...

A apreciação visual de 1 min das obras citadas equivale mais ,pra mim,que assistir 1000 dvds de 4D(se existe isso).Edú.

John Lester disse...

Obrigado a todos os amigos pelo carinho e atenção dedicados ao Jazzseen. Somos poucos, mas conseguimos perceber a arte.

Grande abraço, JL.

F. Grijó disse...

Comentei no CT, na última, sobre essa postagem.
Sem palavras, JL.
Primor.

F. Grijó disse...
Este comentário foi removido pelo autor.