08/02/2008

Harold Land, anos 50: dois discos

Um pouco de jazz, já que há muito não falo de. Contrariando a importância e o pioneirismo do trompetista Louis Armstrong, o sax tenor, para muitos, é o instrumento que resume o jazz. Qualquer compêndio jazzístico dedica páginas e páginas a titãs consagrados como Coleman Hawkins, Lester Young, Ben Webster, Sonny Rollins e John Coltrane. A célebre rapaziada do Jazzseen, nos últimos tempos, tem dedicado - com muita justiça, é bom que se registre - vários posts a um outro gigante do sopro tenor: Stan Getz. Dia desses, numa reunião (formal, com ata e adendos burocráticos) do Clube das Terças, ouvia eu, ávido aprendiz, um papo entre meus amigos John Lester e Garibaldi sobre um tenorman que muitos desconhecem: o texano Harold Land, em minha opinião tão representativo do west coast jazz quanto Stan. Confesso que prefiro Harold, embora Getz seja muito mais popular - e, justamente por isso, mais acessível. Harold Land se dizia discípulo de Coltrane - embora sua inspiração primeira tenha sido o Hawkins de Body and Soul -, criando um som particularmente intenso e sólido, com fraseados de também intensa improvisação, reveladores da alma do jazz. Na pimeira metade dos anos 50 fez parte do quinteto Clifford Brown-Max Roach, gravando maravilhas como Delilah e Jordu, sem contar a magnífica balada Darn That Dream, exemplo do perfeito casamento entre ele e o habilísimo pianista Richie Powell. Ainda nos anos 50 - mantenho-me nessa década por questões de predileção -, Harold Land fez dois discos que considero obras-primas, peças irretocáveis com repertório hard bop em que o tenorman enche qualquer ambiente com seu som vitaminado, fazendo das harmonias - aí o intertexto com Coltrane, embora ele vá se confirmar nos anos 60 - seu mais farto e invejável patrimônio.

É só ouvir Speak Low, do álbum Harold in the Land of Jazz, de 1958, ou The Fox, do álbum homônimo, que veio ao mundo um ano após. E, divorciado de Richie Powell, encontrou nos pianistas Carl Perkins e Elmo Hope o que precisava para expandir cada vez mais sua criatividade, seja em composições de sua autoria (como Smack Up, Promised Land, The Little Chris e The Fox), seja em pérolas como Nieta, de Elmo Hope. Repito: por predileção me mantive nos anos 50, mas Land foi além da década, formando grupos com o trompetista Blue Mitchell e com o vibrafonista Bobby Hutcherson - e dessas uniões brotando discos também essenciais àqueles que apreciam o jazz e, mais especificamente, a sonoridade do tenor. Harold Land morreu em 2001, aos 73 anos. Os discos: Harold in the Land of Jazz: Harold Land (sax tenor), Rolf Ericson (trompete), Carl Perkins (piano), Leroy Vinnegar (baixo) e Frank Butler (bateria). The Fox: Harold Land (sax tenor), Dupree Bolton (trompete), Herbie Lewis (baixo) e Frank Butler (bateria).

11 comentários:

Danilo Toli disse...

Concordo totalmente com o Grijó.

diego disse...

Beleza!

cd disse...

Esse Grijó sabe das coisas (o seu blog, aliás, é muito bom). Já tivemos o prazer de postar alguma coisa sobre esse disco, um disco cult, lá no jazzigo.

John Lester disse...

Prezado Grijó, obrigado por mais uma excelente resenha.

Grande abraço, JL.

thiago disse...

kd a musica?

JoFlavio disse...

Mr. Grijó.

A ausência do Parker entre os titãs consagrados do sax foi mera distração ou Bird não estã entre os seus preferidos? A propósito, em seu último CD (2007), chamado I'm Confessin, o saxofonista Steve Grossman traz um quinteto tendo como sideman Harold Land. E o CD é ótimo, mostrando Land em sua melhor forma - as gravações foram feitas em 1992 e somente no ano passado reveladas.Completam o grupo o pianista Fred Henke, o baixista Reggie Johnson e o baterista Jimmy Cobb.

JoFlavio disse...

Mr. Grijó

Falha nossa. Só agora percebi que vc se refere apenas aos tenoristas.

daniela disse...

Não conhecia esse músico, obrigado Grijó.

F. Grijó disse...

Eu é que agradeço a generosidade dos comentários.
A todos e, claro, ao amigo JL, que me concede o importante espaço.
Valeu.

PREDADOR.- disse...

Quando ouvi pela primeira vez este disco(The Fox), detestei-o. Há uns meses atrás tentei reescutá-lo com os "ouvidos" de Garibaldi. Mudei minha opinião e passei a encará-lo como um dos bons discos do Harold Land, apesar da bateria "esporrenta" de Frank Buttler. É um disco interessante, apesar de gostar mais do "In the land of jazz" e dos discos com Red Mitchell Quintet (Hear Ye!) e daqueles em que participa como side-man de Clifford Brown. Valeu a resenha mr.Grijó.

vanessa disse...

Adorei.
O disco, a resenha.
Tudo.