06/02/2008

Castanholas

Charles Mingus não era apenas um homem imenso e descontrolado que surrava seus músicos quando erravam alguma nota (são clássicos os cascudos que deu em seu trombonista Jimmy Knepper). Ele também tinha um lado inegavelmente doce: não há sequer um registro policial de que tenha disparado sua arma, que levava na cintura em suas apresentações ao vivo, em algum ouvinte mais falador. É aquela coisa: todos queremos nos sentir protegidos, principalmente quando temos apenas 1,90m e 100kg. Além de sua gentileza, muito além, estava sua profunda e dilacerante ironia, não a ironia de um petista que conserta sua mesa de sinuca com um cartão funcional, mas a ironia rascante do gênio irrequieto. Em seu álbum Tijuana Moods, gravado no estúdio A da RCA de New York, entre 18 de julho e 6 de agosto de 1957, com Ysabel Morel (v); Lonnie Felder (fala); Shafi Hadi (as, ts); Clarence Shaw (t); Jimmy Knepper (tb); Bill Triglia (p) e Dannie Richmond (d), Mingus presta sua ‘homenagem’ aos cucarachos. Na terceira faixa do álbum, Tijuana Gift Shop, Mingus primeiro zomba afrontosamente com meia dúzia de lugares-comuns do latin jazz para, em seguida, misturá-los de forma assustadoramente criativa, produzindo, quem diria, jazz. 


Foram raríssimos os músicos de jazz que se deram ao trabalho de manipular o material latino disponível de forma tão autêntica, criativa e convincente. Acredito que Mingus foi o músico do jazz que melhor soube dosar essa influência caribenha que sempre rondou o mundo do jazz e, apesar de despudoradamente explícitas as citações latinas, ao final todas soavam discretamente articuladas ao contexto jazzístico. Com incrível habilidade e talento, Charles exige de nós atenção aos detalhes e, sobretudo, senso de humor quando ouvimos a maioria de seus álbuns, sob pena de pensarmos estar ouvindo apenas mais um disco de jazz. Sua habilidade com a utilização do blues foi idêntica, mas fica para uma próxima resenha. Só é preciso registrar que, nesse álbum, Mingus põe Frank Dunlop, um dos melhores bateristas da época, tocando castanholas. Pode?

16 comentários:

lua disse...

pô, eu ia comprar, mas tiraram meu cartão funcional...

F. Grijó disse...

Tenho isso, com outra capa, naturalmente.
Não gosto muito, mas, claro, é disco para cortinas abertas.

Garibaldi regozijar-se-á.

F. Grijó disse...

E está aprovadíssima a capmpanha tabagista do Jazzseen.

abílio disse...

Faixa dentro do contexto, mas chatinha de doer.

Anônimo disse...

Essa é a capa original do LP,inclusive com o selo de 180 gramas padrão,peso de excelência do vinil.Tenho uma relação com Mingus próxima a que JL tem com Duke Ellington,Bill Evans,Art Tatum e , soube agora, Errol Garner.Edú

tavarez disse...

dispenso a castanhola

cd disse...

Texto divertido. Lembra a estória da Carla Bley procurando Paolo Fresu. Ela foi parar num clube boliviano onde tocava um grupo mariachi. Mariachis, insetos e bananas permeiam o périplo da maluquinha e seus comparsas.
Mingus é um alquimista que também sabia fabricar músicos. Ouvi recentemente o trombonista citado numa sessão com Benny Wallace. Seus solos me soaram bastante out.

Anônimo disse...

Melhor ficar em silêncio...
Estou "boquiaberta" com o site. Não o conhecia.
Parabéns!
Raquel

PREDADOR.- disse...

Estou boquiaberto é com tanta porcariada que o sr. Lester coloca no "site". Mingus, embora excelente contrabaixista, fazia músicas complexas, de dificil assimilação. Com castanholas, nem Garibaldi aguenta!

RCoimbra disse...

Lester: Esse � um dos mais emblem�ticos discos do Mingus resultado de altas, e profundas, viagens ao M�xico, juntamente com o Richmond. � um Mingus indispens�vel.

Sergio disse...

É já a 2ª vez que escuto hoje. Mesmo a faixa das castonholas é muito boa. Quer dizer que o Knepper era movido a cascudo? Bem, teve um monte de gente boa que morreu preferindo fazer a cabeça de outras formas...

Guzz disse...

esse é dos melhores !!
um disco completo

tive em vinil, duplo
em CD não tem a faixa alternate da Ysabels Table Dance, o ponto alto do disco - uma pena, não entendi porquê tiraram essa faixa do cd

um disco obrigatório
mandou bem Mr.Lester

Guzz disse...

mais ...
Dannie Richmond não era baterista, ele pegou a bateria pra "quebrar um galho" e acabou ficando

um disco cheio de histórias, como o próprio Mingus relata
mulheres, drogas, tequila e tudo "do mal" cercaram o desenvolvimento desta obra-prima

John Lester disse...

Prezados Rogério, Sérgio e Guzz, bom ver vocês por aqui.

Rogério, sentimos sua falta ontem, no Clube das Terças. O Marcelo Bambam esteve por lá, contando sobre os pequenos e excelentes festivais de jazz na Itália, onde esteve recentemente.

E, Guzz, estamos aguardando sua apuração dos dez da ilha deserta.

Grande abraço, JL.

Anônimo disse...

O cd duplo, com os "alternate takes", foi lançado em 2001.Acho que mais por oportunismo comercial do que por importância.Edú

Danilo Toli disse...

Tenho ao menos 5 álbuns de Mingus que me apetecem mais. De qualquer modo, Mingus é Mingus, Mingus, Mingus, Mingus, Mingus, Mingus.