15/09/2008

Flauta doce de abóbora

Vovô Acácio sempre dizia que o ipê só não deu nome ao Brasil porque ele é mais exuberante no inverno e Cabral foi dar por aqui no verão. Enquanto podava cuidadosamente sua querida pata-de-vaca, vovô ouvia um tal de James Clay e resmungava: minha filha, uma das cenas mais terríveis que presenciei durante meu período de exílio no Alentejo – quando fugia da Scotland Yard – foi ver e ouvir um tal de Francisco Terrão, vinhateiro centenário da região, tocando sua flauta de tamborileiro. A pura e inocente satisfação de Francisco nem consistia propriamente no som inusitado que retirava de seu instrumento, mas antes na incrível liberdade que este modelo de flauta fornece ao intérprete: ela é tocada com apenas uma das mãos, permitindo que, com a outra, Francisco pudesse bater com um pandeiro na coxa. Entre um solo e outro, Chico largava o pandeiro e beliscava um bolinho de bacalhau e sorvia um bom gole do drástico tinto local, produzindo, assim, sonoridades que vaticinavam o free jazz. Lá da cozinha, enquanto fervia em lentas bolhas seu lendário doce de abóbora com côco ralado e cravo da Índia, Vovó Tícia reivindicava em tom queixoso que flautista de verdade era Patápio Silva. Vovô dava de ombros, defendendo Frank Wess, primeiro músico a fazer a flauta swingar. E prosseguia: flauta todo mundo sabe o que é: aquela coisa cilíndrica, um tubo com alguns furinhos dispostos estrategicamente ao longo do corpo, sobre os quais colocamos e retiramos os dedos, ao mesmo tempo em que sopramos numa das extremidades do tubo. Ou seja, a flauta é um instrumento estranhíssimo, do tipo que tinha tudo para dar errado – observe atentamente alguém tocando uma flauta transversa (aquela em que o tubo cilíndrico forma um ângulo de aproximadamente 30 graus com o nariz do intérprete). Nessas horas, sempre tenho a nítida impressão de que existe alguma coisa errada: ou a flauta vai cair no chão, ou o som não vai sair a contento, ou o dedo vai errar o buraco, sei lá, flauta sempre me deu aflição e angústia, dizia vovô. Não é como um bom e simples trompete, em que você assopra e pronto, o som sai firme, definido, amplo e sem rodeios. O tocar flauta, mal comparando, é como a aterrissagem do albatroz, difícil e atabalhoada. Há poucas coisas no mundo mais estranhas e incômodas do que, por exemplo, testemunhar um cidadão tentando retirar som de uma flauta baixa em dó.
Pois bem, de origem milenar e presente em quase todas as culturas conhecidas e, em especial, nas desconhecidas ou exóticas, inexplicavelmente a flauta atingiu uma situação de tranqüila perenidade ao ser incluída como instrumento oficial da música clássica européia, passando, assim, a freqüentar as melhores orquestras e os mais refinados conjuntos de câmara. Por volta de 1850, Theobald Boehm desenha o modelo padrão desse instrumento que, até então, possuía variadas formas, era elaborado com diversos tipos de material, apresentava variadas quantidades de orifícios, dispostos em posições também variáveis ao longo do tubo que poderia apresentar, ainda, diversos tipos de embocadura (bocal). Hoje a flauta padrão segue o modelo estabelecido por Boehm, sendo fabricada geralmente em metal, mas também em madeira. Todas são compostas de três partes que se unem e, de acordo com o comprimento do tubo, fornecem os quatro tipos principais de flauta, da mais aguda a mais grave: a piccolo em dó, a de concerto em dó, a alto em sol e a baixo em dó, sendo que esta última apresenta um tubo em forma de U na parte onde fica o bocal. Retirando as luvas de jardinagem, vovô Acácio vasculha com os dedos alguns álbuns da velha estante da garagem, procurando o álbum A Double Dose Of Soul, gravado em 1960 para a Riverside. Enquanto isso, comentava: embora já existissem alguns arranjos para flauta desde o ragtime, o fato é que até 1920 esse instrumento era muito pouco usado no jazz. O primeiro caso diagnosticado de flauta no jazz se deve ao clarinetista cubano Alberto Socarras que, em 1930, grava You Can’t Be Mine, em que seu solo causa espécie muito mais pela técnica clássica do que pelo improviso jazzístico. Na verdade aquele que é considerado o primeiro flautista do jazz é o saxofonista Wayman Carver que em 1933 grava Devil’s Holiday em companhia de Benny Carter. Carver fez da flauta seu segundo instrumento, realizando uma série de importantes gravações pioneiras, inclusive I Got Rhythm, em 1937, com a banda de Chick Webb. Outro pioneiro da flauta menos conhecido foi Harry Klee que, entre outras, gravou a faixa Caravan com a banda de Ray Linn em 1944. Ao seu lado, ainda na década de 1940, estava o talentoso Jerome Richardson que, como integrante da banda de Lionel Hampton, gravou interessantes solos de flauta – como em Kingfish, de 1949 e There Will Never Be Another You, de 1950.
Apesar dessas iniciativas isoladas, até a década de 1950 a flauta não passava ainda de mera curiosidade no mundo do jazz, absolutamente dominado pelos saxofones e trompetes. Especula-se que os motivos seriam seu baixo volume de som, especialmente quando comparado ao trompete e ao saxofone – além de sua magra sonoridade e de seu timbre extremamente distinto dos demais instrumentos utilizados no jazz – tudo isso mantinha a idéia entre instrumentistas e arranjadores de que a flauta deveria continuar como sempre foi: um instrumento da música clássica. Passada a fúria descontrolada do estilo New Orleans e a histeria organizada do estilo Swing, começa o jazz a abordar novas trilhas que certamente aproveitariam toda a beleza sutil oferecida pela flauta. Alguns músicos passaram a observar que a flauta tinha muito a ver com o estilo desenvolvido por Lester Young, com sua improvisação etérea, fluida, delicada e aparentemente natural. Além disso, com o advento da amplificação, a flauta passa a contar com uma tecnologia que colocava seu volume de som à altura dos demais instrumentos. Foi, sobretudo, no estilo West Coast que gente como Marty Paich, Shorty Rogers e Pete Rugolo, atraídos pela sonoridade e pela orquestração da música clássica, começaram a escrever arranjos para flauta e outros instrumentos até então estranhos ao jazz. Foi também por essa época que a música latina – onde a flauta possuía uma sólida tradição – começou a exercer uma forte influência sobre a música popular norte-americana. Assim é que, em 1953, Frank Wess começa a se dedicar com carinho à flauta, como integrante da banda de Count Basie. Com seus solos repletos de swing, Wess demonstra que o papel da flauta no jazz não ficaria adstrito aos estreitos limites propostos pelo jazz West Coast. Sua primeira gravação pilotando a flauta foi Perdido, gravada em 1954. Outro bom exemplo encontramos na faixa The Midgets, que faz parte do álbum April In Paris, gravado por Basie em 1955. Em contrapartida, na costa oeste, Bud Shank realiza como sideman interessantes trabalhos com flauta ao lado de Howard Rumsey e seu Lighthouse All Stars (álbum Sundey Jazz, gravado em 1954). Nesse interessante álbum cabe destacar a presença de Bob Cooper tocando oboé e english horn. E Bud não estava sozinho nessa empreitada em favor da flauta: também experimentavam o instrumento Jerome Richardson, Buddy Collette, Paul Horn e, um pouco mais tarde, Eric Dolphy. Collette foi o primeiro a se aventurar nos quatro tipos orquestrais – Piccolo, flauta de concerto, flauta alto e flauta baixo. O álbum é Buddy Collette’s Swingings Shepherds, gravado em 1958 para a EmArcy. A coisa ia tão bem para a flauta nessa época que, até mesmo no Canadá, Moe Koffman fez grande sucesso com a faixa The Swingings Shepherd Blues, contida no álbum Cool And Hot Sax, gravado em 1957. É claro que Gil Evans não poderia ficar indiferente a tudo isso, incluindo na faixa Summertime, do álbum Porgy And Bess, gravado em 1958 por Miles Davis, uma seção dedicada às flautas em seus arranjos.
Em 1956 a famosa revista Down Beat estabelece o prêmio anual de melhor flautista, ao mesmo tempo em que as orquestras passam a exigir que os saxofonistas e clarinetistas toquem também a flauta. Os três maiores destaques nesse período foram os flautistas Bobby Jaspar (belga), Sam Most e Herbie Mann. O público de jazz sempre se manteve dividido sobre quem seria o melhor flautista, se Most ou Mann. Se de um lado afirmavam que “Most is the man!”, do outro retrucavam que “Mann is the most!”. Essa rivalidade entre Sam Most e Herbie Mann rendeu bons frutos, como é o caso da gravação que realizaram juntos em 1955 e dos concertos em que se apresentaram lada a lado. Mann foi o primeiro músico de jazz a escolher a flauta como instrumento principal de sua carreira. Um dos melhores trabalhos de Herbie é o álbum Standing Ovation At Newport, gravado em 1965 e repleto de influência latinas, africanas e do oriente médio. Sam Most e Sahib Shihab estão entre os primeiros flautistas a utilizar a técnica de cantar ou murmurar enquanto tocam, produzindo incríveis efeitos de entonação e timbre. Outra prática similar foi utilizada por Yusef Lateef, que emitia sílabas no interior da flauta enquanto a tocava, obtendo inusitadas articulações, conforme podemos constatar em seu álbum The Sounds Of Yusef Lateef, gravado em 1957. Já Roland Kirk optou por falar dentro da flauta, obtendo um timbre vocal rascante, como na faixa You Did It, You Did It, do álbum We Free Kings, de 1961. Inúmeros instrumentistas talentosos dedicaram-se seriamente à flauta na década de 1960, entre eles James Moody, Harold McNair, Leo Wright, Charles Lloyd e Eric Dolphy. Até mesmo o mestre John Coltrane andou flertando com a flauta durante suas últimas gravações. Dolphy era um obcecado pela perfeição técnica – ele aproveitava até mesmo os intervalos entre uma e outra sessão de gravação para praticar, além de um incansável pesquisador. Quando em turnê pela Europa, Dolphy procurou trocar impressões com o virtuoso italo-cearense da flauta clássica Severino Gazzelloni, para o qual compôs a faixa Gazzelloni, constante de seu importante álbum Out To Lunch, gravado em 1964. Influenciado confessadamente pelo trabalho de John Coltrane, o saxofonista tenor Charles Lloyd grava interessantes álbuns onde também toca flauta, com Of Course, Of Course, gravado em 1964 e Charles Lloyd In Europe, gravado em 1968 e contando com o iniciante Keith Jarrett ao piano. Paul Horn, como a maioria dos flautistas, começou utilizando também o saxofone, até optar exclusivamente pela flauta, abandonando as peripécias do bebop e dedicando-se a alcançar sonoridades acústicas originais e belas, o que o levou a realizar gravações no interior do Taj Mahal e das pirâmides do Egito (ver seu álbum Inside, gravado em 1968). Na década de 1970 a flauta continua sua tranqüila ocupação no mundo do jazz, agora totalmente adaptada às possibilidades da amplificação eletrônica oferecida pelo jazz-rock. Jeremy Steig talvez seja o mais iconoclasta dos flautistas do jazz-rock ou fusion, produzindo os mais inusitados ruídos com seu instrumento e absorvendo sem qualquer pudor influências do blues, do rock, do jazz modal, do bebop e da música latina. Outro excelentes flautistas nesse contexto são Joe Farrell, Sonny Fortune e Lew Tabackin, um dos principais solistas da banda de Toshiko Akiyoshi. De lá para cá, a flauta ocupou todos os espaços possíveis no mundo do jazz, sendo quase impossível enumerar os importantes representantes desse instrumento. Apenas a título de orientação básica, podemos citar Sam Rivers, George Adams, James Newton (free jazz e vanguarda), Hubert Laws (third stream), Nicola Stilo (que gravou com Chet Baker), Robert Dick e muitos, muitos outros. Para os amigos fica a faixa ( ) I Remember You com James Clay, flautista do hard bop que injustamente nunca é citado na história da flauta-jazz. O álbum é A Double Dose Of Soul, gravado em 1960 para a Riverside. Com ele estão Nat Adderley (c), Victor Feldman (vib), Gene Harris (p), Sam Jones (b) e Louis Hayes (d). E nisso chega vovó Tícia com seu café forte e uma boa colher de doce de abóbora.

15 comentários:

Anônimo disse...

Em tempo de encerramento Festival “Tudo é Jazz” na cidade de Ouro Preto, o maior evento do país e antevespera do TIM Festival ,a ausência de novos conteúdos no Jazzseen fazia com que a ambientação jazzística se torna-se órfã.Ótimo tomar conhecimento dessa retomada.Edú.

thiago disse...

Nocivo esse Clay.

guttu disse...

Grande pedida Paula, parabéns pela bela resenha.

altamirando disse...

Flautista é Altamiro Carrilho, o resto é chupador de cana.

jaime lyra disse...

Bom tema, boa resenha. Meus parabéns para a Paula.

Danilo Toli disse...

Beijo querida, saudade!

abílio disse...

James Clay foi um grande sax tenor, além de competente flautista. Merecida a homenagem.

Internáuta véia disse...

Beleza de texto, Paulinha, muito bom de ler, e com interessante conteúdo...Adoro as histórias de vovô Acácio, e esse doce de abóbora de vovo Tícia, hummm, deu vontade de provar!

Anônimo disse...

Novos boletins visuais do encerrado Festival Tudo é Jazz de Ouro Preto foram colocados no You Tube no seguintes endereços: http://br.youtube.com/watch?v=GiegJM13LFg
http://br.youtube.com/watch?v=MmQ3FitZymo
Além das solertes resenhas de nosso amigo,rompedor de grilhões, Salsa no seu www.jazzigo.blogspot.com.Edú.

Mª Augusta disse...

Não esquecer que o Ipê Amarelo é a árvore símbolo do Brasil...
Muito boa resenha, como sempre! Gosto muito do som da flauta, bom conhecer um pouco da sua história no Jazz.

Salsa disse...

Caramba, Paulinha, que fôlego! Isso é um tratado sobre a flauta e, só para informar aqueles que não partilham de sua intimidade como eu, que você toca como poucos.
Você deveria ter ido a Ouro Preto, foi de perder o fôlego (como seu texto).
Beijos,

Danilo Toli disse...

Mais uma gostosa resenha da nossa amiga Paula.

Sergio disse...

pOIZÉ, sALSA. Fui lendo um por um os comentários esperando alguém dizendo o que merece repeteco... A meu modo, craro: putz, putz, putz e putz, novamente putz! Que aula, dona Paula!

Marília disse...

Realmente Sérgio tem razão: informativa e deliciosa resenha da Srta. Nadler. Parabéns!

Anônimo disse...

muito bom.ate passei a achar que este insttrumento poderia ser ouvido novamente.seguirei as dicas. obrigada Paula, e apareça mais.