02/03/2009

Urban Trombonist

Sempre encontramos pelas ruas aqueles que consideram jazz música menor, feita por amadores e autodidatas. Curiosamente, também sempre esbarramos naqueles que consideram o jazz uma música demasiadamente sofisticada, feita por gênios e apreciada por um seleto grupo de especialistas. Nós, amantes do jazz, sabemos que nem uma coisa nem outra procedem absolutamente. Ou seja, ambos têm razão em parte. Ocorre apenas que algumas orelhas são domesticadas a tal ponto que perdem a capacidade de ouvir. Outras são tão envenenadas pelo ruído fácil que perdem a capacidade de discernir as diferenças entre música, gritinhos e batucada. Sim, o jazz tem sido feito, em grande parte, por autodidatas dotados de ouvido absoluto, o que lhe fornece a seiva da espontaneidade e da liberdade. Mas o jazz também tem sido realizado por músicos com sólida formação acadêmica. Isso sempre ocorreu na história do jazz: veja, por exemplo, Buddy Bolden e Scott Joplin. É certo que hoje o academicismo tem sobrepujado gradativamente o autodidatismo, mas sempre haverá no jazz aquele espaço para a invenção destemida que, por sorte, vez por outra nos brinda com um genial improviso, fruto da mais irresponsável vontade de fazer essa música instantânea que é o jazz. Sim, eu sei que muitos músicos carregam seus improvisos escritos na manga. Mas eu poderia citar uma boa dúzia de instrumentistas em atividade que não necessitam desse cauteloso recurso para improvisar. Mas não viemos aqui oferecer denúncias contra ninguém. Viemos apenas confundir o amigo que nos visita e lê, afirmando que o jazz é sim uma música menor - no sentido de que não é e nem pretende ser "música séria" - no sentido de que não é e não pretende ser música clássica européia. O jazz foi e ainda é feito por autodidatas, mas também por músicos graduados em universidades. Sim, o jazz é uma música complexa, feita por homens e mulheres que por um motivo ou por outro não puderam ou não quiseram seguir a carreira de concertistas. O jazz é uma das poucas músicas populares que ultrapassa a categoria do artesanato, podendo ser classificada como arte. Muito disso se deve ao fato de que alguns instrumentistas sabem fundir a perícia técnica com os sentimentos que determinam o jazz, seja lá o blues, seja lá o swing, seja lá o spiritual, seja lá o que for, com a respectiva pitada de improviso. Um desses instrumentistas é o trombonista Urbie Green, nascido em Mobile, Alabama, em 8 de agosto de 1926.


São 82 anos de excepcional técnica a serviço do melhor jazz. Nem precisaríamos escrever nada sobre Urbie se considerássemos que ele já tocou com Gene Krupa, Woody Herman, Benny Goodman, Louis Armstrong, Count Basie, Leonard Bernstein, Frank Sinatra, Billie Holiday, Tony Bennett, Peggy Lee, Pearl Bailey, Ella Fitzgerald, Mile Davis, Charlie Parker, Coleman Hawkins, Dizzy Gillespie, Barbara Streisand, Perry Como, Aretha Franklin, Quincy Jones, J.J.Johnson, Tom Jobim, Burt Bacharach, Buck Clayton e Herbie Mann, apenas para citarmos alguns. Mas nós somos chatos e queremos falar mais sobre Urbie, que começou a tocar aos 12 anos. Após passar a adolescência nas bandas de Tommy Reynolds, Bob Strong e Frankie Carle, Urbie trabalha com Gene Krupa (1947-1950), Woody Herman (1951-1952), participa das famosas jam sessions de Buck Clayton (1953-1954), até que toca na banda de Benny Goodman (1955-1957). A partir da década de 1960' dedica-se às gravações em estúdio, tornando-se um dos mais respeitados trombonistas norte-americanos e recebe inúmeros prêmios, entre eles várias premiações dos críticos da Down Beat. Nesse meio tempo, grava mais de 30 álbuns como líder e cria a 'ghost band' de Tommy Dorsey. Praticamente insuperável nos registros altos, Urbie tem posto toda sua perícia técnica à disposição de nosso prazer, como no último álbum que pude adquirir, Sea Jam Blues, gravado a bordo de um cruzeiro em 1995 e lançado pela Chiaroscuro em 1998. Para os amigos fica a faixa La Salle , retirada do álbum Urbie Green - Septet & Octet, lançado pela Fresh Sound e contendo, entre outras gravações, as primeiras realizadas por Urbie, em 1953, para a Blue Note. Com ele estão Jimmy Lyon (p), Danny (Dante) Martucci (b), Doug Mettome (t), John Murtaugh (ts), Sam Staff (bs), e Jimmy Campbel (d). Boa audição e, se puder e quiser, mande um abraço para o Urbie AQUI. Eu já enviei o meu.

12 comentários:

Abílio disse...

Muito bom, Lester. Não conhecia o sujeito.

edú disse...

Certo dia recebi para um café professores do Conservatório de Tatuí – maior núcleo de aprendizado de música clássica do pais - e q faziam parte de um sexteto de sopros.Eles haviam terminado uma apresentação no local em q trabalhava.Durante essa curta apresentação – cerca de 40 minutos – tocaram um tema do saxofonista cubano Paquito de Rivera motivando meu contentamento na primeira fila e levantar de sobrancelhas.Durante o dito café indaguei ao líder do grupo sua opinião a respeito do jazz .Sua opinião foi categórica .Como músico erudito e professor apreciava muito o estilo.Mas , segundo ele, era impossível professar fé a dois deuses. A propósito, navio do jazz é o SS Norway.

John Lester disse...

Sim, é o tal do Floating Jazz Festival. Parece que a Chiaroscuro lançou alguns bons álbuns dessas jams em alto mar.

Grande abraço, JL.

João Luiz disse...

Jay Jay Johnson, Bob Brookmeyer, Curtis Fuller, são os primeiros a serem lembrados. Quando você cita Urbie Green como um dos melhores trombonistas de jazz, muitos perguntam: quem é esse cara? Conheço ótimas gravações dele dos anos 50/60 como sideman, inclusive muito bem mencionado por mr.Lester em seu comentário, "músico de excepcional técnica a serviço do jazz". Procurem ouví-lo minha gente, pois êle é tão bom quanto os três acima citados.

thiago disse...

trombone sinistro

Salsa disse...

Lester: sempre o caçador de pérolas. Boa lembrança.

LeoPontes disse...

Cada milesimo de segundo um novo aprendizado. Ótimo JL.

Abçs

edú disse...

Os discos desse cruzeiro - tenho uns três ou quatro (sujeito a conferir) e os da Chiaroscuro em particular - tem um pequeno senão.A insistência , por parte da gravadora , em colocar na última faixa um papo informal com o músico q encabeça o cd.Nem todos eles falando são tão bons como no domínio de seu instrumento.Nessa lista dos grandes do trombone não ficaria feio colocar Frank Rosolino e - puxando a sardinha para nosso lado - Raul de Souza.

Andre Tandeta disse...

Mr. Lester,
desculpe a sinceridade mas o texto é pura conversa mole pra boi dormir.
Desde a decada de trinta os musicos de jazz tem sempre uma formação musical bastante solida,muitos sairam de universidades ou das escolas de musica das Forças Armadas,da Marinha principalmente.Esse musico autodidata e que toca totalmente de ouvido ficou la pra tras ,bem nos primordios.Caso haja duvida recomendo consultar "Early Jazz" de Gunther Schuller,paginas 292 e 293.
Urbie Green é um musico excepcional e devemos ouvi-lo sempre,é um dos mestres do trombone. Otima essa faixa colocada aqui.
Abraço

John Lester disse...

Prezado e veemente Tandeta, obrigado pela participação, sempre contundente.

Após bater uma laje, não poderei acordar o boi, mas faço uma breve anotação.

Prezado Tandeta, não faz muito, por um desses dissabores do destino, fui expulso por faltas da Universidade Federal do Espírito Santo, onde havia sido aprovado em terceiro lugar para o vestibular de música. Aulas pela manhã, você sabe, aparecia 11:30 para pegar a presença e não obtinha sucesso. Mas não há como negar o aprendizado obtido: confirmei que a universidade não faz a menor falta para o artista genial. Claro, ela pode ajudar o aluno dotado e inteligente a tornar-se um músico competente – instrumentista ou compositor. Mas o gênio sobrevive sem ela. Os musicalmente medíocres, como eu, saem de lá executando de forma singela alguma peça mais simples ou compondo coisas como atirei o pau no gato. Mas o gênio, esse prescinde do academicismo e talvez até se favoreça sem ele.

Quanto às fontes, é bom lembrar que a Bíblia tem mais de 20 interpretações, cada uma delas de acordo com a visão cristã que determinada seita assume. Por isso, não baseio minhas opiniões apenas no que leio, citando a fonte, mas comparando-a com as demais disponíveis e igualmente confiáveis para, ao cabo, formar opinião própria, coisa rara nas esquinas e raríssima na net. É claro, e concordo com você, que Gunther Schuller é uma figura importante do jazz, nem tanto como tocador de tuba, nem tanto como compositor, nem tanto como regente, nem tanto como professor, mas sobremodo como crítico, estudioso e historiador do jazz.

Também por uma dessas vontades do destino, possuo a obra completa já publicada de Schuller, em inglês (pela Oxford) e em francês (pela Parenthèses). E, já que você citou o moço, ele mesmo não se cansa de pedir desculpas pelos erros mais crassos que comete em seus livros. Por exemplo: em seu livro The Swing Era: The development of jazz, 1930-1945, Ed. Oxford, 1989, p. 327, ele mesmo escreve: “I fear that I misjudged the pré-Calloway Missourians somewhat in Early Jazz. While admiring their elemental, fiery drive, I also suggested that they worked primarily in clichés. Cliché is probably too strong word.” Como se não bastasse, ele afirma, na mesma página, que "The twelve sides recorded by pre-Calloway Missourians are virtually unique in jazz-recording history and contain, in their particular idiom, at least a couple of masterpieces”. Ou seja, sua fonte, prezado Tandeta, é, no mínimo, sincera ao assumir e corrigir as próprias bobagens que fala enquanto os bois dormem.

E, nesse item Schuller, vale lembrar as palavras do crítico Blair Johnston: “Like American music itself, however, Schuller has not always steered clear of controversy — the very masses that admire him have sometimes been baffled by his uncompromising attitudes and blunt statements.”

Por isso, consulto mais de um livro antes de omitir opinião própria. Só não poderei me prolongar nesse tema por uma terrível fome. Mas, prometo, voltarei ao tema, citando críticos honestos e respeitáveis que admiram e exaltam o autodidatismo.

Reafirmo apenas que considero o autodidatismo saudável sim. Precisamos de pessoas capazes de transcender o arsenal acadêmico disponível, trazendo à tona descobertas, invenções, arte e tecnologia que a grande maioria dos universitários jamais foi e jamais será capaz de produzir. Vide Van Gogh e vide Charlie Parker.

Precisamos dos Bix Beiderbecke, Ornette Coleman, Lester Young, Ruby Braff, Trevor Watts, Errol Garner, Mary Lou Williams (como compositora), Krzysztof Komeda, John Zorn, Max Roach e tantos outros que nos fizeram e nos fazem coçar a cabeça quando tocaram ou quando tocam.

E, prezado amigo, não deixe escapar a oportunidade de ler na íntegra a esclarecedora entrevista concedida pelo crítico Gene Lees, onde há o seguinte trecho:

JJM You have stressed the educational background and technical knowledge that's necessary to be a good jazz musician.

GL Part of the myth of jazz, because it's an improvised music and requires improvisation, is that these guys were ignorant of music. There have been a very few jazz musicians who played pretty much by ear - which doesn't mean you have no talent, it means you don't even need the written note, you can hear it. A few guys like Errol Garner and Wes Montgomery could not read music, but by and large, most jazz musicians have had very good schooling, which is to say that jazz musicians have almost all had classical training, whereas classical musicians have not had jazz training. That is why the jazz musicians, such as Andre Previn, are able to go on to be symphony composers and conductors. Mel Powell, the stride pianst James P. Johnson and Earl Hines all had very good knowledge of the classical repertoire. Something else to be kept in mind, "self-taught" does not mean "un-taught." There are two or three composers, like Gil Evans and Robert Farnon, both of whom happen to be from Toronto, who trained themselves. They got scores and read them and studied them, and believe me, they know those scores as thoroughly as anybody from any conservatory. Farnon told me once, when he was first writing at age 15, he would write one part at a time, lining it up on the floor with papers spread all around him. He met Don Redman, who asked him if he had ever heard about writing on a single sheet of paper as a score. So when you say he was self-taught, sure, up to a point he was, but somebody showed him something along the way.

JJM There is a similar story about Benny Carter learning arranging by laying out parts on the floor…

GL Yes. You know, a lot of guys did that! It's a not uncommon phenomenon. (íntegra: http://www.jerryjazzmusician.com/mainHTML.cfm?page=lees.html ).

Quanto ao autodidatismo no jazz atual, a coisa continua fluindo normalmente, com diversos músicos sem qualquer formação acadêmica ou que largaram as universidades após alguns meses ou anos de estudo, sem concluírem seus cursos. Quanta saudade do Vitor Assis Brasil hein?

Ou seja, ser autodidata em música não significa não saber música. Aurélio e Houaiss deixam isto claro.

No mais, um grande abraço, JL.

figbatera disse...

Esse é o cruzeiro dos meus sonhos (com festival de jazz).

Muito bons os esclarecimentos do JL a respeito do comentário do Tandeta; este, com seu espírito "contestador", talvez não tenha entendido, inicialmente, as colocações de mister Lester.

John Lester disse...

Prezado Olney, apesar da distância, posso considerá-lo um grande amigo.

E não é porque quase sempre concordamos. É, antes, porque você sempre entende o que eu escrevo.

Discordar do que eu digo é saudável e construtivo. Mas discordar do que eu não disse é lamentável.

Um grande abraço, JL.