10/04/2009

A sobrevivência do mais apto

Já falamos diversas vezes sobre ele aqui no Jazzseen, mas nunca de forma específica e exclusiva. Quando vi a capa, sorri ao perceber em destaque (featuring) o nome da pianista Renee Rosnes. Contudo, no minuto seguinte, observando melhor a capa, considerei bastante indelicada a não citação do nome do baterista que os acompanha. Será que, no jazz, o preconceito em relação às mulheres está hoje menos latente que o preconceito contra os bateristas? Cheguei a lembrar das severas palavras de Reinaldo Santos Neves, presidente vitalício do Clube das Terças: "baterista bom é baterista maneta". Enquanto falava, um orgulhoso Reinaldo retirava do bolso rara e antiga estampa eucalol onde todos podíamos ver o tal baterista maneta de seus sonhos. Mas não acredito ser esse o caso de Jonas Johansen. Ele tem duas mãos bem firmes e coordenadas, que não se deixam intimidar pela inteligência contagiante de Rosnes e Pedersen. Merece que seu nome conste da capa desse álbum - homenagem ao pianista Kenny Drew - que é mais um dos muitos e excelentes álbuns gravados por Pedersen. Nascido na Dinamarca em 27 de maio de 1947 com o complicado nome Niels-Henning Orsted Pedersen, ou NHOP para os mais preguiçosos, começou ainda criança a estudar piano, passando logo em seguida para o contrabaixo, instrumento com o qual inicia sua carreira aos 14 anos de idade com a formação de seu primeiro conjunto, o Jazzkvintet 60. Músico virtuoso e preciso, seus dedos podiam manter a batida em qualquer contexto de tempo, desde o swing até o free jazz, pasando pelo bebop e pelo hard bop. Sim, sua criatividade e domínio técnico permitiram que se adaptasse perfeitamente aos biomas de espécimes tão díspares como Count Basie, Coleman Hawkins, Teddy Wilson, Ben Webster, Roy Eldridge, Benny Carter, Oscar Peterson, Joe Pass ou Bud Powell, Dizzy Gillespie, Chet Baker, Sonny Rollins, Miles Davis, Bill Evans, Dexter Gordon, Jackie McLean, Sahib Shihab, Roland Kirk ou Archie Shepp, Anthony Braxton e Albert Ayler. Na verdade, não houve músico de jazz que tenha passado pelas frias terras da Escandinávia e não tenha perguntado por Pedersen. Daí ter recebido, aos dezessete anos, convite de Count Basie para integrar sua banda, convite recusado pela menoridade que lhe vedava a residência e o trabalho nos EUA. Mais tarde, recusaria também o convite de Oscar Peterson para integrar permanentemente seu trio, substituindo Ray Brown. Nisso, continua integrando a banda Jazzhus Montmartre, de Copengagen, até que, na década de 1960, inicia sua imensa contribuição como sideman em uma série interminável de shows e gravações. Além de cobiçado acompanhante, NHOP grava alguns álbuns como líder, sobretudo para a gravadora SteepleChase. Na década de 1970 Pedersen inicia uma série de colaborações importantes com Stephanny Grappelli, Oscar Peterson e, com mais assiduidade, Kenny Drew, pianista com o qual elabora uma sólida amizade e com quem grava mais de 50 álbuns. São também desta década as gravações memoráveis que realizou para o selo Pablo com uma série de ícones do swing. Como líder, o trabalho de Pedersen pode ser situado no post-bop, quase sempre integrando suas raízes populares ao jazz, como no excelente álbum Dancing on the Table, gravado e lançado pela SteepleChase em 1979, com Dave Liebman (ts), John Scofield (g) e Billy Hart (d), onde ouvimos quatro composições próprias e uma do folclore local, Jeg Gik Mig Ud en Sommerdag. Para os amigos deixo a faixa-tributo Kenny gravada por esse músico que nos deixou precocemente em 2005, aos 58 anos.

12 comentários:

Vagner Pitta disse...

Indicação Fantástica, Roberto!

NHOP é, na minha opinião, o maior bassman da história do jazz - não desprezando, claro, outros contrabaixistas que foram grandes inovadores em seus quesitos.

E, sobretudo, NHOP é fantástico justamente pelo pelo fato que bem salientaste em sua resenha: "Músico virtuoso e preciso, seus dedos podiam manter a batida em qualquer contexto de tempo, desde o swing até o free jazz, pasando pelo bebop e pelo hard bop".

Isso mostra que NHOP foi um dos músicos que mais incorporou o verdadeiro "espirito" do jazz, aquele que nos permite entender que no jazz não há preconceitos de estilos e, muito menos, de sexo ou nacionalidade!


Abraços e obrigado Jazzseen por mais um belo post!

edú disse...

Dizem q a perfeição é inatingível , esse disco do “trio” de Pedersen(uma reunião de amigos, sobretudo) coloca severas duvidas nessa afirmação.Todos os três músicos respiram momentos sublimes nesse particular registro feito em homenagem ao melhor amigo do contrabaixista – o pianista Kenny Drew.As condições técnicas de mixagem , gravação, sonoridade, repertorio são espetaculares.Na minha opinião, certamente, um dos dez melhores discos de trio(bat/con ac/p) da década.Pessoalmente comprei mais de meia dúzia para presentear amigos e ouvi extensos elogios após ás consecutivas audições do mimo.Desobrigando levar em conta apenas minha opinião pessoal.Pedersen foi o maior contrabaixista do jazz após a morte de Oscar Pettiford.Sua sonoridade no cd demonstra tamanha técnica q em determinados trechos, propositais ou não, consegue colocar uma dimensão de violoncelo ao som do contrabaixo.No exercício da minoridade abandonava a pratica dos esportes de inverno para tocar, aos 13 anos de idade, com Bud Powell.Bela dica Bob.

Dimas (RS) disse...

Como baterista amador gostaria de agradecer ao Roberto por sua crítica construtiva sobre o preconceito que ronda os bateristas de todas as fases do jazz. Parabéns pelo bonito post.

Andre Tandeta disse...

Bonito! Esse é o Jazzseen .
Parabens ,Roberto.
Abraço

bia disse...

delicia...

Internauta Veia disse...

Que beleza...!Piano, o maravilhoso contrabaixo de Pedersen e a bateria de Jonas Johansen, do jeitinho que eu gosto...

Bom demais, Jazzseen!

John Lester disse...

Prezado Mr. Scardua, obrigado por mais uma excelente colaboração.

Grande abraço, JL.

Marília disse...

Muito bom Roberto. Obrigada!

figbatera disse...

Pela amostra, o disco deve ser mesmo ótimo!
***
Eu nunca soube que houvesse esse "preconceito" contra os bateristas; acredito que sejam opiniões isoladas - como a do inteligente e culto Reinaldo S.Neves - de uma minoria que, às vezes, nem consegue acompanhar com as mãos os mais simples compassos de uma música.
A menos que se refiram a alguns "porreteiros", que eu tb não aprecio, e que realmente interferem demais nos solos dos outros músicos.
Parabéns pela resenha.

Salsa disse...

NHOP não é parente do nhoq (perdoem-me, por favor) mas é muito melhor. Com certeza, está entre os melhores baixista que passaram e que ainda estão por aí.
Esse eu não tenho.

figbatera disse...

Pra quem aprecia sem preconceito, deixo aqui uma dica:

http://www.youtube.com/watch?v=UJsybbSHfx4&feature=related

Já tem uns 3 anos que está no Youtube, mas vale a pena ver/ouvir os geniais bateristas.
Abração!

Anônimo disse...

Parabéns pelo Blog!

Seria possível download ?

Não consigo achar o link.


Muito obrigado.

VC