08/04/2009

Jasmine

Enquanto alguns integrantes do Jazzseen nesse instante preparam suas malas em direção à Europa, nós ficamos por aqui mesmo, persistindo nessa luta insana em promover o jazz. Não bastassem as ausências momentâneas, facilmente contornáveis com uma gostosa saudade, ainda somos obrigados a organizar na alma as despedidas definitivas, somente solucionadas com o transcurso de longos anos e muitas lágrimas. Bud Shank partiu no dia 2 de abril de 2009. Ele não volta, é o que dizem. Aos vinte anos graduava-se pela University of North Carolina, onde desenvolve à perfeição não apenas o sax alto, como também a flauta, o clarinete e o sax tenor. Nascido em Ohio, parte para a California, onde se tornaria um dos expoentes do cool jazz, com tonalidade franca, clara e suavemente rascante. Associada à técnica exemplar – foi um dos mais competentes discípulos de Charlie Parker – sua fascinação pelas descobertas permite-lhe transbordar os limites do jazz, aventurando-se pela bossa nova e pelo rock (sim, ouça a flauta em California Dreamin' do The Mamas and The Papas). Na Costa Ensolarada estuda com Shorty Rogers e passa a integrar uma série de combos com Charlie Barnet, Stan Kenton, Howard Rumsey, Bob Cooper, June Christy, Gerry Mulligam, Art Pepper, Nat King Cole, Miles Davis, Barney Kessel, Shorty Rogers, Shelly Manne, Anita O’Day, Jimmy Giuffre, Ella Fitzgerald, Bill Perkins, Mel Tormé, Lou Levy, Ernestine Anderson, Johnny Mandel, Billy Eckstine, Oscar Peterson, Charlie Byrd e Laurindo Almeida, guitarrista brasileiro com o qual produziria alguns dos melhores trabalhos de jazz-bossa. Embora tenha sido um dos pioneiros e melhores flautistas do jazz, abandona-a para entregar-se mais detidamente ao sax alto, instrumento com o qual alcança a maestria e voz própria. Dedicando-se aos estúdios e às trilhas sonoras na década de 1960, ainda encontrava tempo para gravar com Chet Baker, Sérgio Mendes, Herb Ellis, Benny Goodman, Pete Rugolo, Joe Pass, Maynard Ferguson, Peggy Lee, Benny Carter, Tom Jobim, Phil Woods, Jack Sheldon, George Shearing, Lorez Alexandria, Wanda Sá, Julie London, Astrud Gilberto, Gerald Wilson, Steve Allen, Lalo Schifrin, João Gilberto, Henry Mancini, Jean-Luc Ponty, Clare Fisher e muitos outros, entre eles João Donato, iniciando com o álbum A Bad Nonato uma parceria descontínua de quarenta anos. Na década seguinte formaria o LA Four, com Laurindo Almeida, Ray Brown e Chuck Flores, além de contribuir com mais algumas dezenas de gravações memoráveis com diversos amigos, entre eles Sarah Vaughan, Michel Legrand, Maria Maldaur, Rosemary Clooney, Albert Mangelsdorff, Oliver Nelson, Ray Charles, Teresa Brewer, Quincy Jones, Clark Terry, Freddie Hubbard, Marco Silva e Bobby McFerrin. 

No dia anterior à sua morte, aos 82 anos, Bud estava num estúdio em San Diego, participando da gravação de mais um álbum. No dia seguinte, em sua casa em Tucson, Arizona, morreu. Para os amigos saudosos fica a faixa Jasmine , retirada do álbum Bud Shank & Short Rogers, gravado em março de 1954 e lançado pela Pacific Jazz em 1955. Com Bud estão Shorty Rogers (flh), Jimmy Rowles (p), Harry Babasin (b) e Roy Harte (d).É.

12 comentários:

Marília disse...

Adorei a despedida.

edú disse...

Nem mesmo 136 razões o impediram de cumprir com louvor sua missão de prestar a melhor informação aos visitantes do blog.Bravissímo JL.

edú disse...

leia-se 163 razões.

Salsa disse...

Mandou bem , lester.

Fernando disse...

olá, muito bom seu blog
queria deixar uma sugestão
escute o trabalho deste pianista
www.rodrigoandreiuk.com

é ótimo
abraço
ps- deixo um video dele:
http://www.youtube.com/watch?v=gMAeHWZ3ayU&feature=player_embedded

thiago disse...

sax nocivo

Danilo Toli disse...

Que pena, eu adorava o Bud.

edú disse...

Nem mesmo a distancia , na primeira vez, durante a edição do Chivas Festival de 2004, de menos de 15 metros e na segunda ,um aperto de mão e um pedido de autografo em q colocada a dedicatória havia se esquecido da assinatura tornaram Bud Shank menor para mim.As apresentações em si , em SP e no Iridium em NY em 2006, foram medianamente regulares.Não existia mais o saxofonista q em conjunto com Jackie Mc Lean, Phil Woods e Art Pepper fizeram a linha de frente do sax alto “ branco” posterior a revolução chamada Charlie Parker .Existia , na realidade, um senhor próximo de seus oitenta anos de cabelos e barbas brancas q lembrava bastante a figura de Santa Claus( Papai Noel) enfrentando o palco e a presença do público com bastante dignidade embora sem muito brilho.Shank – q na verdade se chamava Clifford (q odiava)Everett Shank já tinha se colocado como figura destacada do movimento West Coast Jazz.Ele, contudo, tinha severas restrições a essa tipificação, se considerando um "bebopper" de origem com influencia marcante de Lester Young.Shank não apresentava restrições pessoais aos estilos de musica.Por mais q as centenas de gravações de jazz com o enorme elenco de grandes talentos citados na resenha, será para o publico médio sempre lembrado pelo 33 segundos de seu solo de flauta na canção "Califórnia Dreamin" do quarteto "Mamas and The Pappas" como recordam todos os seus epitáfios.Mas o próprio oficio da musica representava uma companhia desafiadora pra Shank seja idoso, cansado deslocando-se ao Brasil gravar com o trio de João Donato em 2006 um cd (na opinião da critica “acomodado”) e um dvd q registra os preparativos e ensaios para as gravações ( considerado pela mesma critica como notável).Numa união q foi precedida no ano de 1965 no disco "Bud Shank & His Brazilian Friends". Shank não tratava do novo trabalho com João Donato como um recomeço mas sim o inicio de uma nova cumplicidade.Esse homem de desafios não relutou mesmo diante do maior deles: a opinião de seu medico ao diagnosticar a embolia pulmonar e a sugestão da interrupção do disco q gravava pelo risco da vida.Shank foi em frente a despeito de tudo marcando presença no estúdio até o penúltimo dia da própria.No final, e o q importa para nós q apreciamos o jazz - é a sonoridade de seu sopro dos anos 50 e sessenta, misto de técnica autodidata e interpretação sutil e delicada.Do flautista de notável técnica q sentiu o pesar dos anos no inicio dos anos 80 e preferiu concentrar o q restava de sua energia criativa no sax alto.E dos primeiros músicos q associou sem a ambição desenfreada mercantilista a música brasileira (na época samba canção , não bossa nova ) gravando interessantes discos com um parceiro de seu período na orquestra de Stan Kenton – o violonista Laurindo de Almeida.Descanse em paz Bud.

Andre Tandeta disse...

Mr. Lester,
otima escolha da faixa postada aqui.
Edú,
Bud Shank é com certeza um grande musico e dominava inteiramente o vocabulario de bebop,herança do genial Charlie Parker. Phill Woods é outro dos descendentes de Parker que merece sempre ser lembrado quando falamos de sax alto no jazz,tanto faz se branco, preto,azul, vermelho etc.. Art Pepper já é outro caso: um musico mais "melodico"(termo que, reconheço,não define muito mas tenho certeza que todos entendem o que quero dizer ),construindo seus solos de maneira bem diferente de Woods e Shank. Quanto a Jackie Mclean voce sabe que é um musico que eu não gosto . Não é nem de perto do nivel desses tres citados.Shank,Woods e Pepper cada um a seu modo são legitimos representantes do que ha de melhor no sax alto no jazz ,seja pela tecnica,seja pela sonoridade,seja pelo swing ou seja pelo vocabulario.Podemos dizer que são mestres . Termo esse que jamais pode ser aplicado a Mclean. Obviamente isso é minha opinião, só isso. Quem gostar ,bom proveito.
Abraço

Érico Cordeiro disse...

Bud Shank é mais uma estrela a se juntar à imensa constelação de astros do jazz que partiram para o outro plano, onde as jam sessions jamais acabam.
Em homenagem a ele tenho ouvido o Chet Baker Sextet (onde ele toca um belíssimo sax barítono), o surpreendente Uma tarde com Bud Shank e João Donato (disco bonitinho prá caramba, sô) e o Live at Haig, onde, no auge da sua forma física e técnica, ele apresenta uma versão sublime de Lover Man.
Nesse exato momento ouço o belo I Told You So, onde um outonal Bud Shank esbanja experiência e lirismo - a versão de Emily é sensacional e a de My Old Flame é emocionante. O disco é ótimo e o piano é, simplemente, de Kenny Barron. Não precisa dizer mais nada, né?.

Caro Tandeta, sem querer polemizar com você (não sou músico e nem tenho conhecimento de teoria musical), respeito seu gosto, mas acho o Jackie McLean um saxofonista fenomenal. É uma pena que você não goste dele - embora eu também ache aquela fase free meio sacal - mas no geral os discos dos anos 60 gravados para a Blue Note são muito bons. Destaco o Vertigo (esse é excepcional, com uma constelação que vai de Kenny Dorham e Donald Byrd a Herbie Hancock e Sonny Clark) e o Bluesnik (com Freddie Hubbard e Kenny Drew), que são os meus favoritos. Também muito bacana é o Music From The Connection, do Freddie Redd.
Ouça esses três discos e tenho certeza que sua opinião sobre o velho Jackie vai mudar. Ah sim, os bateristas que tocam nesses cd's são Tony Williams, Pete La Roca e Billy Higgins - ninguém pode dizer que o cara não andava em ótimas companhias, né?
Abraços

Roberto Scardua disse...

Quero agradecer aos amigos virtuais Tandeta e Cordeiro pelos comentários francos e informativos.

Obrigado!

Andre Tandeta disse...

Roberto,
eu é que agradeço. Sou um declarado fã do Jazzseen ,um blog onde encontramos informação ,bom humor e curiosidades interessantes.Tudo sempre muito bem escrito.
Caro Cordeiro,
em primeiro lugar eu não sou o dono da verdade e acho muito saudavel que minhas opiniões sejam contestadas. Nem acho que os musicos detem o privilegio de opinar sobre musica ,afinal os ouvintes são tão importantes quanto quem toca ou compõe,sem voces nada teria sentido.
Existem muitas pessoas que como voce apreciam Jackie Mclean, que é um nome historico do jazz. Conheço quase todos esses discos que voce mencionou e mesmo assim continuo não gostando.
Abraço