12/07/2009

O jazz morreu - Kelly Rossum

Além dos péssimos salários, sempre pagos com atraso, o Jazzseen agora quer nos obrigar a escrever sobre mulheres que tocam jazz. John Lester, nosso Editor-Chefe, que me perdoe, mas sobre este assunto já dei minha opinião irretratável. Sendo assim, para manter meu emprego, concordei em escrever a matéria de junho para a coluna O Jazz Morreu. E não vou falar sobre pianista, que o Jazzseen já falou de mais de 70 pianistas desde sua fundação (veja nosso índice na coluna da direita). Vamos falar é de trompetista, porque foi um deles que inventou o jazz, não é mesmo Buddy Bolden? Embora tenha o defeito de ser muito jovem – Kelly Blossum nasceu em 1970 – até que o garoto tem sabido contribuir para a evolução do jazz sem aquele absoluto divórcio com a tradição, característica de nove entre cada dez músicos de vanguarda que alegam produzir jazz. Não, Kelly sabe das coisas do sul, sabe do blues e dos spirituals. Sabe também das coisas do norte, sabe do stride e do bebop. Nascido numa família musical, com pai clarinetista e mãe pianista, Kelly estudou música no colégio e depois em algumas faculdades, bacharelando-se pela University of Nebraska, obtendo o mestrado na University of North Texas e o doutorado na University of Minnesota, nada mal para uma pessoa que usa o corte de cabelo moicano. Sem dúvida Kelly representa uma das esperanças do jazz moderno, não apenas por sua competência acadêmica, mas, como já dissemos antes, por sua vinculação irrestrita às vozes do passado, o que mantém sólida a ponte que interliga os estilos do jazz entre si. Kelly também não se mantém indiferente à universalização do jazz, compondo e tocando com gente de todo canto, como Lars Jansson e Bengt Eklund (Suécia), Denis Colin (França), Darin Pantoomkomol (Tailândia), Eric Miyashiro e Jun Miyake (Japão), Ignacio ‘Nachito’ Herrera (Cuba), Alexander Serguencko e Vyacheslav Shumilov (Rússia), Sir David Wilcox (Inglaterra), além dos compatriotas Juini Booth, Bob Mintzer, Woody Witt, Joe LoCascio, Wessell ‘Warmdaddy’ Anderson, Ted Nash, Anthony Cox, Phil Hey e liderar seu próprio quarteto. Num estilo ainda insuscetível de classificação, Kelly tem conduzido a tradição do dixieland, do swing e do bebop em direção às novas concepções e roupagens oferecidas pela música eletrônica atual, como a ambient e a trance music. Com um pé em Louis Armstrong e outro em Wynton Marsalis, Kelly tem seguido adiante, trazendo soluções bastante inteligentes e criativas para os problemas que a modernidade tem trazido ao jazz. Para os amigos fica a faixa Mr. Blueberry , retirada do álbum Family, gravado em 2008 para o selo 612 Sides. Com ele estão os competentes Bryan Nichols (p), Chris Bates (b) e JT Bates (d).

22 comentários:

Érico Cordeiro disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Érico Cordeiro disse...

Caro Bravante,
Muito groove.
Parece que pegaram o King Oliver e colocaram no meio de uma gravação do Bobby Timmons ou do Horace Silver - com um resultado muito bacana.
Acho que o moicano bebeu da fonte do soul jazz dos anos 60 - só faltou o órgão Hammond.
Abração!!

Frederico Bravante disse...

Ray Charles que o diga!

Abílio disse...

Excepcional trompetista. Obrigado pela dica Mr. Bravante.

edú disse...

Um pé em Louis Armstrong e outro em Wynton Marsalis é um espacate daqueles q nem Rudolf Nureyev conseguia fazer quando dava seus “pulinhos” em cena.

Oliveira Lins disse...

O jazz precisa de mais dançarinos como Kelly.

PREDADOR.- disse...

Nem vou imiscuir-me neste assunto. Vai arranjar o que fazer mr.Bravante. Isso definitivamente não é jazz!

pituco disse...

signori bravante,
curioso que sou amigo pessoal e vizinho do miyake jun (tb trompetista)...rs

o jun é bem manjado nas quiçaçás das trilhas e comerciais...inclusive já trabalhei pra ele em algumas ocasiões.

agora, sem provocação...mas, não entendo como 'vanguarda' o trabalho do kelly...pelo menos, o áudio que foi postado aqui.

é isso aí,
abraçsonoros
namaste

Frederico Bravante disse...

友人 Pituco, sou natural de Mallorca e não da Sicília. Por aqui, música de vanguarda não tem que ser necessariamente aquela coisa horrenda que ninguém entende, exceto a meia dúzia de iniciados que a toca. Se tanto!

Subindo no muro e espiando, notaremos que não há relação sine qua non entre vanguarda e ausência de graça: o nascimento da bossa nova que você tanto aprecia demonstra bem a situação em comento.

Experimentalismo é a senha. Se acompanhada de simpatia sonora, melhor ainda em minha estreita concepção.

Observe o som produzido pelo pianista na curta faixa em apreço. Não podemos dizer que é mera repetição das lições de Ray Charles. Prestando mais atenção, também percebemos que a alegre surdina de Kelly não é tão elementar quanto possa sugerir um ouvido distraído. O mesmo ocorre com baixo e bateria, embora mais discretamente, o que talvez demande cotonetes.

São escorregadas assim que levaram muitas pessoas a considerar João Gilberto desafinado e Louis Armstrong apenas um crioulo engraçado.

Na verdade, o ideal seria poder ouvir o álbum na íntegra, o que infelizmente não é permitido via Jazzseen.

E, por falar nisso, gostou do Zoot Sims?

さようなら

Salsa disse...

Tenho que concordar com Bravante. O som é clássico mas com dicção meio rock'n'roll. Ao mesmo tempo que faz reverência à tradição há uma certa dose de escárnio blasé (se é que posso unir as duas imagens)

Salsa disse...

PS - valeu pela força aí ao lado.

Salviani disse...

O cara do piano destroça os acordes em lindos blocos desarmôn. Seria um grove estilhaçado, o que me soa bastante interessante e moderno.

pituco disse...

sr.bravante,
acredito que o jazz seja uma praia, onde o experimentalismo é uma exigência dogmática...hehehe...aquele lance da liberdade de criação e coisa e tal.

talvez, eu seja um ouvinte vanguardeiro mais tradicionalista...hermeticamente se falando...rs

qto ao prêmio, infelizmente, ainda não pude usufrui-lo...acredito que em breve.

abraçsonoros
namaste

ps.devo postar alguma música do jun lá no meu blog.

John Lester disse...

Mr. Pituco, não dê muita importância às rabugices de Mr. Bravante. É o tipo que lutou gratuitamente contra a ditadura de Franco e, agora, pede aumento todo mês ao Jazzseen.

Passaremos mais tarde no seu blog, para conferir o som do Jun.

Grande abraço, JL.

Salsa disse...

aha, rs
Gostei do "experimentalismo é uma exigência dogmática". Lembrou-me do filósofo que falou algo sobre "o novo como tradição". O novo se tornou uma exigência, um dogma, em determinado momento.

pjnunes8 disse...

Pituco e Salsa, um caso de amor?

pituco disse...

signori, nunes...menos, menos...ok

o foco é música...sintoniza-te.

amplexosonoros

figbatera disse...

O que seriam dessas ótimas resenhas sem esses deliciosos comentários?!

John Lester disse...

Mestre Olney, já estávamos preocupados com você. E seu blog? Queremos mais resenhas, ok?

Grande abraço, JL.

Érico Cordeiro disse...

Subscrevo o que disse o bravo Capitão Lester.
Vamos movimentar o nosso querido Melobateromania, seu Olney!!!!
Abração!

edú disse...

Subescrevo o "puxão" de orelhas no nosso Denny Zeitlin da Zona da Mata.

figbatera disse...

Calma pessoal, em breve postarei alguma novidade.
Eu não tenho um "repertório" com o dos colegas aqui; mesmo pq gasto meu tempo lendo e comentando nos seus blogs, sobrando-me, pois, pouco tempo pra cuidar do meu...rs